Últimas

“Justificando o injustificável”: como mercado recebeu ata tão “confusa” como o Copom

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
“Justificando o injustificável”: como mercado recebeu ata tão “confusa” como o Copom

A ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (23), não conseguiu dissipar as dúvidas deixadas pelo comunicado da reunião anterior e acabou reforçando a percepção de inconsistência na estratégia do Banco Central, segundo avaliação de economistas e analistas de mercado.

O documento detalha a decisão unânime de reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, e tenta justificar a escolha por uma trajetória de flexibilização mais gradual, alinhada às projeções de mercado e com menor volatilidade para a atividade econômica. Ainda assim, o esforço de explicação não convenceu parte relevante dos agentes.

A leitura predominante é de que o Copom apresentou um diagnóstico mais duro para a inflação, mas adotou uma ação mais branda – combinação que gerou críticas e aumentou o ruído na comunicação da política monetária.

Neste cenário, a curva brasileira de juros futuros exibia durante a manhã movimento semelhante ao visto na semana passada, após o comunicado do Copom, com as taxas curtas caindo e as longas subindo – ainda que as variações fossem bem menores. Por trás do movimento está a percepção de que o BC poderá, de fato, promover mais cortes da Selic no curto prazo, o que demandaria juros mais altos no longo prazo para conter a inflação.

Na última sexta-feira – atualização mais recente – a precificação das opções de Copom negociadas na B3 indicava 68,50% de chance de manutenção da Selic em agosto, contra 26% de chance de corte de 25 pontos-base. Na terça-feira passada, antes da decisão do Copom, havia 58% de probabilidade de manutenção, contra 38% de chance de corte de 25 pontos-base.

Entre os pontos que chamaram atenção na ata está o reconhecimento explícito de que o balanço de riscos para a inflação voltou a apresentar assimetria altista, indicando maior probabilidade de surpresas negativas do que positivas.

Para Gino Olivares, economista-chefe da Azimut, essa mudança torna ainda mais difícil entender o corte de juros. “A Ata trouxe uma informação importante que não apareceu no comunicado: a assimetria altista dos riscos. (…) Isso representa não apenas uma mudança relevante com relação à visão da reunião anterior (abril), como torna ainda mais difícil entender a decisão de cortar juros”, afirma.

A avaliação é compartilhada por diferentes casas. Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Investimentos destaca que o Banco Central optou por cortar juros mesmo com projeção de inflação acima da meta e ambiente de expectativas deteriorado, o que exige um esforço adicional de justificativa por parte da autoridade monetária.

“O saldo indica um plano de voo inclinado à pausa na próxima reunião, embora não descarte reduções adicionais na margem. Essa dificuldade em conciliar o diagnóstico severo com a ação flexível mantém os questionamentos sobre a credibilidade e a função de reação do Banco Central. Além disso, ao dar a entender que a barra para aumentos de juros é excessivamente elevada, o BC passa a impressão de que a Selic encontrou um teto”, aponta Natalie.

A principal linha de defesa do Copom foi a avaliação de que uma postura mais agressiva, com elevação da Selic para garantir a convergência da inflação no horizonte tradicional, poderia gerar volatilidade excessiva e levar a inflação a ficar abaixo da meta no futuro.
Esse argumento, no entanto, não foi bem recebido.

Segundo Olivares, a justificativa poderia até ser usada para evitar uma alta de juros, mas não para sustentar um corte. “Não está explicado qual seria o problema de termos inflação abaixo da meta, sobretudo em um cenário em que ela frequentemente supera o objetivo”, diz.

Na mesma linha, Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, foi mais direto: o Banco Central “justificou o injustificável” ao sinalizar conforto em não cumprir a meta no horizonte usual.

“Entendo que o BC até quis ser hawk (duro com a inflação) na ata, mas acabou confirmando que segue dove (brando) e confortável em não entregar o seu mandato”, acrescentou, referindo-se à meta de inflação.

Comunicação confusa persiste

A comunicação considerada inconsistente foi um dos pontos de crítica. Para Gabriel Pestana, economista da Genial Investimentos, a ata traz sinais mistos, combinando trechos mais duros com uma estratégia que prioriza a suavização da atividade econômica.

“A leitura é de uma comunicação confusa, com elementos mais hawkish convivendo com uma postura predominantemente dovish”, afirma.

Natalie Victor, da SulAmérica, também avalia que a tentativa de conciliar um diagnóstico mais severo com uma ação mais flexível aumenta as dúvidas sobre a função de reação do Banco Central.

Já Roberto Dumas, estrategista da GCB, afirma que o documento lista mais fatores que justificariam cautela — ou até aperto — do que elementos que sustentem a continuidade dos cortes. “O cenário descrito não justificaria esse movimento”, resume.

“A leitura final é que a ata deixa o mercado meio perdido. Ao mesmo tempo em que enumera fatores que recomendariam cautela, parece buscar uma justificativa para continuar cortando a taxa de juros. Na nossa avaliação, o cenário descrito não justificaria esse movimento.

Mudança implícita no horizonte de convergência

Outro ponto sensível foi a percepção de que o Banco Central estaria, na prática, estendendo o horizonte de convergência da inflação para além do período tradicional.

A ata indica que a inflação deve retornar à meta apenas no primeiro trimestre de 2028, o que sugere um alongamento do prazo considerado relevante para a política monetária.
Para analistas, essa mudança implícita não foi suficientemente explicada e contribuiu para aumentar a desconfiança.

Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research, imaginava que na ata o Banco Central faria esforço adicional para esclarecer alguns pontos, mas ficou devendo, segundo ele. “Piorou o humor do mercado assim que foi divulgada. Veio confusa”, afirma.

Conforme ele, o colegiado do BC, na ata, não conseguiu explicar como fez algo heterodoxo, ao mudar, no comunicado na semana passada, o horizonte relevante do terceiro trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028. Esse ausência, diz, eleva a desconfiança dos agentes com o Banco Central.

Próximos passos mais incertos

Apesar das críticas, a ata também trouxe sinais de maior cautela para os próximos movimentos. A linguagem perdeu a indicação explícita de continuidade do ciclo de cortes e passou a enfatizar a dependência de dados.

Rafael Rondinelli, da MAG Investimentos, destaca que o Copom abriu espaço para pausas e retomadas no processo de ajuste, indicando uma função de reação mais flexível.

Na prática, isso elevou a barra para novos cortes no curto prazo. Parte do mercado passou a ver maior probabilidade de interrupção do ciclo já na próxima reunião, embora ainda haja divergências.

O principal risco apontado pelos economistas é o de desancoragem adicional das expectativas de inflação.
Ao sinalizar maior tolerância a uma convergência mais lenta, o Banco Central pode levar agentes a revisarem suas projeções para cima, em vez de ajustarem suas estimativas de juros.

Segundo Natalie, da SulAmérica, esse movimento já começa a aparecer, com risco de que o mercado passe a incorporar um cenário de inflação estruturalmente mais elevada. Para Pablo Spyer, da ANCORD, a ata reforça a necessidade de manutenção de política monetária restritiva por mais tempo, dada a deterioração do ambiente inflacionário e das expectativas.

The post “Justificando o injustificável”: como mercado recebeu ata tão “confusa” como o Copom appeared first on InfoMoney.