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As manobras do BRB para pagar bilhões ao Master em operações fraudulentas

Radar Olhar Aguçado(há 44 minutos)
As manobras do BRB para pagar bilhões ao Master em operações fraudulentas

Laudo produzido pela Polícia Federal (PF) detalha como o BRB estruturou de forma fraudulenta operações com o Banco Master que somaram R$ 17,5 bilhões. O documento revela que dirigentes do BRB ignoraram alertas e implantaram manobras para que as compras fossem realizadas rapidamente — em um dos casos, no intervalo de quatro minutos — e sem análise técnica que comprovasse ao menos que o que estava sendo adquirido de fato existia.

A perícia examinou um universo total de 181 operações, movimentando R$ 47,8 bilhões em cessões, compras, recompras e substituições de carteiras entre BRB e Banco Master. Deste montante, o núcleo pericial delimitou a caracterização de gestão fraudulenta em 25 aprovações de compras de carteiras de varejo, que somaram R$ 17,5 milhões.

Desse total, R$ 12,2 bilhões dizem respeito a Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) cedidas por empresas intermediárias como a Tirreno. Auditorias do Banco Central (BC) e da PF indicaram que “nenhum crédito sequer pôde ser confirmado” por ausência de lastro e documentação.

Pagou sem saber o que estava comprando

O laudo revela que, em muitos casos, o BRB pagou ao Master antes de realmente saber o que estaria comprando. Em 22 de 84 compras de varejo analisadas — somando R$ 7,63 bilhões —, a liquidação financeira ocorreu antes da conclusão dos pareceres técnicos obrigatórios das áreas de Risco, Planejamento, Contabilidade e Controladoria do BRB.

Como o dinheiro já havia saído, as análises técnicas não podiam mais reajustar taxas, exigir mitigadores, alterar volumes, renegociar preços ou impedir o desembolso, servindo apenas para tentar conferir uma “completude formal” retroativa a operações já consumadas, diz a PF no documento.

O BRB também tentou contornar a obrigatoriedade de submeter as operações ao Conselho de Administração (Consad) — exigida para compras acima de R$ 750 milhões. Em 21 das 25 aprovações analisadas o valor foi fixado exatamente em R$ 750 milhões. A estratégia permitiu que a Diretoria Colegiada mantivesse em sua instância exclusiva os R$ 17,5 bilhões apontados como operações fraudulentas pela PF.

Informações falsas e incompletas

Outra manobra teve como objetivo despistar os órgãos de controle internos e externos sobre a exposição do BRB ao Master. A perícia apresentou o mapa mensal da exposição em 2025, que variou de 69,84% a impressionantes 90,31%. O pico foi de R$ 19,78 bilhões em junho de 2025, o que equivalia a 9,32 vezes a soma de todos os outros cedentes do banco juntos.

Para burlar as travas regulatórias de concentração, a PF mostra que o BRB submeteu à diretoria propostas com redações genéricas. Em um dos casos citados, falava apenas em “limite para aquisição de carteira” e omitia nominalmente o Banco Master como cedente, impossibilitando a visualização agregada do risco.

As compras de papéis do Master comprometeram a liquidez do BRB. E isso, de acordo com a perícia, não passou despercebido pela equipe técnica do banco. A PF analisou 66 boletins diários de liquidez e identificou 51 marcas de alerta e 13 extrapolações do Índice de Liquidez de Curto Prazo (ILCP).

O laudo mostra que, mesmo após a ciência formal dos alertas, ainda em março de 2025, a diretoria do BRB aprovou 11 novos limites e autorizou 42 pagamentos ao Master.

Foram, ainda, identificadas planilhas preenchidas com dados fictícios e instrumentos de cessão com firmas reconhecidas em cartório meses após as datas declaradas das operações.

Votações unânimes

A PF analisou ainda as atas de reunião e documentos de governança da Diretoria Colegiada (Dicol) do BRB e identificou que, em todos os casos, a aprovação das aquisições de papéis do Master foi registrada por unanimidade dos membros presentes com direito a voto. Não houve sequer um registro de voto contrário ou ressalva individual registrada contra as operações,

Para os investigadores, a repetição de aprovações unânimes ao longo de meses, mesmo após alertas diários de risco de liquidez e relatórios sobre a insubsistência dos créditos, demonstrou um padrão decisório.

A constatação levou a PF a qualificar a atuação dos sete dirigentes do BRB que integravam a Dicol. Para os investigadores, dois deles tiveram atuação direta nas operações fraudulentas, além das votações colegiadas. São eles: Dario Oswaldo Garcia Júnior, diretor Executivo de Finanças e Controladoria (Dific) e Luana de Andrade Ribeiro, diretora Executiva de Controle e Riscos (Dicor).

De acordo com o laudo, Luana assinou pessoalmente os Reportes Oficiais de Desenquadramento de Liquidez. Apesar de assinar os alertas formais de extrapolação de caixa, votou favoravelmente a 11 compras posteriores, incluindo deliberações com waiver (flexibilização) de limites e afastamento de recomendações da sua própria área técnica.

Já Dario comandava a diretoria que estruturava as Notas Executivas (NEs). Ele recebia formalmente em seu e-mail os relatórios que apontavam indícios de fraude e falta de lastro, mas não há registro de que tenha submetido formalmente esses achados à pauta da Dicol antes de propor novas aquisições bilionárias. Além disso, autorizou liquidações financeiras por e-mail com pendências na esteira interna e sem parecer prévio de risco.

O laudo aponta os outros integrantes que votaram sempre a favor das operações. São eles: Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa, presidente do BRB, Cristiane Maria Lima Bukowitz, diretora executiva de Gestão de Pessoas (Dipes), Diogo Ilário de Araújo Oliveira, diretor executivo de Atacado e Governo (Diago) e José Maria Correa Dias Junior, diretor Executivo de Tecnologia (Ditec).

A PF destaca que Jacques Maurício Ferreira Veloso de Melo, então diretor jurídico, não votou — nem contra nem a favor das operações com o Master. De acordo com o laudo, ele esteve presente em reuniões como convidado sem direito a voto ou esteve ausente, não sendo vinculado às aprovações das carteiras.

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