O Hino Nacional brasileiro é uma daquelas músicas que fazem parte da vida dos brasileiros desde cedo. Na escola, em cerimônias oficiais, em eventos esportivos e, especialmente, nas comemorações do 7 de Setembro, a letra é cantada quase de memória.
Mas, quando chega a hora de explicar o que significam expressões como “raios fúlgidos”, “impávido colosso” e “lábaro estrelado”, nem sempre a resposta vem tão facilmente. Isso acontece porque a letra reúne palavras pouco usadas no português atual e uma construção poética que pode dificultar a compreensão de quem a escuta hoje.
A letra é de Joaquim Osório Duque Estrada, enquanto a música foi composta por Francisco Manuel da Silva. A composição musical foi incorporada oficialmente ao Hino Nacional após a Proclamação da República, e a letra de Duque Estrada foi oficializada em 1922, durante as comemorações do centenário da Independência.
Mas o que, afinal, estamos dizendo quando cantamos o hino?
Os primeiros versos fazem referência à Independência do Brasil e apresentam uma imagem grandiosa do momento:
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante”.
A frase menciona o Grito do Ipiranga, associado ao episódio de 7 de setembro de 1822. Logo depois, aparece uma das expressões que mais causam dúvidas: “E o sol da liberdade, em raios fúlgidos / Brilhou no céu da Pátria nesse instante”.
Fúlgido significa brilhante, reluzente, que emite luz intensa. Os “raios fúlgidos”, portanto, são os raios luminosos do sol. No contexto dos versos, a imagem associa a luz à ideia de liberdade conquistada.
A letra segue falando em “penhor dessa igualdade”. Nesse caso, penhor tem sentido de garantia ou símbolo de algo. O trecho apresenta a igualdade como uma conquista ligada à liberdade e ao esforço.
Já na segunda parte, o Brasil é descrito como um país de grandes dimensões e força: “Gigante pela própria natureza, / És belo, és forte, impávido colosso”.
A palavra impávido significa destemido, corajoso, que não demonstra medo. Colosso pode designar algo grandioso, de grandes proporções. A expressão, portanto, constrói a imagem de um Brasil forte, grandioso e sem temor.
O mesmo trecho traz ainda “Fulguras, ó Brasil, florão da América”. Fulguras significa brilhas ou te destacas, enquanto florão é um ornamento, algo que se sobressai por sua beleza. O Brasil aparece, assim, como um destaque do continente americano.
“Lábaro estrelado” e outras palavras que ficaram no passado
A linguagem do Hino Nacional também ajuda a explicar por que alguns versos parecem difíceis de acompanhar. A letra utiliza palavras que hoje não fazem parte do vocabulário cotidiano e recorre a uma construção poética com inversões na ordem das frases.
É o caso de “lábaro estrelado”, expressão que aparece no final do hino. Lábaro significa estandarte, bandeira ou insígnia. Quando o verso diz “O lábaro que ostentas estrelado”, a referência é à bandeira brasileira.
Já “ostentas” significa exibes ou mostras. A imagem, portanto, apresenta a bandeira estrelada como um dos símbolos do país.
Outro trecho bastante conhecido diz que o Brasil está “deitado eternamente em berço esplêndido”. A frase utiliza uma metáfora para apresentar o país em meio à grandiosidade de sua natureza. Esplêndido significa magnífico, grandioso, extraordinário.
A própria linguagem dos versos é marcada pela exaltação do território brasileiro. A letra fala dos campos, bosques, flores e do céu, construindo uma representação idealizada da natureza e da identidade nacional.
A história por trás da letra do hino
Embora a letra atual tenha sido escrita por Joaquim Osório Duque Estrada em 1909, a história do Hino Nacional começou décadas antes.
A historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da Academia Brasileira de Letras, abordou essa trajetória em um vídeo publicado nas redes sociais. Segundo ela, a melodia permaneceu ao longo do tempo, enquanto a letra passou por diferentes versões durante o período imperial.
A música de Francisco Manuel da Silva remonta ao século 19 e atravessou diferentes momentos políticos do país. Em 1831, no contexto da abdicação de D. Pedro I, surgiu uma versão da letra que fazia uma representação negativa do primeiro imperador. Uma década depois, em 1841, outra versão passou a fazer referência a D. Pedro II, que havia assumido o trono.
Com a Proclamação da República, em 1889, também houve uma tentativa de substituir a composição. Em janeiro de 1890, um concurso foi realizado para escolher um novo hino. A obra vencedora, de Leopoldo Miguez, tornou-se o Hino da Proclamação da República, enquanto a antiga melodia de Francisco Manuel da Silva foi mantida como Hino Nacional.
Foi somente em 1909 que Duque Estrada escreveu a letra que conhecemos hoje. O texto passou por alterações até ser oficializado em 1922, durante as celebrações do centenário da Independência.
É por isso que o Hino Nacional reúne referências de diferentes períodos da história brasileira. A melodia nasceu ainda no Império, atravessou a mudança para a República e ganhou sua letra definitiva décadas depois.
Assim, quando o Hino Nacional é cantado no 7 de Setembro, palavras como “fúlgidos”, “impávido” e “lábaro” não são apenas termos antigos ou difíceis de entender. Elas fazem parte de uma composição que combina poesia, símbolos nacionais e diferentes momentos da história do Brasil.

