Um suposto depoimento de Daniel Vorcaro, repercutido pela revista Veja nesta sexta-feira (9), volta a colocar o caso Master no centro da disputa presidencial.
Na matéria, o veículo de comunicação diz que Vorcaro teria liberado R$ 30 milhões, em espécie, ao Instituto Lula, gerenciado por Paulo Okamotto, para o financiamento de um documentário sobre o presidente Lula (PT).
Além de documentos que teriam sido entregues à PGR (Procuradoria-Geral da República), a reportagem também cita um áudio atribuído a Vorcaro, em que é tratado do assunto.
Ainda na quinta-feira (8), o grupo jurídico Prerrogativas acionou a PF (Polícia Federal) e solicitou uma investigação sobre uma suposta articulação entre Vorcaro e a campanha de Flávio Bolsonaro (PL).
Na manhã desta sexta (9), depois da repercussão, fontes próximas ao ex-banqueiro afirmaram à CNN Brasil que o relato não faz parte de um depoimento formal e sugerem que o conteúdo possa ter sido gravado de maneira clandestina.
O que diz a matéria da Veja?
A revista relata que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro teria negociado o pagamento de R$ 30 milhões a Paulo Okamotto, que gerencia o Instituto Lula, para ter acesso aos cofres dos fundos de pensão de servidores federais. A intermediação teria sido feita entre o empresário e o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.
A quantia supostamente seria destinada ao financiamento do documentário “Lula” (2024), do cineasta Oliver Stone. A matéria não deixa claro quando a gravação teria sido feita.
Relatos sobre as negociações do esquema teriam sido levados por Vorcaro para a negociação de uma colaboração premiada, que ainda não avançou. Ele já teve duas propostas de delação negadas.
Na matéria, a revista anexa trecho de um áudio em que o ex-bancário relata as intermediações. “Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele [Vaccari]. É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara [Vaccari] pede para colocar dinheiro no filme do Lula”.
Após a divulgação da matéria, a CNN Brasil ouviu fontes da PGR que afirmaram que o áudio atribuído a Vorcaro na reportagem não foi enviado à equipe que conduzia as tratativas de delação.
Em outubro de 2024, mensagens de Vorcaro mencionam a tentativa de um encontro com Lula, mas as conversas não detalham se a reunião ocorreu.
“Daniel, liga pro Olavo… O PR vai te receber…”, escreveu Júlio, operador petista que teria acesso ao gabinete do então ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, Alexandre Padilha.
“Daniel, tô insistindo aqui porque já conversaram com PR e ele gostou da conversa! Olavo pediu pra retornar para ele para fazer agenda contigo”, disse o ex-banqueiro.
As negociações também teriam envolvido o então secretário-executivo da pasta chefiada por Padilha, Olavo Noleto, e outros dois operadores ligados a eles.
Diálogos ocorridos em 2025 mostram que Vorcaro não teve sucesso na captação dos recursos. “Estamos já há mais de 12 meses tentando uma boleta. Não dá pra mobilizar a equipe para novos temas sem concluir nenhum. Falhou de novo o negócio?”, insistiu o empresário.
O que diz a PGR
A PGR negou que o ex-banqueiro tenha prestado “depoimento oral” nas negociações por uma delação premiada.
Em nota, a instituição diz que as tratativas “foram sempre mediadas por advogados contratados pelo investigado, como devido”.
“Todas as propostas formalizadas pela Defesa foram recebidas na forma como livremente elaboradas por ela, sem juízo nem recusas prévias. Não houve interlocução direta do senhor Vorcaro com qualquer representante da PGR”, acrescenta.
Um integrante da PGR ouvido em caráter reservado pela CNN afirma que o áudio atribuído ao ex-banqueiro não foi enviado à equipe que conduzia as tratativas de delação na instituição.
A PGR rejeitou em junho a proposta de delação premiada de Vorcaro. Há a desconfiança de que o áudio tenha sido gravado depois das negociações serem frustradas. A decisão foi tomada após a PF (Polícia Federal) ter recusado duas versões apresentadas pelos advogados do ex-banqueiro.
O que diz a PF
Integrantes da PF também afirmaram à CNN Brasil que o órgão recusou a delação por falta de provas e elementos mínimos que dessem credibilidade ao que Vorcaro diz nas gravações.
O PT e o governo Lula tratam a denúncia como um “acordão” entre Vorcaro e Flávio e uma espécie de “bala de prata”, na qual o ex-banqueiro apresentaria denúncias contra o presidente para ajudar na eleição do candidato do PL, que, uma vez eleito, viabilizaria a soltura de Vorcaro.
Há também o entendimento de que a denúncia busca desviar o foco das relações entre Flávio e Vorcaro amplamente documentadas na imprensa.
Há áudios nos quais Flávio pede recursos ao ex-banqueiro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro (PL).
Os dois negociaram um repasse de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões. Além de pedir os valores, existem gravações em que o candidato do PL pressionou o banqueiro acerca dos pagamentos.
Em nota oficial, a PF negou que Vorcaro tenha prestado depoimento sobre supostos repasses a um filme relacionado ao presidente Lula. A corporação também negou ter recebido da defesa do empresário “anexos, documentos ou informações” com esse conteúdo.
Grupo jurídico aciona PF para investigação
Ainda na quinta, antes da divulgação da matéria da revista Veja, os advogados Marco Aurélio de Carvalho e Reinaldo Santos de Almeida, representantes do Grupo Prerrogativas, acionaram a PF pedindo que a polícia investigue uma suposta articulação entre Vorcaro e a campanha de Flávio.
Os advogados mencionam a existência de negociações para uma entrevista televisionada com o ex-banqueiro. No pedido, eles citam que depoimentos de Vorcaro teriam sido entregues a terceiros e alegam que o conteúdo não teria respaldo em elementos de prova e teria sido concebido para produzir efeito político durante o período eleitoral.
Marco Aurélio e Reinaldo Santos pediram que as autoridades priorizem a investigação e a identificação dos interlocutores que estariam negociando a entrevista com emissoras de televisão.
“Caso venham a ser divulgadas nos próximos dias, por qualquer meio, imputações atribuídas direta ou indiretamente ao custodiado contra o Presidente da República ou integrantes do Governo Federal, a verificação prioritária de sua correspondência com o material aqui noticiado e de sua origem, observada a delimitação quanto ao trabalho jornalístico”, escreveram no pedido.
Suspeita de gravação clandestina
A CNN Brasil conversou com fontes próximas de Vorcaro e elas confirmam o áudio repercutido pela Veja, mas afirmaram não saber quando o conteúdo foi gravado. O entorno do ex-banqueiro disse ainda que o relato não compôs nenhum depoimento formal dado às autoridades.
As fontes dizem suspeitar que a gravação seja clandestina, principalmente porque há uma distorção no início do áudio que, para aliados de Vorcaro, indica a presença de uma terceira pessoa no ambiente da conversa.
Questionados sobre um suposto “acordão” que levaria à soltura do réu, os interlocutores negaram a possibilidade.
O que dizem os citados
A campanha do presidente Lula chamou de “farsa com objetivos eleitorais” o depoimento e disse que deve acionar a Justiça. A coligação do presidente, que assina a nota, diz ainda ser “estarrecedor” que a publicação “estampe em sua capa acusações gravíssimas sem apresentar uma única prova” e que adotará “medidas judiciais cabíveis”.
“Esse depoimento não existe, não há registro dele na Polícia Federal. Não há registro de delação com esse conteúdo que tenha sido aceita pelo Ministério Público e Polícia Federal. Portanto, uma farsa”, diz o comunicado.
Em nota, os advogados de Daniel Vorcaro dizem repudiar “a divulgação de supostos anexos que estariam relacionados a tratativas de colaboração premiada que não foi celebrada”.
“A defesa não confirma o conteúdo de qualquer material divulgado, cuja origem, autenticidade e integridade não são reconhecidas”, diz a nota, assinada por Sérgio Leonardo e Engels Augusto Muniz.
Já o advogado Daniel Bialski, que também representa o ex-banqueiro, afirmou desconhecer a fala.
A CNN Brasil procurou a assessoria de Padilha. O espaço segue aberto. A CNN Brasil tenta contato com Vaccari Neto e Okamotto.

