Faltando apenas 15 dias para o fim do prazo de entrega da declaração do Imposto de Renda 2026, a Receita Federal já havia recebido até a última quinta-feira (14) pouco mais de 24 milhões de declarações, número ainda distante da expectativa oficial de 44 milhões de envios até 29 de maio. Quase 60% das declarações entregues até agora, segundo o orgão, foram feitas no modelo pré-preenchido, acima dos 50,3% registrados no ano passado.
O salto reflete o avanço da digitalização do sistema tributário brasileiro. Neste ano, a Receita ampliou a integração de dados com plataformas como eSocial, Receita Saúde, sistemas financeiros, registros imobiliários e informações sobre DARFs pagos, além de melhorar a captura de dados de dependentes, bens e até movimentações de renda variável.
Mas é justamente nesse ambiente de automação crescente que é preciso ter mais atenção. “A declaração pré-preenchida funciona como ferramenta de apoio, não como garantia absoluta de acerto”, afirma Christian de Luca, advogado especializado em Direito Empresarial e Tributário e sócio do escritório Domenico de Luca Law.
Segundo ele, um dos erros mais frequentes é assumir que tudo que aparece automaticamente no sistema da Receita está necessariamente correto. “O contribuinte muitas vezes confia cegamente nos dados importados, mas pode haver divergências se a fonte pagadora retificou informações depois ou se houve falhas na consolidação dos dados”, explica.
A Receita tem insistido no alerta de que a pré-preenchida facilita, mas não transfere responsabilidade. Na prática, se uma empresa, banco, hospital ou instituição financeira informou dados errados ao Fisco, cabe ao contribuinte identificar e corrigir.
Risco maior
E o risco de erro aumentou justamente porque o sistema está cruzando mais bases simultaneamente. Na área da saúde, por exemplo, esta é a primeira declaração com integração total do Receita Saúde, sistema que digitalizou recibos médicos obrigatórios desde 2025. Isso significa que despesas médicas, historicamente campeãs de inconsistências, agora entram sob fiscalização ainda mais rigorosa.
Erros mais comuns que levam à malha fina:
- ganhos com apostas esportivas
- saldos em plataformas de bets
- dependentes com rendimentos omitidos
- inconsistências em Pix para restituição
- dados de empregados domésticos via eSocial
Saiba o que fazer para não ter problemas:
Na avaliação de Christian de Luca, os principais tropeços que precisam ser evitados:
1. Não confie integralmente na pré-preenchida
O erro campeão continua sendo aceitar os dados automáticos sem confronto com informes oficiais. “Se houver divergência entre a pré-preenchida e o informe de rendimentos, a referência deve ser o documento oficial emitido pela instituição”, explica o advogado.
2. Evite omitir rendimentos de dependentes
A Receita ampliou os alertas preventivos para esse tipo de inconsistência, por isso inclua todas as fontes de receita também do dependente.
3. Não adianta inflar despesas médicas
Com o Receita Saúde totalmente integrado, o campo ficou ainda mais sensível. Seja o mais fidedigno possível.
4. Fique atento à declaração de bens com valores inconsistentes
Especialmente imóveis, investimentos e heranças. Todos os dados dos sistemas de cartórios e Justiça estão sendo cruzados.
5. Não ignore ganhos com apostas
Agora existe campo específico, e a fiscalização aumentou porque as plataformas são obrigadas a enviar os dados para a Receita.
Caiu na malha? Saiba o que fazer
Se você caiu na malha fina, não precisa entrar em pânico. Se a inconsistência for identificada depois do envio, ainda há saída. Segundo De Luca, o caminho depende da origem do problema. Se o erro for do próprio contribuinte, a solução mais rápida costuma ser a declaração retificadora.
“A retificadora substitui integralmente a original e pode ser feita quantas vezes forem necessárias, desde que ainda não exista fiscalização formal em andamento”, explica.
Nesse caso, o processamento costuma ocorrer em poucos dias úteis. Mas há efeito colateral importante: quem retifica geralmente perde posição na fila de restituição e pode acabar empurrado para os lotes residuais.
Se o erro estiver nos dados informados pela fonte pagadora, o procedimento muda. “O ideal é cobrar imediatamente a instituição para emissão de informe retificador e acessar o e-CAC para verificar exatamente qual divergência foi apontada”, explica.
O e-CAC, portal digital da Receita Federal, virou ferramenta essencial para quem quer acompanhar o processamento da declaração. “Hoje é o principal canal para exercício de defesa administrativa digital perante a Receita”, afirma o tributarista.
É lá que o contribuinte consegue:
- verificar pendências
- identificar inconsistências
- acompanhar eventual retenção em malha
- apresentar documentos de defesa
Restituição pode atrasar
Quem cai na malha fina e tem restituição a receber não perde o dinheiro, mas perde tempo. “A restituição fica retida até a validação final da declaração e o pagamento vai para lotes residuais”, afirma De Luca. Embora o valor seja corrigido pela Selic, isso pode comprometer o planejamento financeiro de quem contava com o crédito mais cedo.
Leia Mais: Bets no IR 2026: veja como declarar ganhos e evitar a malha fina
Quem precisa declarar
Estão obrigados a entregar a declaração quem, em 2025:
- recebeu rendimentos tributáveis acima de R$ 35.584
- teve receita bruta rural acima de R$ 177.920
- recebeu rendimentos isentos acima de R$ 200 mil
- obteve ganho de capital na venda de bens
- tinha patrimônio acima de R$ 800 mil
- realizou operações em bolsa acima de R$ 40 mil
- teve lucro tributável em vendas de ativos
- possui trust no exterior
- atualizou bens no exterior
- detalhou ativos de entidade controlada no exterior
Reta final
O relógio está correndo e o prazo final vai até 23h59 de 29 de maio, uma sexta-feira. Ou seja, o último final de semana será o do dia 23 e 24 de maio. O contribuinte também precisa ficar atento a fraudes. A Receita reforçou alerta contra golpes, recomendando que contribuintes usem apenas os canais oficiais da Receita Federal como o Gov.br ou o programa oficial do IR, tanto no computador como no celular.
Vale lembrar que a tecnologia tornou a declaração mais rápida. Mas também tornou o cruzamento de dados muito mais implacável. O recado do especialista é simples: confira todos os dados e não deixe tudo para a automação. Ela ajuda, mas conferência humana continua indispensável.
The post IR 2026 entra na reta final: veja erros que podem travar sua restituição appeared first on InfoMoney.

