O setor imobiliário demonstra preocupação com a implementação da reforma tributária e com a possibilidade de dificuldades operacionais a partir de 1º de janeiro. O alerta foi feito nesta quinta-feira (27), durante a 23ª Convenção Secovi-SP, em São Paulo.
Eduardo Fischer, CEO da MRV&CO, classificou como “pânico” o momento de preparação das empresas para as mudanças e afirmou que o setor ainda enfrenta um alto grau de indefinição sobre como a nova sistemática será aplicada.
“Eu acho que aí a resposta é simples: pânico”, disse o executivo, ao ser questionado sobre os principais pontos de atenção para a reforma tributária.
Segundo Fischer, a preocupação é que a mudança, que tinha entre os objetivos a simplificação do sistema, resulte em uma operação mais complexa para as empresas do setor.
“Você está trocando algo que é mais simples impossível por algo de uma grande complexidade, que a gente não sabe ainda”, afirmou.
O executivo disse que, apesar de o setor estar discutindo o tema há meses, ainda existem definições pendentes e que a falta de clareza pode dificultar a preparação das empresas.
“Está todo mundo mergulhado nisso, mas meio paralisado em relação a como fazer, porque não tem definição”, afirmou.
Para Fischer, o prazo até o início da implementação aumenta a preocupação. Ele afirmou ser otimista por natureza, mas disse esperar dificuldades para as empresas, inclusive para operar a partir de 1º de janeiro.
“Eu estou muito preocupado com isso”, disse.
Pedido ao governo
O executivo afirmou que representantes do setor já levaram ao governo a preocupação com os possíveis problemas operacionais e defendem que haja mais tempo para adaptação.
Segundo Fischer, o setor tem mantido interlocução com integrantes do governo para tentar sensibilizar os responsáveis pela regulamentação sobre as dificuldades apontadas pelas empresas.
Ele também afirmou que ainda não é possível saber com clareza quais serão os efeitos da reforma sobre toda a cadeia produtiva.
“Não sei como a cadeia vai se comportar”, afirmou.
A preocupação com a reforma se soma a um cenário que, segundo outros representantes do setor, já exige cautela na tomada de decisões.
Bianca Setin, vice-presidente da Setin Incorporadora, afirmou que o fluxo de caixa se tornou uma prioridade para as empresas diante da necessidade de tomar decisões de longo prazo em um ambiente de juros elevados e custos de produção pressionados.
Para ela, a cautela é especialmente importante na compra de terrenos e na definição de novos projetos, já que o incorporador pode levar anos entre a aquisição de uma área e a entrega do empreendimento.
“O incorporador compra o terreno hoje, prevê o futuro. Tem um ato de fé muito grande, um ato de otimismo, porque somos otimistas”, afirmou.
Bianca também apontou dificuldades para fechar a conta de novos empreendimentos voltados à classe média. Segundo ela, custos de terreno, outorga, produção e marketing pressionam os projetos, enquanto parte dos consumidores não consegue acompanhar os preços pela renda e capacidade de financiamento.
“Não é que ele não quer comprar. Ele não consegue comprar, e eu não consigo produzir ao preço que ele pode comprar”, disse.
Para a executiva, o cenário exige responsabilidade na gestão do caixa e dos custos das empresas.
“Se a gente fosse taguear essa primeira rodada de conversas, seria: caixa, cautela, fé”, afirmou.
A preocupação com a reforma tributária, portanto, se soma a outros fatores apontados pelos representantes do setor durante a convenção, como juros elevados, custo de capital, endividamento das famílias e dificuldades para equilibrar os custos de produção com a capacidade de pagamento dos consumidores.

