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Água Limpa: a próxima fronteira da competitividade brasileira

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)

Durante décadas, o Brasil acostumou-se a celebrar sua condição de país abundante em água. Abrigamos cerca de 12% da disponibilidade mundial de água doce superficial e possuímos uma das maiores redes hidrográficas do planeta.

Essa riqueza, porém, convive com um paradoxo inaceitável: cerca de 90 milhões de brasileiros ainda vivem sem coleta e tratamento de esgoto, rios urbanos transformaram-se em canais de poluição e grande parte dos corpos d’água sofre crescente degradação.

Somente em 2026 mais de 1,2 milhão de piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento foram despejadas na natureza.

Esse problema deixou de ser apenas uma agenda ambiental ou sanitária. Tornou-se um desafio ao desenvolvimento econômico, à competitividade do país e à qualidade de vida da população.

Em um mundo cada vez mais impactado pelas mudanças climáticas, a gestão da água passa a ser um ativo estratégico nacional.

O Brasil deu um passo importante com o novo Marco Legal do Saneamento.

A ampliação dos investimentos demonstra que é possível acelerar a universalização dos serviços. Mas apenas a expansão da infraestrutura, embora indispensável, não será suficiente. É preciso adotar uma visão integrada que considere toda a bacia hidrográfica, desde a proteção das nascentes até a qualidade da água devolvida aos rios. A despoluição das águas brasileiras precisa ser tratada como um grande projeto nacional.

Isso exige combinar investimentos em redes de coleta e estações de tratamento com ações de recuperação de matas ciliares, controle da erosão, redução da poluição difusa, gestão adequada de resíduos sólidos e fortalecimento dos mecanismos de governança das bacias hidrográficas. Os benefícios econômicos dessa agenda são expressivos.

O saneamento reduz despesas com saúde pública, aumenta a produtividade do trabalho, valoriza imóveis, fortalece o turismo, melhora o ambiente de negócios e amplia a atratividade para investimentos.

Da mesma forma, rios limpos reduzem custos para o abastecimento de água, favorecem a pesca, ampliam oportunidades de lazer e contribuem para a adaptação às mudanças climáticas.

Há também uma dimensão estratégica frequentemente negligenciada. A qualidade da água influencia diretamente setores essenciais da economia brasileira, como agricultura, indústria, mineração, geração de energia e logística hidroviária.

Em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, proteger os recursos hídricos significa reduzir riscos econômicos e fortalecer a segurança nacional. Essa transformação depende igualmente de uma nova governança. União, estados, municípios, setor privado e sociedade civil precisam atuar de forma coordenada.

Os Comitês de Bacias Hidrográficas devem assumir papel mais relevante, assim como os mecanismos econômicos previstos na Política Nacional de Recursos Hídricos, especialmente a cobrança pelo uso da água e sua aplicação prioritária na recuperação das próprias bacias.

Outro elemento decisivo será aproximar as políticas de saneamento das políticas de conservação ambiental. Não existe segurança hídrica sem florestas protegidas, recuperação de áreas degradadas e planejamento territorial.

A água que chega às cidades começa muito antes das estações de tratamento: nasce nas florestas, nas nascentes, nos rios e nas áreas úmidas que precisam ser preservadas.

A experiência internacional demonstra que os países que alcançaram elevados padrões de qualidade ambiental não separaram desenvolvimento econômico de proteção dos recursos naturais. Pelo contrário, compreenderam que investir em água limpa é investir em saúde, produtividade, inovação e prosperidade.

O Brasil reúne condições excepcionais para liderar essa agenda. Dispõe de conhecimento técnico, capacidade empresarial, instituições consolidadas e uma base legal moderna.

O desafio agora é acelerar a implementação, fortalecer a coordenação entre políticas públicas e avançar no cumprimento das metas nacionais de recuperação da qualidade dos rios.

Transformar nossos rios em patrimônio ambiental, social e econômico talvez seja uma das maiores oportunidades de desenvolvimento sustentável desta geração.

Assim como a universalização do saneamento deve ser vista como política de Estado, a despoluição das águas interiores e costeiras precisa integrar uma estratégia nacional de longo prazo.

Água limpa não representa apenas um direito fundamental.

É um dos pilares da competitividade brasileira, da resiliência climática e do futuro do país.

Virgilio Viana é Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável* 

Luana Pretto é Presidente Executiva do Instituto Trata Brasil*

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
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