A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) testará em pesquisas internas a receptividade do discurso do petista na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas.
A avaliação do time de Lula é de que a fala no palco da ONU foi forte e histórica, mas que vários dos pontos são distantes, ou seja, não se conectam diretamente com os anseios do eleitorado.
Mesmo aliados do presidente vinham questionando a campanha por uma suposta “desconexão” de temas do dia a dia popular. Em parcela considerável de suas propagandas e discursos de campanha até aqui, Lula dedicou espaço a assuntos como soberania e minerais críticos.
A partir da última semana, a campanha do mandatário manobrou a estratégia. O PT passou a dedicar mais tempo nas propagandas na TV e rádio, por exemplo, a temas como custo de vida, preços dos alimentos e redução de tributos.
Durante o discurso, Lula citou expressamente o cenário eleitoral e disse que no dia 4 de outubro os brasileiros vão decidir entre “democracia e negacionismo”.
O petista também trouxe indiretas ao bolsonarismo e às suspeitas de interferência americana no processo eleitoral.
“Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, afirmou.
No palco da ONU, o petista lembrou rapidamente a sua trajetória política e traçou vários pontos de conexão com os discursos que têm adotado nos comícios e atos de campanha: falou de jovens empreendedores, de mulheres em espaços de poder, combate ao feminicídio, fim da jornada 6×1, e em colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos “fazerem sua parte”.
Lula dedicou parte significativa da fala a responder os Estados Unidos sobre o combate à criminalidade. Na semana passada, o governo Trump acusou o Brasil de falhar no combate ao crime organizado transnacional.
Na ONU, o petista disse que o país não subestima o desafio representado pelo crime organizado e que está preparado para o enfrentamento.
Os adversários na campanha presidencial têm reforçado para que o presidente entre no tema da segurança, que representa um dos temas mais desafiadores para a esquerda, o que também fez Lula levar a pauta à ONU.
“As pessoas estão cansadas da violência, mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afimou Lula em mais indiretas ao governo americano.
A menção ao tarifaço veio como mais uma resposta à Trump. Em resposta sobre o assunto, Lula afirmou que o país bateu um novo recorde de exportações.
Outros temas menos palatáveis ao eleitorado despertaram atenção e aplausos da plateia. O presidente da República foi aplaudido ao falar da guerra no Oriente Médio e defender uma relatora especial da ONU que foi sancionada pelo governo Trump.
“Francesca Albanese não pode ser silenciada por dizer a verdade”, disse.
Lula tentou traçar um equilíbrio sobre o conflito ao citar expressamente o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o Hamas.
“Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas”, afirmou.

