Há mais de um século, os moradores de Trieste, no nordeste da Itália, realizam um ritual muito específico quando vão nadar. Na praia urbana de La Lanterna, os visitantes formam fila em uma janela para pagar a taxa de entrada de € 1,20, cerca de R$ 7, na cotação atual.
Em seguida, entram por uma das duas portas: mulheres à esquerda, homens à direita. Corredores levam aos vestiários e, de lá, direto para a praia. É aqui que os novatos podem ter uma surpresa — porque não são apenas os vestiários que são separados por sexo.
La Lanterna, também conhecida como El Pedocin, é a última praia da Europa com separação de gênero. Ao pisar nas pedras, mulheres conversam de um lado e homens jogam cartas do outro, sem nunca se esbarrarem.
Se chegar acompanhado de alguém do sexo oposto, essa pessoa estará do outro lado de um muro de três metros de altura. Para conversarem, é necessário nadar para além da corda que separa os lados. Somente em mar aberto os gêneros podem se misturar.
Emancipação feminina na cidade
A segregação de gênero em El Pedocin também está ligada à história de emancipação feminina de Trieste. Este foi um dos primeiros lugares no que hoje é a Itália a ter um colégio exclusivo para meninas, diz Katia Pizzi, professora sênior de Estudos Italianos na Universidade de Londres.
Ela acrescenta que a educação feminina era comum nas principais cidades do Império Austro-Húngaro, mas não na Itália.
“Quando Trieste se tornou italiana em 1918, os níveis de escolaridade eram muito altos”, diz ela. “Trieste não era apenas uma cidade próspera, mas também culturalmente muito vibrante, e as classes médias eram muito bem educadas — incluindo as mulheres.”
Assim como muitas outras populações do Império Austro-Húngaro, os triestinos abraçavam a natureza e a boa forma física. Mauro Covacich, que nasceu e cresceu na cidade e escreveu livros sobre ela, chama isso de “culto à fisicalidade”.
Devido a essa emancipação, as mulheres faziam parte disso. Era uma cidade repleta de associações esportivas — natação, vela, escalada. “El Pedocin fazia parte disso”, diz Pizzi. “Tratava-se de cultivar o corpo como uma forma de esporte e desenvolvimento pessoal.
Covacich afirma que, desde o início, as mulheres usavam trajes de banho relativamente modernos e ousados. Não era um lugar para timidez — era um lugar para se bronzear e nadar. “O bronzeado provavelmente era o ápice dessa ideia de bem-estar físico”, diz ele.
No início do século XX, algumas das escritoras, jornalistas, fotógrafas, artistas e esportistas mais conhecidas de Trieste eram mulheres, afirma Pizzi.
“Desde o início, era uma praia segregada, e isso era visto como algo positivo — por isso se manteve assim durante todo esse tempo”, acresenta a professora. “As mulheres não precisavam ser incomodadas, perturbadas ou importunadas. Era um espaço onde podiam tomar sol sem temer qualquer interferência masculina. Havia um senso de pertencimento, de que aquele era o seu espaço e que não precisavam ser incomodadas pelo olhar masculino.”
Mauro Covacich acrescenta que sempre foi um símbolo de “liberdade” para as mulheres. Ele vê a praia como um lugar para mulheres, apesar de seu lado masculino. Ir lá com sua mãe, cercado por mulheres de todas as idades, lhe dava uma sensação de “nutrição eterna”, diz ele.
Impressões atuais sobre a separação por gênero
Quando a praia virou notícia este ano, a ideia de ser “a última praia segregada por gênero da Europa”, como foi chamada, foi vista por muitos como algo negativo. Mas, segundo os moradores, essa é uma interpretação limitada.
Micol Brusaferro, frequentadora assídua da praia, disse que, quando o jornal local fez uma pesquisa com os residentes há alguns anos, a grande maioria queria que as coisas continuassem como estavam. Pessoalmente, ela diz que não iria se o muro fosse derrubado: “Se tornaria uma praia como todas as outras”.
“Muita gente não conhece muito bem a história de Trieste”, diz Pizzi. “Se as mulheres estão felizes com isso, não vejo por que deveria ser mudado. Se você não quer ir a uma praia só para mulheres, pode ir à praia ao lado.”
Miceli, o salva-vidas, explica de forma simples: “As pessoas estão felizes, a praia está cheia, por que derrubar o muro?”, diz ele.
“Se você encara isso como algo negativo, pode ir para outro lugar.”
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