A temporada de resultados do primeiro trimestre de 2026 (1T26) no Brasil começa neste fim de abril e se estende até meados de maio, sendo monitorada de perto por mostrar sinais do conflito no Oriente Médio para as empresas em um cenário de juros já altos.
Conforme destaca Caio Tonet, diretor institucional da W1, o ambiente econômico caracterizou-se por taxas de juros elevadas e uma expectativa de queda menos acentuada do que o previsto no início do ano. Adicionalmente, o cenário global foi marcado pela pressão sobre os preços das commodities, impulsionada por fatores geopolíticos, e pela persistência de taxas de inflação elevadas.
A visão do Safra para o primeiro trimestre de 2026 é ligeiramente mais favorável do que no 4T25. A proporção de expectativas negativas recuou de 18% no 4T25 para 15,1% no 1T26, enquanto as projeções neutras subiram de 32% para 35,7%. As positivas, por sua vez, passaram de 51,6% para 49,2%, ainda em patamar elevado.
Ainda assim, avalia, a dispersão entre setores e empresas permanece elevada, “o que reforça a necessidade de análise fundamentalista criteriosa”.
O Itaú BBA aponta que a temporada será desenhada por um ambiente de redução cautelosa de juros no Brasil e manutenção das taxas nos EUA, além de um ambiente marcado pelo conflito no Oriente Médio, adicionando volatilidade aos preços de energia e insumos.
Destaques positivos e negativos entre setores
Nesse contexto, o BBA avalia que o setor bancário deve seguir como um dos pilares do mercado, sustentado por margens financeiras robustas e inadimplência, em geral, sob controle. A combinação de Selic ainda em patamar alto e queda gradual dos juros deve permitir mais um trimestre de resultados sólidos para os principais bancos privados, enquanto o Banco do Brasil (BBAS3) permanece pressionado por provisões elevadas e piora na qualidade do crédito.
Já em recursos naturais, o pano de fundo é menos favorável, com commodities mais fracas, custos pressionados e maior dispersão entre companhias, destaca o Itaú BBA. Nos demais setores, o trimestre reforça a importância de uma leitura seletiva, com foco na geração de caixa. O petróleo em níveis elevados tende a impulsionar os resultados das produtoras, enquanto a defasagem entre preços domésticos e internacionais melhora o ambiente competitivo das distribuidoras.
Para Tonet, bancos e seguradoras também devem manter um desempenho favorável. Embora alguns bancos possam enfrentar desafios pontuais em suas carteiras de crédito, não se antecipa um impacto significativo nos balanços. Por outro lado, tem expectativa de resultados consistentes no trimestre para empresas de commodities.
No varejo, apesar da perspectiva de queda dos juros, o início do ano segue mais apertado, com crescimento de vendas abaixo da inflação para boa parte das empresas, diz o BBA. Já energia elétrica mantém seu perfil defensivo e previsível, enquanto agronegócio e frigoríficos atravessam fases mais delicadas do ciclo.
Para Tonet, da W1, o consumo cíclico e a construção civil são os setores que enfrentam maiores dificuldades. A construção civil é particularmente sensível às taxas de juros, tanto as de curto quanto as de longo prazo. O consumo cíclico, por sua vez, é impactado pela baixa confiança do consumidor, o que se traduz em menor demanda, e pela inflação, com destaque para os custos de energia elétrica e serviços, avalia.
Enquanto isso, aponta o BBA, saúde, educação e tecnologia devem mostrar resiliência operacional, embora fatores como regulação, integração de aquisições e margens sigam no radar.
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Segundo os especialistas em investimentos do Safra, há espaço para desempenho mais favorável em: distribuição de energia; exploração e produção de petróleo; distribuição de combustíveis; construtoras de baixa renda; construtoras de média e alta renda; shoppings; farmácias; papel e celulose; telecomunicações e varejo popular. A tese para E&P (exploração e produção), por exemplo, é de recuperação sequencial apoiada por Brent mais alto, tensões geopolíticas e aumento de produção.
Em construção, o banco segue vendo ambiente favorável tanto para o segmento de baixa renda, impulsionado pelo Minha Casa, Minha Vida, quanto para empresas de média e alta renda, que ainda exibem estoques saudáveis e vendas resilientes. Em papel e celulose, a expectativa é de melhora com preços mais altos de celulose, menor pressão de despesas e base operacional mais favorável.
Ações em destaque
O Itaú BBA ressalta esperar, em bancos, resultados sólidos e margens ainda elevadas nos principais bancos privados, sustentadas pelo nível ainda alto dos juros e por NIMs (margem financeira líquida) resilientes, com destaque para Bradesco (BBDC4) e BTG (BPAC11).
Em contrapartida, o Banco do Brasil deve apresentar um trimestre mais fraco, com provisões elevadas para perdas com crédito e ROE (retorno sobre o patrimônio) pressionado. A queda gradual da Selic ainda não deve comprimir as margens de forma relevante no curto prazo, o que ajuda a manter o NII (resultado financeiro com juros) em patamar robusto, embora com menor tração sequencial em alguns casos. No crédito, a inadimplência tende a ficar majoritariamente estável, com pressões pontuais em PMEs (pequenas e médias empresas) e em alguns portfólios específicos, mas sem sinais de deterioração generalizada.
Os analistas da XP também apontam que o Banco do Brasil deve apresentar o resultado sequencial mais fraco, à medida que a sazonalidade típica do período se combina ao ciclo de risco do agronegócio, levando a crescimento praticamente estável da carteira, NII menor, provisões mais elevadas e uma queda relevante do lucro na base trimestral, ainda assim amplamente em linha com o guidance e com uma dinâmica mais concentrada no segundo semestre de 2026.
A XP ressalta que, como de costume, a sazonalidade do primeiro trimestre deve influenciar os resultados ao longo do grupo, mas a execução deve ser bastante desigual entre os nomes. O Itaú (ITUB4) tende a reportar um trimestre mais fraco, porém benigno, com desaceleração do crescimento da carteira de crédito, NII mais pressionado em função do menor número de dias úteis e do efeito ex-dividendos, além de uma leve alta no custo de risco, ainda assim preservando um ROE resiliente.
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Também na visão da casa, o Bradesco deve voltar a se destacar, já que spreads melhores com clientes e um NII de mercado mais forte devem mais do que compensar o aumento das provisões e os custos de transformação, sustentando mais um trimestre de crescimento de lucro em dois dígitos e reforçando a narrativa de turnaround.
O Santander também deve entregar um trimestre mais fraco, apontam os analistas, em grande parte dentro do esperado, com leve retração da carteira, receitas de tarifas mais fracas e provisões mais altas, parcialmente compensadas por melhor NII de mercado, controle de custos e uma alíquota de imposto ainda favorável.
Olhando para siderúrgicas, do lado positivo, a Gerdau (GGBR4) deve reportar resultados sequencialmente mais fortes, impulsionados principalmente pela performance da operação na América do Norte. Olhando à frente, espera expansão da margem Ebitda tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos no segundo trimestre, refletindo uma sazonalidade mais favorável e preços do aço mais elevados.
No campo negativo, ressalta a CSN Mineração (CMIN3), que tende a ser impactada pela sazonalidade, resultando em uma queda sequencial dos volumes vendidos. Além disso, custos mais elevados, especialmente de C1 (custo caixa) e frete, devem pressionar os resultados do trimestre. Na mesma linha, a CSN deve apresentar recuo sequencial nos resultados, puxado principalmente pelo desempenho mais fraco do segmento de mineração. Também esperamos um desempenho inferior no aço, uma vez que o quarto trimestre havia sido beneficiado por eventos pontuais, o que eleva a base de comparação.
No setor de papel e celulose, os resultados da Suzano (SUZB3) devem ser impactados por menores volumes de vendas, pela apreciação do real e por custos mais elevados, fatores que tendem a mais do que compensar os preços realizados mais altos da celulose. “Olhando à frente, avaliamos que a atenção do mercado continuará concentrada no equilíbrio entre preços mais elevados de celulose e o aumento de custos, especialmente aqueles ligados à alta do Brent”, aponta.
Na visão das produtoras de petróleo, o primeiro trimestre já deve refletir uma geração de caixa mais robusta em relação aos períodos anteriores, impulsionada principalmente por um preço médio do petróleo mais elevado ao longo do trimestre, avalia o BBA. Esse movimento tende a ser amplificado pela alavancagem operacional dessas companhias, com destaque para Petrobras (PETR4) e PRIO (PRIO3), que possuem maior sensibilidade às variações do preço do petróleo.
Já no segmento de distribuição de combustíveis, a defasagem relevante entre os preços domésticos e os preços internacionais a partir de março deve tornar o ambiente competitivo mais favorável, o que beneficia especialmente as grandes distribuidoras, que conseguem ganhar volume preservando margens mais saudáveis. “Como resultado, esperamos bons resultados também para Vibra [VBBR3] e Ultrapar [UGPA3]”, aponta.
Para as varejistas, o BBA estima um primeiro trimestre mais desafiador, mas que algumas companhias tendem a se destacar de forma positiva. A Riachuelo (RIAA3) deve apresentar forte crescimento de vendas, acompanhado por melhora de margens. A C&A (CEAB3) segue em um processo de recuperação gradual das vendas, com margens mais sólidas, enquanto o Assaí (ASAI3) deve entregar vendas acima das expectativas e boa geração de caixa.
Por outro lado, o cenário é mais desafiador para Azzas (AZZA3), Grupo Mateus (GMAT3) e Natura (NATU3), que devem enfrentar um trimestre mais pressionado, seja por vendas mais fracas ou margens ainda comprimidas. Já o setor de farmácias tende a voltar a apresentar resultados muito fortes, mas com expectativas já bastante elevadas, o que reduz o espaço para novas surpresas positivas
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