De mísseis antinavio a defesa cibernética, Brasil e Emirados Árabes Unidos vêm ampliando uma parceria militar que já envolve aquisições de empresas brasileiras, expansão de fábricas e projetos desenvolvidos diretamente com as Forças Armadas.
Nas últimas semanas, o Edge Group, conglomerado de tecnologia e defesa sediado em Abu Dhabi, concluiu a aquisição da brasileira Akaer, acertou com o Exército a criação de um centro de excelência em defesa cibernética e assinou um novo acordo com a Marinha para avançar em capacidades de monitoramento, vigilância e reconhecimento.
O movimento se soma a investimentos iniciados em 2023, quando a Edge comprou 50% da SIATT, companhia brasileira especializada em mísseis e sistemas de alta tecnologia. No ano seguinte, o grupo adquiriu 51% da Condor, fabricante brasileira de tecnologias não letais.
A estratégia combina capital estrangeiro com manutenção de produção, engenharia e propriedade intelectual no Brasil — modelo que encontrou respaldo dentro das Forças Armadas e passou a ser apresentado pela empresa como uma parceria de longo prazo, e não apenas uma relação entre fornecedor e comprador.
À CNN Brasil, o CFO do Grupo Edge, Rodrigo Torres, afirmou que essa é a lógica por trás do novo centro de defesa cibernética que será criado em conjunto com o ComDCiber (Comando de Defesa Cibernética) do Exército.
Segundo ele, o centro está nos padrões da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), com tecnologia igual ao que já opera nos Estados Unidos e Europa.
“Não é um anúncio comercial, é um anúncio de parceria”, disse.
O projeto será estruturado em parceria direta entre Edge e Exército, e cada lado responderá por metade da estrutura do centro.
O plano é criar uma instituição permanente reunindo governo, indústria e academia. O espaço deverá prestar serviços para as três Forças Armadas e instituições federais em áreas como resposta a incidentes cibernéticos, perícia digital, capacitação, pesquisa e desenvolvimento, exercícios militares e desenvolvimento de soluções próprias de defesa cibernética.
A participação direta do Exército no projeto é um dos exemplos do grau de aproximação institucional alcançado pela companhia no Brasil.
Na Marinha, a relação é ainda mais antiga e gira principalmente em torno do MANSUP, míssil antinavio desenvolvido no país. A SIATT participa do programa e, desde a entrada da Edge na empresa, a tecnologia brasileira passou também a integrar a estratégia internacional do grupo emirati.
Em fevereiro de 2025, a Marinha acertou o fornecimento dos MANSUP para as fragatas da classe Tamandaré. O sistema foi desenvolvido para atender tanto às necessidades brasileiras quanto às dos Emirados e ao mercado externo.
Torres afirma que a estrutura foi montada de forma a preservar interesses estratégicos brasileiros.
“Sobre soberania, outro ponto relevante: a propriedade intelectual do míssil MANSUP é da Marinha. E ela pode lucrar com isso futuramente, caso o míssil venha a ser exportado, via royalty”, disse.
A parceria agora começa a avançar para outras áreas.
Em agosto, a DAerM (Diretoria de Aeronáutica da Marinha) e a Edge assinaram um MoU (Memorando de Entendimento) para estudar novas capacidades de monitoramento, vigilância e reconhecimento do espaço marítimo brasileiro.
O acordo prevê intercâmbio de conhecimento, definição de requisitos técnicos e logísticos, treinamento e avaliação de futuras iniciativas.
Expansão industrial
Paralelamente aos projetos com as Forças Armadas, a Edge vem comprando participação em empresas brasileiras e ampliando a capacidade industrial do grupo no país.
A primeira investida ocorreu com a SIATT. Depois da compra de 50% da empresa, em 2023, a companhia iniciou um processo de expansão de sua estrutura industrial.
Em agosto deste ano, colocou em operação a primeira fase de uma nova unidade em Caçapava, no interior de São Paulo, voltada ao desenvolvimento, fabricação, integração e testes de mísseis, foguetes guiados e sistemas de propulsão.
Nesta semana, SIATT e Safran Electronics & Defense também anunciaram um acordo para avaliar a produção no Brasil de motores-foguete de propelente sólido, além de cooperação em sistemas de mísseis, munições vagantes e defesa costeira.
Para Torres, a entrada do capital dos Emirados tem permitido ampliar empresas e capacidades que já existiam no Brasil.
“O que a gente está trazendo é potencialização exponencial para as empresas de defesa. A SIATT tinha, lá atrás, quando a gente fez a aquisição, cerca de 40 pessoas. A gente está falando que a SIATT vai chegar a 500 pessoas”, disse.
Conclusão da compra da Akaer
O movimento mais recente foi a conclusão da compra da Akaer, tradicional empresa de engenharia aeroespacial sediada em São José dos Campos.
A companhia acumula mais de 10 milhões de horas de engenharia em programas aeroespaciais e já trabalhava com a Edge no desenvolvimento e industrialização de sistemas não tripulados.
A estrutura da operação também foi desenhada para atender às regras brasileiras do setor.
Uma participação minoritária da Akaer ficará nas mãos da SIATT para preservar o enquadramento da companhia como EED (Empresa Estratégica de Defesa).
Com a aquisição, a Edge também passa a controlar uma empresa envolvida diretamente em um dos programas de modernização do Exército. A Akaer lidera o consórcio Força Terrestre, contratado para atualizar as viaturas blindadas EE-9 Cascavel.
O projeto começou com um lote-piloto e, segundo Rodrigo Torres, seguirá entre as prioridades da companhia.
Mais do que apenas acessar o mercado brasileiro, a estratégia é utilizar as capacidades desenvolvidas no país em projetos internacionais. O MANSUP já é oferecido para exportação, e as novas instalações industriais da SIATT foram planejadas também para atender contratos no exterior.
Nesse modelo, o Brasil passa a ocupar para a Edge uma posição tripla: é simultaneamente cliente, parceiro tecnológico e base industrial.
O respaldo institucional das Forças Armadas é central para essa estratégia. A companhia participa de programas considerados estratégicos pelo Exército e pela Marinha, enquanto militares brasileiros vêm acompanhando a expansão industrial das empresas controladas ou investidas pelo grupo.
É justamente essa relação que a Edge pretende apresentar como modelo em outros mercados, especialmente países que mantêm relações militares próximas com o Brasil.

