No aniversário do menino Davi, em Queimados, na Baixada Fluminense, os convidados especiais que cantaram o parabéns ao lado do bolo não foram personagens de desenhos animados ou super-heróis fictícios, mas sim os coletores de lixo que atuam no bairro.
Créditos: @davizinho_gari (ig) | @davizinhogari (tk) | @myhoodbr
A comemoração, registrada em vídeo, joga luz sobre uma questão central da psicologia: como as crianças constroem sua identidade e escolhem suas figuras de admiração.
A resposta para essa escolha incomum vai além do carinho cotidiano e passa pela chamada linguagem da identidade. Esse conceito analisa como a forma de falar sobre comportamentos afeta diretamente o autoconceito dos mais novos.
O papel das palavras na formação infantil
A ciência estuda há anos a influência das interações verbais na tomada de decisão das crianças. Um experimento conduzido pelo psicólogo Christopher J. Bryan, publicado em 2014 na renomada revista científica Child Development, analisou cerca de 150 crianças de 3 a 6 anos.
No teste, um grupo de crianças foi incentivado com termos que descreviam a ação (“escolhem ajudar”), enquanto outro grupo ouviu palavras que remetiam à identidade (“escolhem ser ajudantes”).
Posteriormente, quando colocadas em situações cotidianas onde podiam colaborar com adultos, as crianças expostas ao termo de identidade (“ajudante”) apresentaram uma frequência significativamente maior de cooperação.
De acordo com as análises do estudo, associar a atitude positiva a quem a criança é (sua essência) torna o comportamento muito mais significativo. Na prática, as mensagens funcionam de formas diferentes:
- “Você ajudou” aponta apenas para uma ação isolada no tempo.
- “Você é um ajudante” estabelece a atitude como uma característica permanente da personalidade em construção.
O valor das relações reais no cotidiano
A construção desse autoconceito moral foi acompanhada de perto também em um estudo longitudinal recente, publicado em 2024 na revista científica Social and Emotional Learning: Research, Practice, and Policy. A pesquisa acompanhou 500 crianças em idade pré-escolar e identificou uma clara relação entre o hábito de compartilhar e o desenvolvimento de valores morais positivos na percepção de si mesmas.
Contudo, os estudos deixam claro que essa percepção não depende somente do discurso dos adultos. As vivências práticas e as interações sociais diárias são cruciais.
No caso de Davi, os profissionais da limpeza urbana fazem parte de sua rotina direta, ilustrados na psicologia como “heróis do cotidiano”. A proximidade e a atenção recebida transformaram trabalhadores comuns em figuras altamente relevantes em seu universo. Para o menino, os coletores de lixo deixaram de ser apenas profissionais de passagem para se tornarem indivíduos que ocupam um espaço de confiança e admiração real.

