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Entenda como El Niño pode sobrecarregar o coração e causar complicações

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)

O avanço do El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano pacífico Equatorial, traz um alerta para além das condições meteorológicas. O fenômeno impulsiona episódios de temperaturas elevadas, baixa umidade e queimadas em diversas regiões.

O cenário de estresse térmico exige um esforço suplementar do organismo para tentar dissipar o calor e manter a temperatura corporal estabilizada, o que pode sobrecarregar órgãos vitais como o coração e o cérebro. 

Por que o calor extremo sobrecarrega o coração?

Para esfriar o corpo diante de temperaturas altas, o organismo promove a vasodilatação e aumenta a circulação de sangue na pele, além de intensificar a produção de suor. O mecanismo força o coração a trabalhar mais, o que acelera os batimentos para conseguir manter a pressão arterial adequada.

No entanto, a transpiração excessiva sem a devida reposição provoca a perda de água e de eletrólitos essenciais, como sódio e potássio. O processo resulta em desidratação e hemoconcentração (quando o sangue se torna mais denso devido à redução do volume circulante), além de alterar a atividade elétrica do miocárdio. 

“Quando a temperatura sobe, o coração precisa trabalhar mais justamente em um momento em que a desidratação pode reduzir o volume circulante. Por conta disso, a perda de eletrólitos pode favorecer alterações do ritmo cardíaco”, explica o médico Nilton Carneiro, cardiologista do Hospital Santa Catarina – Paulista.

A combinação entre vasodilatação, aumento da frequência cardíaca e sangue mais denso eleva significativamente a demanda por oxigênio no músculo cardíaco. Em indivíduos com condições pré-existentes, como a aterosclerose, o desequilíbrio eleva o risco de episódios agudos, incluindo arritmias, taquicardia, desmaios e infarto do miocárdio. 

A médica Julianny Freitas, cardiologista da Casa de Saúde São José, ressalta que o aumento de atendimentos médicos relacionados ao calor excessivo é notável. “O coração precisa trabalhar mais para manter a circulação quando o corpo está desidratado, gerando um estado de sobrecarga no órgão”, pontua a médica.

Exaustão por calor X Intermação

Os efeitos da exposição severa ao calor podem se manifestar em diferentes níveis de gravidade como a exaustão por calor e a intermação. 

No primero, o corpo apresenta sintomas como sudorese intensa, fraqueza, tontura, náuseas e pele fria ou úmida. Diante dos sinais, a orientação é ir para um local fresco, tomar líquidos, afrouxar as roupas e deitar com as pernas elevadas.

Já o segundo, também conhecido como “choque térmico ou golpe de calor”, é considerado uma emergência médica grave. A temperatura corporal ultrapassa os 40ºC, e a pessoa apresenta pele quente e seca, confusão mental, perda de consciência e até convulsões.

Nesses casos, o ideal é chamar socorro urgente e resfriar o corpo rapidamente com água fria e ventilação, sem oferecer líquidos caso a pessoa esteja desacordada ou confusa. A falta de socorro imediato nos cenários de desidratação e estresse térmico pode levar ao óbito.

Impactos no cérebro e risco de AVC

Os danos provocados pelas ondas de calor não se limitam ao sistema circulatório. O cérebro também sofre impactos diretos com a elevação da temperatura e a perda de líquidos.

A redução da perfusão cerebral (diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro), aliada ao desequilíbrio eletrolítico e à hemoconcentração, gera maior propensão à formação de coágulos sanguíneos.

“O golpe de calor é a manifestação neurológica mais grave relacionada às altas temperaturas e constitui uma emergência médica. Pode provocar alteração do nível de consciência, convulsões, edema cerebral e outras complicações sistêmicas”, alerta o médico Maurício Hoshino, neurologista do Hospital Santa Catarina – Paulista.

Estudos científicos apontam uma associação entre temperaturas elevadas e o aumento da ocorrência de AVC (Acidente Vascular Cerebral), tanto na forma isquêmica (entupimento arterial) quanto hemorrágica (rompimento de vaso), além de pior prognóstico e maior mortalidade.

Outras condições neurológicas que podem sofrer agravamento incluem crises epilépticas, enxaqueca, piora dos sintomas de Parkinson e esclerose múltipla, além de episódios de confusão mental e declínio cognitivo em pacientes com demência.

Fumaça das queimadas

A situação se torna ainda mais crítica em episódios acompanhados por queimadas. A fumaça libera material particulado fino que atinge profundamente o sistema respiratório e desencadeia respostas inflamatórias sistêmicas.

O processo contribui para um estado pró-trombótico, no qual o sangue tende a coagular com mais facilidade, aumentando o risco de eventos cerebrovasculares e cardiovasculares em pessoas suscetíveis. 

Como se proteger

Para reduzir os riscos à saúde durante os períodos de El Niño e ondas de calor, os especialistas reforçam medidas fundamentais de prevenção.

Entre elas estão hidratação constante, não praticar exercícios físicos intensos nem se expor ao sol direto entre 10h e 16h, dar preferência a roupas leves, manter ambientes ventilados ou climatizados e adotar uma alimentação leve e evitar o consumo de álcool.

Sintomas como tontura, fraqueza intensa, dor de cabeça, náuseas, cãibras, palpitações e queda de pressão indicam que o organismo está em desequilíbrio com o calor e necessita de descanso e hidratação.

Por outro lado, manifestações graves como confusão mental aguda, convulsões, desmaios, dor no peito, falta de ar importante, perda de força ou alteração na fala exigem avaliação médica imediata.

“Calor intenso não deve ser encarado apenas como um desconforto. Em pessoas vulneráveis, ele pode representar um fator de descompensação de doenças já existentes. Por isso, hidratação, controle da exposição e atenção aos sinais de alerta são medidas de prevenção importantes”, finaliza o Nilton Carneiro.

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