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Saúde mental deixa de ser tema periférico nas empresas, diz especialista

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Saúde mental deixa de ser tema periférico nas empresas, diz especialista

O Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado neste 10 de outubro, busca promover a educação, a conscientização e a defesa da saúde mental em todo o mundo, além de combater o estigma relacionado aos transtornos mentais. 

Para a psicóloga empresarial Denise Milk, especialista em desenvolvimento de lideranças, o crescimento dos afastamentos mostra que a saúde mental deixou de ser uma questão periférica dentro das organizações. 

“O crescimento dos afastamentos é bastante significativo e mostra que a saúde mental deixou de ser uma questão periférica nas organizações. Estamos falando de um problema que impacta pessoas, famílias e também a capacidade das empresas de sustentar seus resultados”, afirma. 

Segundo a especialista, o afastamento é apenas a parte mais visível de um processo que pode começar muito antes, com sinais de exaustão, irritabilidade, dificuldade de concentração, perda de motivação e redução da capacidade de entrega. 

“Também precisamos ter cuidado para não individualizar esse problema. Nem todo adoecimento mental é causado pelo trabalho, mas o modo como o trabalho é organizado pode funcionar tanto como fator de proteção quanto como fator de risco. Esse crescimento nos convida a olhar para saúde mental também como uma questão de gestão, cultura e organização do trabalho”, explica. 

Sobrecarga e falta de suporte 

De acordo com Denise, não é apenas o excesso de trabalho que pode contribuir para o adoecimento mental. O risco aumenta quando há uma combinação persistente entre alta exigência e poucos recursos para lidar com as demandas. 

“Não é simplesmente trabalhar muito que adoece. O risco aumenta quando existe uma combinação persistente de alta exigência com poucos recursos para responder a ela: sobrecarga, jornadas excessivas, metas incompatíveis, pressão constante, baixa autonomia, relações conflituosas, assédio, falta de clareza sobre expectativas e ausência de suporte”, afirma. 

Outro ponto destacado pela psicóloga é a segurança psicológica no ambiente profissional. Segundo ela, quando os trabalhadores sentem que não podem admitir dificuldades, pedir ajuda ou discordar sem medo de punição, o sofrimento pode permanecer escondido. 

“Ambientes nos quais as pessoas sentem que não podem dizer ‘não estou conseguindo’, pedir ajuda, admitir um erro ou discordar sem medo de punição tendem a produzir silêncio. E esse silêncio pode fazer com que o sofrimento seja percebido somente quando já se transformou em adoecimento ou afastamento”, diz. 

Para Denise, a atuação das lideranças também tem papel importante. A forma como as demandas são distribuídas, as prioridades são definidas e os conflitos são conduzidos interfere diretamente na experiência dos profissionais. 

Saúde mental não deve ser lembrada apenas em outubro 

Para a especialista, ações relacionadas ao Dia Mundial da Saúde Mental são importantes, mas não devem se limitar a campanhas ou palestras realizadas em datas específicas. 

“Campanhas de conscientização são importantes, mas saúde mental não pode aparecer no calendário corporativo apenas em datas específicas. Uma palestra isolada não compensa uma cultura que adoece”, afirma. 

Segundo Denise, a prevenção precisa estar incorporada à gestão das empresas, com identificação de riscos psicossociais, acompanhamento de indicadores, escuta dos trabalhadores, revisão de processos e cargas de trabalho, além da criação de canais seguros de comunicação e de fluxos de acolhimento e encaminhamento. 

Medo de preconceito ainda pode afastar trabalhador da ajuda 

O receio de ser visto como incapaz ou de sofrer consequências profissionais também pode fazer com que trabalhadores adiem a busca por ajuda. 

“Ainda existe receio de que demonstrar sofrimento seja interpretado como fragilidade, falta de competência ou incapacidade profissional. Por isso, algumas pessoas tentam sustentar o desempenho até o limite antes de pedir ajuda”, afirma Denise. 

Segundo ela, combater o estigma exige mudanças concretas dentro das organizações. 

“Não basta dizer que as pessoas podem falar sobre saúde mental. Elas precisam perceber, na prática, que pedir ajuda não comprometerá sua dignidade ou sua trajetória profissional”, explica. 

Edilson Oliveira, psicólogo do hospital Mantevida, explica que a onda de patologização pode interferir no tratamento da saúde mental.

“É preciso uma cultura de promoção de direitos, acolhida e consciência social sobre as consequências de uma cultura de um individualismo que separa as pessoas, promovendo o entendimento de que a harmonia social é um fator importante para promoção de boas relações, cultivando o respeito entre as diferenças, pois, olhares antagônicos são promotores de atitudes individualistas e que reagem com indiferença à dor do outro”, explica.

Alterações no sono e irritabilidade podem ser sinais de alerta 

Os sinais de sofrimento mental podem variar de pessoa para pessoa. Entre os indícios que merecem atenção estão alterações no sono, irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração, cansaço constante, perda de interesse, isolamento, queda significativa de desempenho, sintomas físicos recorrentes e a sensação de não conseguir se recuperar mesmo após períodos de descanso. 

“O mais importante é observar mudança e persistência. Um dia difícil faz parte da vida. O sinal de alerta aparece quando esse funcionamento começa a se prolongar e comprometer a vida, as relações ou a capacidade de trabalhar”, explica Denise. 

Para Denise, no entanto, a atenção à saúde mental precisa acontecer antes que o afastamento seja necessário. 

“O afastamento não deveria ser o primeiro momento em que uma organização percebe que um trabalhador não está bem. Prevenção também significa construir condições para que as pessoas consigam reconhecer seus limites, falar sobre suas dificuldades e buscar ajuda antes de chegar ao esgotamento”, conclui. 

Já Edilson aponta que outros sinais podem surgir como questionamento sobre a própria capacidade profissional ou até depressão.

“Questionamento das próprias capacidades, questionamento da sua validade como profissional, por consequência a diminuição da autoconfiança, até chegar a outras alterações emocionais mais profundas, como depressão, ansiedade e em algumas situações estressores mais traumáticos. Sentimentos de responsabilização distorcidos também podem estar presentes, depois crises ansiosas, perda de interessa das atividades, diminuição do ânimo e motivação e alterações do sono”, explica.

*Sob supervisão de André Rigue

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