A decisão do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de acabar com o imposto federal sobre compras internacionais de até US$ 50 reforça uma estratégia que vem sendo desenhada pelo Palácio do Planalto desde o início do ano de concentrar esforços em medidas de impacto imediato no bolso do eleitor.
O fim da chamada “taxa das blusinhas”, oficializado por medida provisória publicada nesta terça-feira (12), se soma a outras iniciativas recentes do governo voltadas ao consumo popular, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil mensais e o lançamento do Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas.
Fontes próximas ao governo avaliam que o foco em renda, crédito e consumo começou a produzir efeitos políticos. A leitura ganhou força após a divulgação da nova pesquisa Genial/Quaest, que mostrou melhora parcial da percepção sobre o governo e desaceleração do pessimismo econômico.
Segundo o levantamento divulgado nesta quarta-feira (13), a aprovação do governo subiu de 43% para 46%, enquanto a desaprovação caiu de 52% para 49%.
A melhora apareceu principalmente entre segmentos considerados estratégicos para o Planalto. Entre eleitores independentes, a desaprovação recuou e a avaliação negativa da economia perdeu intensidade. O governo também registrou recuperação entre faixas de renda mais baixas e parte da classe média urbana, grupos mais afetados pela inflação e pelo custo de vida nos últimos anos.
A pesquisa ainda mostrou melhora da percepção econômica em indicadores ligados ao cotidiano. Cresceu o número de entrevistados que afirmam perceber melhora no emprego e estabilidade maior na situação financeira das famílias.
Dentro do governo, a avaliação é que medidas associadas diretamente ao consumo têm mais potencial de repercussão eleitoral do que debates sobre ajuste fiscal ou metas macroeconômicas.
Impacto negativo
A “taxa das blusinhas” havia se tornado um símbolo do desgaste do governo nas redes sociais desde sua criação em 2024. A cobrança de 20% sobre compras internacionais de pequeno valor passou a ser explorada pela oposição como exemplo de aumento de impostos sobre o consumo popular.
Agora, o Planalto tenta transformar a revogação da medida em um gesto de alívio financeiro para consumidores de renda média e baixa, especialmente jovens que utilizam plataformas estrangeiras de comércio eletrônico.
Mesmo com o fim do imposto federal, continuará incidindo o ICMS estadual sobre as compras internacionais. Ainda assim, os preços tendem a cair.
Segundo cálculos iniciais, uma compra de US$ 50 que antes chegava perto de R$ 354 pode passar a custar cerca de R$ 295 após a mudança.
A reversão da cobrança representa também uma mudança de direção do próprio governo. Quando o programa Remessa Conforme foi criado, o argumento do Ministério da Fazenda era reduzir distorções competitivas entre plataformas internacionais e o varejo brasileiro.
O cenário político, porém, mudou ao longo dos últimos meses. Integrantes do núcleo político passaram a defender que o desgaste provocado pela medida era maior que os ganhos arrecadatórios.
Dados da Receita Federal mostram que o imposto sobre encomendas internacionais arrecadou R$ 1,78 bilhão apenas nos quatro primeiros meses de 2026. Em 2025, a arrecadação total chegou a R$ 5 bilhões.
Mesmo com o impacto fiscal, auxiliares de Lula avaliam que a eleição de 2026 tende a ser decidida em movimentos marginais de opinião pública, especialmente entre eleitores sensíveis ao custo de vida, crédito e consumo.
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