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Compositores de “O Agente Secreto” falam à CNN sobre indicação ao Grammy

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 4 horas)
Compositores de “O Agente Secreto” falam à CNN sobre indicação ao Grammy

Transformar sentimentos em música, dar “voz” ao que não é dito e construir atmosferas capazes de envolver o espectador são alguns dos desafios de quem compõe para o cinema. Em “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, essa missão ficou nas mãos dos pernambucanos Mateus Alves e Tomaz Alves Souza, responsáveis pela trilha sonora original do longa, que agora celebra uma indicação ao Grammy Latino.

Em entrevista à CNN Brasil, a dupla revelou os bastidores da criação musical do filme, a liberdade artística proporcionada pela parceria com o diretor e a surpresa com o reconhecimento internacional. Os compositores também refletiram sobre o papel da música na construção de emoções que nem sempre são expressas pelos personagens.

A indicação à premiação chegou de maneira inesperada. Segundo Tomaz, os dois sequer sabiam que a distribuidora, ONErpm, havia inscrito a trilha na disputa. Mateus conta que precisou de alguns dias para assimilar a notícia.

“Quando surgiu a premiação, eu passei uns três dias ainda para cair a ficha. Tipo, Grammy mesmo? A gente via aqueles videozinhos no Instagram e estava o nome da gente. A gente: ‘Sério? O que aconteceu?'”, relembrou.

O compositor considera que a nomeação dá visibilidade a uma área do cinema que nem sempre recebe o mesmo destaque das atuações e da direção.

“É um trabalho que às vezes fica meio escondido ali. Poucas pessoas entendem o próprio trabalho, até pessoas do próprio meio, às vezes, não entendem exatamente o trabalho que a gente faz”, afirmou.

Uma trilha que funciona como crônica

A construção da trilha sonora começou antes mesmo das filmagens, quando Kleber Mendonça Filho convidou os compositores a conhecer o roteiro de “O Agente Secreto”.

Desde o início, o cineasta apresentou uma orientação pouco convencional, segundo eles. Kleber queria que a música original funcionasse como uma espécie de crônica.

“No começo, a gente ficou meio sem entender direito”, contou Mateus. Mas, com o desenvolvimento do trabalho, os músicos compreenderam que a proposta era criar uma sonoridade que existisse em paralelo aos acontecimentos, quase como um comentário sobre a história, sem necessariamente reproduzir as emoções mais evidentes de cada cena.

Como transformar sentimentos em música?

Um dos maiores desafios da composição para o cinema, segundo os músicos, está em traduzir emoções que nem sempre são explicitadas pelos personagens.

Em “O Agente Secreto”, ambientado no Recife de 1977, em meio à ditadura militar, a tensão também está presente nos silêncios e na sensação constante de perigo que acompanha o protagonista Marcelo, interpretado por Wagner Moura.

Para Tomaz, existe uma diferença fundamental entre simplesmente provocar medo e fazer com que o público compreenda o que se passa internamente com um personagem.

“Quando a gente vai fazer a música para um filme como ‘O Agente Secreto’, a gente precisa, de alguma forma, se envolver a tal ponto dentro dos sentimentos daqueles personagens para tentar transpor essas sensações internas deles, e não o que está evidente”, explicou.

O compositor exemplifica o desafio a partir da atuação de Wagner Moura. Em determinadas cenas, o trabalho musical não depende de uma ação grandiosa, mas de pequenas alterações na expressão do ator.

“A geografia, que em um filme de terror, por exemplo, poderia ser uma casa mal-assombrada ou um corredor escuro e uma pessoa se escondendo, agora passa a ser aquela testa com aquele olhar”, afirmou.

Uma trilha que não pertence exatamente a 1977

Embora o período histórico tenha sido determinante para a construção de “O Agente Secreto”, os compositores não buscaram reproduzir exatamente a sonoridade dos filmes produzidos naquela época.

Tomaz conta que, durante o processo criativo, os dois chegaram a perguntar diretamente a Kleber Mendonça Filho se ele gostaria que a trilha soasse como uma produção cinematográfica do final dos anos 1970 e a resposta do diretor foi decisiva para o caminho escolhido.

“A música é a música que vocês fazem em 2025”, relembrou Tomaz, reproduzindo a orientação recebida.

A escolha também dialogava com a presença de canções brasileiras dos anos 1970 na narrativa, selecionadas em outro processo de criação musical. Como essas músicas já ajudavam a situar historicamente o espectador, a trilha original pôde assumir uma função diferente.

A partir disso, a dupla passou a explorar sonoridades consideradas mais atemporais, especialmente instrumentos orquestrais e o piano.

A solução foi combinar elementos da música orquestral clássica com técnicas contemporâneas de manipulação sonora.

A identidade pernambucana sem fronteiras

Mesmo com a forte relação entre “O Agente Secreto” e a cidade do Recife, os compositores não buscaram limitar a trilha a referências musicais tradicionalmente associadas ao Nordeste.

Mateus, que se descreve como um pernambucano profundamente orgulhoso de suas origens, destacou a influência do movimento Manguebeat sobre sua geração. Para ele, o movimento ajudou a mostrar que a riqueza cultural de Pernambuco não precisava representar uma fronteira criativa, mas poderia funcionar como ponto de partida para experimentações.

“Esse movimento também mostrou para a gente que não precisa exatamente se fechar nesse tipo de som”, afirmou. “A gente simplesmente experimenta muito. Essa trilha não deixou de ser uma trilha muito experimental, porque Kleber deixava o processo solto também, em certa medida, e a gente podia testar várias ideias”, explicou.

A gravação da trilha também teve uma dimensão internacional. 

Por causa da coprodução com a Holanda, parte do trabalho foi realizada em um estúdio de Amsterdã, reunindo músicos de diferentes nacionalidades, incluindo profissionais de Portugal, Venezuela, Espanha, Holanda e Estados Unidos.

Tomaz contou que a experiência reforçou o caráter universal da linguagem musical.

“A gente vê aquela mesma música numa cena em que aparece o centro do Recife. É óbvio que aquilo evoca o Brasil, evoca Recife, Pernambuco, mas, ao mesmo tempo, é universal”, destacou.

De “Bacurau” ao reconhecimento internacional

A parceria de Mateus Alves e Tomaz Alves Souza com Kleber Mendonça Filho não começou em “O Agente Secreto”. Os dois já haviam trabalhado juntos na trilha de “Bacurau”, filme lançado em 2019.

Tomaz recordou que, na época, os músicos estavam concentrados principalmente em atender às necessidades artísticas do projeto, sem imaginar a repercussão internacional que o filme alcançaria.

Anos depois, o trabalho em “O Agente Secreto” aconteceu em circunstâncias diferentes. Os compositores tiveram acesso antecipado ao roteiro, mais tempo para desenvolver as ideias e a experiência acumulada de outros projetos.

Também havia uma expectativa maior em torno da produção, protagonizada por Wagner Moura.

Apesar disso, Tomaz destacou que o principal estímulo esteve no envolvimento coletivo da equipe.

“No caso de ‘O Agente Secreto’, o trabalho coletivo contou muito para o sucesso do filme”, afirmou.

A repercussão internacional acabou levando também a música do filme a novos espaços, incluindo festivais, premiações e lançamentos em outros países.

Mateus contou que a visibilidade ampliou as oportunidades profissionais dos dois, que passaram a emendar novos projetos. “A gente se sente simplesmente empurrado por um grande tsunami”, brincou.

“A indicação já é um grande prêmio”

Apesar da surpresa com a nomeação ao Grammy Latino, os compositores reconhecem que a trajetória internacional de “O Agente Secreto” pode contribuir para as chances de vitória.

Mateus, no entanto, ressaltou que o reconhecimento já representa uma conquista significativa, independentemente do resultado da premiação.

“Eu acredito que há uma chance, pela força mesmo do filme, do nome do filme. […] Mas, para a gente, pelo menos falando por mim, a indicação já é um grande prêmio”, declarou.

A dupla também enxerga a indicação como uma oportunidade de ampliar a visibilidade dos profissionais brasileiros que se dedicam à composição para o audiovisual.

“A gente está representando a música de cinema brasileira. Para a gente, é uma grande honra. A gente fica feliz por estar colocando o nosso cinema em evidência e a nossa música feita para cinema em evidência”, ressaltou Mateus.

Ouça a trilha sonora de “O Agente Secreto”

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