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Carvão desafia previsões e continua no centro do debate energético global

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)

Enquanto grande parte do mundo político e financeiro continua apostando em uma rápida substituição dos combustíveis fósseis, os números mais recentes da indústria energética mostram uma realidade mais complexa. O carvão, frequentemente apontado como uma fonte em declínio inevitável, voltou a registrar crescimento e alcançou níveis históricos de consumo mundial.

Os dados apresentados no documento IEA Coal Mid Year Update 2026 revelam que a demanda global atingiu 8,84 bilhões de toneladas em 2025 e deverá chegar a um novo recorde de 8,94 bilhões de toneladas em 2026.  

Mais do que um simples dado estatístico, esse resultado expõe uma contradição que vem marcando a transição energética global. Embora governos, organismos multilaterais e investidores reforcem metas de descarbonização, a realidade econômica continua exigindo volumes crescentes de energia confiável, abundante e acessível. E, nesse contexto, o carvão ainda desempenha um papel que nenhuma outra fonte conseguiu substituir completamente. 

A revisão das projeções da própria Agência Internacional de Energia (IEA) chama atenção. Em dezembro de 2025, a expectativa apontava para uma trajetória de queda mais consistente. Meses depois, entretanto, fatores como o aumento dos preços do gás natural, tensões geopolíticas no Oriente Médio e eventos climáticos associados ao El Niño obrigaram a entidade a rever seus cálculos. O resultado foi uma previsão de crescimento da demanda global por carvão em 2026.  

A situação demonstra uma verdade frequentemente ignorada nos debates públicos: segurança energética continua sendo prioridade para governos e empresas. Quando o preço do gás sobe ou quando cadeias de suprimento são afetadas por conflitos internacionais, países recorrem às fontes energéticas disponíveis internamente. O carvão, abundante em mais de 75 países em diversas regiões do planeta, passa então a ser visto não apenas como uma alternativa econômica, mas como um elemento estratégico. 

O caso da Índia simboliza essa tendência. O país deverá elevar seu consumo para 1,353 bilhão de toneladas em 2026, impulsionado pelo crescimento da demanda elétrica, da produção de cimento e da siderurgia. A produção doméstica também deverá atingir um recorde de 1,095 bilhão de toneladas. Da mesma forma, países do Sudeste Asiático continuam expandindo o uso do carvão para sustentar processos de industrialização e urbanização acelerados.  

Muitos críticos argumentam que a expansão das energias renováveis deveria reduzir rapidamente a necessidade do carvão. A expectativa parece lógica, mas os resultados práticos ainda mostram limitações. O crescimento das fontes solar e eólica tem sido impressionante, porém a intermitência dessas tecnologias continua exigindo fontes despacháveis para garantir estabilidade aos sistemas elétricos. O próprio relatório destaca episódios relevantes de corte de geração renovável na China e na Índia por limitações de integração à rede elétrica.  

Isso não significa que a transição energética esteja fracassando. Significa apenas que ela será mais longa, complexa e custosa do que muitos planejadores imaginaram. Durante anos, criou-se a percepção de que bastaria instalar grandes volumes de capacidade renovável para eliminar rapidamente a dependência de combustíveis fósseis. A realidade mostra que sistemas elétricos modernos exigem equilíbrio entre sustentabilidade, segurança e custo. 

Outro fator pouco discutido é o crescimento do consumo provocado pela economia digital. A expansão dos centros de dados, da inteligência artificial e da computação em nuvem está elevando significativamente a demanda por eletricidade em países como os Estados Unidos. Segundo o relatório, parte relevante desse crescimento está sendo atendida pela operação mais intensa de usinas existentes a carvão e gás, uma vez que novas alternativas de geração firme ainda demandam anos para entrar em operação.  

Nesse cenário, insistir em uma narrativa de eliminação rápida do carvão pode afastar o debate da realidade. A questão central não é defender ou condenar essa fonte energética, mas reconhecer seu papel atual no sistema global. O desafio verdadeiro consiste em reduzir emissões por meio de tecnologias mais eficientes, captura de carbono, modernização das usinas e melhores práticas ambientais enquanto a transição energética avança. 

O próprio movimento de adiamento de cronogramas de fechamento de usinas em diversos países demonstra que governos estão sendo obrigados a equilibrar ambições climáticas com necessidades econômicas e de segurança energética. O pragmatismo começa a substituir discursos excessivamente otimistas.  

O mundo continua buscando uma economia de baixo carbono, e esse objetivo permanece essencial. Entretanto, os dados de 2026 mostram que o carvão está longe de desaparecer. Pelo contrário, permanece sustentando indústrias, sistemas elétricos e cadeias produtivas fundamentais para bilhões de pessoas. Ignorar essa realidade não acelera a transição energética. Apenas dificulta a construção de políticas públicas compatíveis com a dimensão do desafio, pois a discussão não é acabar com os fósseis, mas sim reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa. 

As estatísticas mais recentes deixam uma lição clara: a transição energética não será definida por desejos ou projeções políticas, mas pela capacidade de garantir energia segura, acessível e confiável. E, goste-se ou não, o carvão continua sendo uma peça importante dessa equação global. Basta entender o tamanho das reservas mundiais e sua localização: Estado Unidos (23 %), Rússia (15 %), Austrália (14%), China (13 %) e Índia (10%), para ficar só nos maiores produtores, com uma comercialização global de 1,4 bilhões de toneladas e passando por rotas que não têm conflitos geopolíticos.  

No Brasil, a abundância das fontes energéticas para o atendimento do setor elétrico é um fato incontestável. Entretanto, para garantir a real segurança é necessário, face ao novo cenário das mudanças climáticas, o uso da diversidade de fontes, incluindo aquelas firmes, como o carvão mineral.  

Por outro lado, o grande problema brasileiro é a elevada dependência dos fertilizantes importados, em especial os nitrogenados. Nesse aspecto, a indústria do carvão mineral pode atender ao mercado, via carboquímica e/ou aproveitamento dos gases de combustão, na produção dos fertilizantes nitrogenados, inclusive ofertando enxofre, elemento que está em falta no mercado mundial. 

* Fernando Luiz Zancan é presidente da ABCS (Associação Brasileira do Carbono Sustentável) 

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
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