⚡ Últimas

Data centers vivem “boom” no Brasil e vão dobrar capacidade até 2030

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Data centers vivem “boom” no Brasil e vão dobrar capacidade até 2030

Com alta demanda, o Brasil deve dobrar a capacidade de seu mercado de data centers até 2030, com boa parte da nova capacidade já contratada antes mesmo de ficar pronta.

Ao todo, dos 660 MW (megawatts) que estão em construção no país, 56% estão pré-locados, segundo levantamento da consultoria JLL.

A ocupação dos data centers chegou a 96% no primeiro semestre, deixando uma taxa de 4% para novos clientes.

De acordo com o relatório, a baixa disponibilidade deve continuar até 2030, mesmo com a chegada de novos projetos.

Desde 2012, a capacidade instalada aumentou mais de seis vezes, com crescimento médio anual de 15%.

No primeiro semestre deste ano, o país recebeu 106 MW de nova capacidade, sendo o maior volume registrado.

Outros 134 MW estão previstos para entrar em operação ainda no segundo semestre deste ano.

Com isso, as entregas de novos data centers devem terminar o ano em níveis recordes, segundo a consultoria.

Mesmo com o crescimento constante, o setor ainda enfrenta desafios significativos de infraestrutura, regulação e impacto ambiental.

O Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), nova lei que prevê um programa de incentivos para o setor no país, foi sancionado no dia 15 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e deve estimular a instalação e ampliação dos centros de dados no país.

Em entrevista à CNN, Tito Costa, CRO da Tecto Data Centers, plataforma de data centers controlada pelo BTG Pactual e ligada à V.tal, prevê que o Brasil dobre a capacidade até o fim de 2027. E que, nos próximos cinco anos, quadruplique o volume.

Atualmente a empresa tem sete data centers em operação, sendo três em Fortaleza, um no Rio de Janeiro e três em Barranquilla, na Colômbia.

Outros dois centros estão em construção: um em Porto Alegre e outro de 200 MW (cerca de 20% da capacidade brasileira) em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo.

Ao todo, o plano de investimentos da companhia é estimado em US$ 2 bilhões, previstos entre 2026 e 2028, para acelerar a expansão na América Latina.

“Eu tenho bastante segurança hoje de que é bem provável que a gente, já no ano que vem, dobre a capacidade. E, nos próximos cinco anos, quadruplicar é bastante razoável”, afirma Costa.

Para o executivo, o “segredo” do aumento na capacidade está na energia que poderia ser gerada, mas cuja produção é restringida, principalmente em usinas eólicas e solares, por meio dos cortes de geração, conhecidos como curtailment, que são impostos pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).

De acordo com Costa, seriam 4 GW (gigawatts) em curtailment no país, diante de uma capacidade instalada de data centers no Brasil de cerca de 1 GW.

Os cortes de energia impostos pelo ONS ocorrem para preservar a segurança e a confiabilidade do sistema elétrico.

Entre os motivos estão: a falta de infraestrutura de transmissão, como linhas danificadas ou atrasadas; quando as linhas de transmissão atingem o limite de capacidade e a energia não pode ser escoada; e o excesso de oferta em relação à demanda. Nos dois últimos casos, não há direito a compensação.

Para Joísa Dutra, diretora do Ceri-FGV (Centro de Regulação em Infraestrutura) e colunista da CNN Infra, a flexibilidade energética pode ser uma solução, com os data centers sendo projetados para modular seu consumo em até 100 horas por ano — menos de 1% das 8.760 horas anuais — e podendo gerar reduções de tarifas de até 2%. Isso diminuiria a necessidade de investimentos em geração a partir de gás natural.

Ela defende que a adoção antecipada de boas práticas e protocolos é essencial para que esses investimentos sejam vistos não como problemas, mas como parte da solução — tanto para o setor elétrico quanto para os demais sistemas de recursos com os quais se relacionam.

“Flexibilidade é tudo que a gente quer neste momento, onde o setor elétrico navega para essa descentralização, para essa produção de mais eletricidade a partir de solar e eólica”, destaca a colunista.

Além do consumo de energia, Joísa chama a atenção para o impacto desses projetos sobre outros recursos naturais, como água, minerais e terra, citando o projeto de data center na região de Pecém, no Ceará, que tem o TikTok como um dos membros da parceria e está localizado em uma área com estresse hídrico.

Para ela, a adoção antecipada de boas práticas e protocolos é essencial para que esses investimentos sejam vistos não como problemas, mas como parte da solução — tanto para o setor elétrico quanto para os demais sistemas de recursos relacionados.

Ainda segundo o executivo, o Brasil está super bem posicionado e está muito perto de explodir o mercado, tendo a IA como uma outra frente de expansão. Na avaliação dele, assim como a demanda americana, que tem superado as projeções nos últimos, o movimento também deve chegar ao Brasil em breve.

Para atrair a demanda que está fora do país, Costa defende a redução no custo dos data centers e dos serviços de nuvem.

“Cerca de 40% do workload brasileiro roda nos Estados Unidos, [o crescimento] depende de eu fazer o datacenter mais barato para a cloud no Brasil ficar mais barata, ou tão barata quanto a lá de fora, para o usuário usar aqui”, pondera.

Em relação ao Redata, Costa afirma que o projeto reduz a barreira tributária sobre equipamentos e aproxima o Brasil dos custos internacionais, mas ainda assim estima que construir e implantar um data center em solo nacional custa entre 15% e 20% mais, além de defender a discussão do ICMS no setor.

“A gente deve estar 15% a 20% acima. Tem uma discussão do ICMS que o Redata não endereça, e é um tema que a gente precisa endereçar.”

Setor busca acelerar investimentos

Ainda segundo Joísa Dutra, o setor busca acelerar os investimentos de forma mais eficiente, buscando alianças internacionais, ao mencionar o lanlamento da AI Energy Management Alliance (AEMA), da qual fazem parte empresas como Emerald AI, Google e NVIDIA, além de outras quase 20 companhias.

O objetivo da aliança é criar protocolos e melhores práticas os investimentos.

Os esforços dessas empresas são para criar condições para que esses investimentos em data centers possam ocorrer de modo eficiente, possam ocorrer mais rápido no tempo”, avaliou a colunista.

A iniciativa surge em resposta a um fenômeno já observado em diferentes países, inclusive no Brasil: a resistência de comunidades locais à instalação desses empreendimentos.

Joísa descreveu esse comportamento como “nimby” — expressão em inglês que significa “not in my backyard”, ou seja, “aqui não, não no meu quintal”.

Segundo ela, esse tipo de reação, antes associado a plantas de energia ou projetos de transmissão, começa a aparecer também no segmento de data centers.

Atualmente, São Paulo concentra o setor, mas a expansão deve alcançar outras regiões, como no Nordeste, impulsionado por incentivos do Redata e pela abundância de energia renovável na região.

Para Tito Costa,a concentração paulista decorre da proximidade entre clientes, redes e outros data centers, mas avalia que disponibilidade de energia e terrenos levará o mercado a novos polos à medida que os atuais se saturarem.

Impactos socioeconômicos

Além dos impactos diretos sobre o PIB, o emprego e a renda, a expansão dos data centers pode fortalecer a infraestrutura tecnológica nacional, ampliando a capacidade de processamento instalada e estimular a formação de profissionais especializados.

Segundo um estudo da FGV, para cada R$ 1 milhão investido no setor, podem ser gerados aproximadamente R$ 350 mil em renda, incluindo salários no próprio segmento e remunerações em setores fornecedores.

O levantamento também aponta que a consolidação do Brasil como hub internacional depende da integração entre energia, conectividade, hardware, software, inovação e qualificação profissional.

Para Marco Alberto Silva, CEO do Grupo Engemon, que atua em diversas frentes do setor de engenharia de infraestrutura, o Brasil tem condições de transformar o avanço da inteligência artificial em uma nova frente de desenvolvimento, mas que precisa ser acompanhada por planejamento técnico, análise da demanda e projetos preparados.

“É uma oportunidade importante, mas os investimentos precisam ser acompanhados de planejamento técnico e de uma avaliação realista sobre demanda, energia, custos e capacidade de atualização”, afirma.

Data centers vivem “boom” no Brasil e vão dobrar capacidade até 2030 — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado