Em meio aos debates inflamados sobre as rotas para combater as mudanças climáticas, a tecnologia de CCS (Captura e Armazenamento de Carbono) frequentemente se vê no centro de uma falsa dicotomia. Críticos a rotulam como uma “distração”, enquanto defensores a apresentam como panaceia. A realidade, contudo, é estritamente pragmática: alcançar as metas globais de emissões líquidas zero (net-zero) sem o uso em escala do CCS é uma equação matematicamente e economicamente inviável.
O Painel IPCC (Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) e a AIE (Agência Internacional de Energia) apontam sistematicamente que o CCS não é um substituto para as fontes renováveis, mas, sim, um pilar complementar indispensável. A transição para matrizes eólicas e solares avança em ritmo acelerado na geração elétrica, mas a economia global depende de setores cujas emissões residuais são praticamente impossíveis de eliminar apenas com a eletrificação. Mesmo na geração de energia elétrica, o uso de fontes fósseis será inevitável para dar segurança energética, devido à intermitência das renováveis. Essa eletricidade, porém, deverá ser de carbono neutro.
Indústrias pesadas como as de cimento, aço e produtos químicos, incluindo os fertilizantes, dos quais o Brasil é totalmente dependente, possuem emissões inerentes aos seus processos químicos de fabricação. No caso do cimento, responsável por cerca de 7% das emissões globais, o CO2 é liberado no próprio processo de calcinação, independentemente da fonte de energia utilizada. Em relação a esses setores, o CCS surge como a única solução viável, no curto e médio prazo, para impedir que milhões de toneladas de gases estufa atinjam a atmosfera.
Além de sua aplicação industrial direta, o CCS desempenha papel estratégico na transição justa e na segurança energética. A tecnologia viabiliza a produção de hidrogênio azul — ponte essencial até que a infraestrutura de hidrogênio verde atinja escala total, além de permitir a desalavancagem gradual de infraestruturas existentes, sem gerar ativos obsoletos desastrosos para as economias em desenvolvimento.
É verdade que o setor enfrenta desafios relevantes, como altos custos iniciais de implementação e a necessidade de frameworks regulatórios rigorosos para garantir taxas de captura superiores a 90%. No entanto, tratar contratempos de maturidade tecnológica como motivos para descarte é um erro estratégico. Assim como a energia eólica e a solar exigiram décadas de subsídios e escala para atingirem a paridade de custos, o CCS necessita de compromisso político e investimento contínuo para consolidar sua cadeia de valor global.
Descartar a captura de carbono em nome de uma pureza ideológica na transição energética compromete o objetivo final. O CCS não existe para perpetuar o uso desmedido de combustíveis fósseis, mas para neutralizar o que a tecnologia atual ainda não consegue substituir. Infelizmente, no Brasil – onde o CCS pode se tornar uma fonte de créditos negativos de carbono com seu uso na bioenergia – a narrativa eurocêntrica ganha eco, dificultando seu financiamento. Em um cenário de emergência climática, negligenciar uma das ferramentas mais potentes de mitigação é um luxo ao qual o planeta simplesmente não pode se dar.
*Fernando Luiz Zancan é presidente da ABCS (Associação Brasileira do Carbono Sustentável)
