Dois navios-tanque de petróleo atingiram minas marítimas e ficaram paralisados ao tentar atravessar o Estreito de Ormuz, informou a Guarda Revolucionária do Irã nesta quarta-feira (2), em comunicado divulgado pela mídia estatal.
Segundo a declaração, os petroleiros foram obrigados a retirar suas tripulações e ficaram sob controle de agentes americanos para atravessar o que a Guarda Revolucionária classificou como uma “rota ilegal” no estratégico estreito.
A Guarda afirmou que a Marinha havia alertado anteriormente sobre os riscos de atravessar a área minada. A informação ocorre em meio à escalada das tensões entre Irã e Estados Unidos no Estreito de Ormuz, importante rota para o transporte mundial de petróleo.
Na terça-feira (25), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que todas as minas colocadas pelo Irã nas águas internacionais do estreito haviam sido removidas ou detonadas.
Tensão em Ormuz
As Forças Armadas dos Estados Unidos realizaram novos ataques contra o Irã nesta terça-feira (1º), levando Teerã a atacar a Jordânia, o Bahrein e o Kuwait, desafiando um alerta do presidente Donald Trump de que qualquer retaliação faria o Irã ser “atingido muito mais duramente”.
A mais recente rodada de ataques de retaliação ocorre depois que Estados Unidos e Irã trocaram ataques durante a noite, avançando pela segunda-feira (31) pela primeira vez em mais de um mês, em confrontos que ameaçaram reacender o conflito, após semanas de relativa calma militar.
Após o anúncio dos novos ataques dos EUA, o presidente Donald Trump advertiu que o Irã enfrentaria uma ação militar ainda mais severa caso retaliasse contra o que chamou de um “ataque muito justificado”.
“Eles serão atingidos novamente em um nível muito mais duro e elevado, mas não será o maior de todos os ataques, que está esperando nos bastidores e, quando terminar, restará muito pouco da República Islâmica do Irã!”, escreveu ele na rede social Truth Social nesta terça-feira.
O Irã, no entanto, prometeu uma resposta “devastadora” e lançou mísseis balísticos contra a Jordânia e drones em direção ao Bahrein e ao Kuwait, afirmando que tinha como alvo instalações militares dos EUA.
Teerã afirmou que estilhaços de um dos ataques americanos atingiram uma festa de casamento no sul do país, matando pelo menos quatro pessoas, incluindo uma criança pequena. A CNN procurou o CENTCOM (Comando Central dos EUA) para comentar a alegação do Irã.
Os ataques americanos foram uma resposta a recentes tentativas iranianas de atacar “navios comerciais no Estreito de Ormuz e tropas americanas mobilizadas na região”, informou o CENTCOM em uma publicação no X.
Desde os ataques dos EUA no domingo, dois navios-tanque foram atingidos por projéteis, segundo o grupo de inteligência marítima Marisks e a agência de monitoramento de tráfego UKMTO (United Kingdom Maritime Trade Operations). Irã e Estados Unidos travam uma disputa prolongada pelo estreito, uma passagem estratégica para o fornecimento global de energia.
O CENTCOM informou que os ataques desta terça-feira tiveram como alvo “sistemas de defesa aérea, radares, ativos e instalações marítimas, capacidades de colocação de minas e instalações de comunicação” ligados ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Os ataques começaram no início da tarde, no horário de Brasília, e o CENTCOM anunciou que haviam terminado mais de seis horas depois.
A nova escalada ocorre apesar de Trump ter sinalizado anteriormente planos de se afastar de uma campanha militar e adotar uma estratégia voltada ao aumento da pressão econômica.
“Não estou tentando forçar o Irã a voltar à mesa de negociações”, escreveu Trump na Truth Social na noite de terça-feira, após a retaliação iraniana. “Gosto muito mais da nossa posição agora, com controle quase total do Estreito de Ormuz e a economia deles entrando em colapso total.”
Após o anúncio dos novos ataques americanos, os contratos futuros de petróleo subiram acima de US$ 94 por barril.
O que foi atingido nesta terça-feira?
Autoridades jordanianas disseram ter interceptado 10 mísseis lançados pelo Irã, enquanto outros três caíram em áreas remotas, longe de regiões povoadas. Não houve registro de vítimas, informou o Exército da Jordânia.
Kuwait e Bahrein também ativaram sistemas de defesa aérea para interceptar drones iranianos, segundo as autoridades dos dois países. O Irã também afirmou ter lançado um ataque combinado de mísseis e drones contra Erbil, na região autônoma do Curdistão iraquiano.
Enquanto isso, os ataques americanos atingiram vários locais no Irã, incluindo as cidades portuárias de Chabahar e Konarak, no Golfo de Omã, que abrigam importantes estruturas comerciais, marítimas e militares.
Explosões também foram ouvidas a leste de Bandar Abbas e nos arredores da Ilha Qeshm, segundo a emissora estatal iraniana IRIB. Ambas ficam no lado norte do Estreito de Ormuz.
A emissora estatal Press TV informou que os ataques atingiram o pequeno aeroporto regional de Jiroft, no sudeste do Irã, e uma fábrica de farinha de peixe na Ilha Qeshm, no estreito.
Separadamente, uma explosão foi ouvida no condado de Asaluyeh, no sul do Irã, um importante centro de gás e petroquímica na costa do Golfo, segundo a agência de notícias semioficial iraniana Fars.
Estilhaços atingem festa de casamento
Autoridades iranianas afirmaram que várias pessoas morreram, incluindo uma criança de quatro anos, e que pelo menos 68 ficaram feridas depois que estilhaços atingiram um prédio onde ocorria uma festa de casamento na vila costeira de Kouhestak, no condado de Sirik, no sul do Irã, segundo a Press TV.
Em imagens divulgadas pela agência de notícias semioficial iraniana Tasnim, que supostamente mostram o local após um ataque dos EUA, uma densa fumaça aparece sobre os destroços no chão. É possível ouvir pessoas gritando ao redor. A CNN geolocalizou as imagens em uma área residencial de Kouhestak.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, condenou o ataque como parte de um “catálogo de atrocidades” cometidas pelos EUA e criticou a “normalização dos bombardeios” pela comunidade internacional.
O ataque teve ampla repercussão na mídia estatal iraniana, provocando indignação nas redes sociais do país e a rápida publicação de um vídeo animado no estilo Lego — um tipo de conteúdo que se tornou recorrente na propaganda iraniana durante a guerra.
A CNN não conseguiu verificar de forma independente os detalhes do suposto ataque ocorrido perto da festa de casamento.
Kouhestak fica a apenas 37 quilômetros da cidade de Minab, onde um ataque americano atingiu uma escola de ensino fundamental em fevereiro, matando pelo menos 168 crianças e 14 professores, segundo o Irã.
Estreito de Ormuz será um “trecho de água sem valor”
A retomada dos combates ocorre enquanto Estados Unidos e Irã travam uma disputa pelo Estreito de Ormuz. Teerã afirma ter o direito de controlar a passagem, enquanto os EUA dizem que se trata de águas internacionais.
O estreito tem sido um ponto de estrangulamento para o fornecimento global de energia desde o início da guerra, mas, nas últimas semanas, uma quantidade maior de petróleo voltou a passar pela região.
Os EUA afirmaram que lançaram os ataques no domingo porque o Irã estaria tentando lançar novas minas marítimas no estreito usando lançadores de foguetes. Teerã respondeu disparando contra o que classificou como alvos militares americanos no Oriente Médio.
Trump disse à Fox News nesta terça-feira que os EUA avisaram previamente seus aliados do Golfo sobre os novos ataques e criticou a liderança iraniana. “Acho que um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, disse o presidente. Mais tarde, acrescentou: “Eles não param: são loucos e estúpidos.”
Trump disse à Fox que os EUA atacaram sistemas de radar que Teerã havia tentado reconstruir. “Eles tentaram reconstruir o radar porque não conseguem enxergar nada”, afirmou. “Esperamos até que estivesse quase pronto e então o atingimos”, acrescentou.
O governo Trump tem rejeitado repetidamente as preocupações sobre a capacidade do Irã de manter o controle do Estreito de Ormuz no longo prazo.
“Em dois anos, o Estreito de Ormuz será como um trecho de água sem valor — o petróleo passará por oleodutos em terra”, disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a Larry Kudlow nesta terça-feira, durante uma entrevista na reunião do G20. Ele se referia aos planos dos países do Golfo de construir infraestrutura que contorne completamente o estreito.
Bessent também afirmou que a nova iniciativa do Departamento do Tesouro para isolar a economia iraniana do restante do mundo acabará forçando o regime a se render. Ele descreveu seu trabalho como o de “garantir que eles queiram fazer um acordo”.
“Nós vamos asfixiar economicamente esse regime”, disse Bessent. “O mundo está cansado desse Estado pária, ou desse Estado pária e rebelde, e está disposto a transformá-lo em um pária.”
Ele acrescentou que, depois de inicialmente mirar um banco em Dubai por suas supostas ligações com o Irã, o Departamento do Tesouro provavelmente sancionará outros dois bancos nas próximas semanas.
*Com informações da REUTERS; Alejandra Jaramillo, Matt Egan, Aida Karimi, Hira Humayun e Eyad Kourdi, da CNN, contribuíram para a reportagem
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