Uma sequência de recuperações judiciais e extrajudiciais envolvendo empresas ligadas à infraestrutura já movimenta pelo menos R$ 183 bilhões em passivos desde 2020, em um ciclo de reestruturações que ganhou força no período pós-pandemia e atingiu alguns dos maiores grupos empresariais do país.
Levantamento feito pela CNN Infra com base nos valores divulgados em processos e pelas próprias companhias identificou mais de duas dezenas de empresas ligadas aos setores de energia, transportes, mineração, petroquímica, cimento, engenharia e outros segmentos intensivos em capital que recorreram à justiça para renegociar dívidas ou obter proteção contra credores no período.
O valor é aproximado e não representa necessariamente o estoque atual de dívidas dessas companhias.
Os processos ocorreram em momentos diferentes e há casos em que o valor divulgado corresponde ao passivo sujeito à recuperação, enquanto em outros representa a dívida incluída no plano de reestruturação.
Ainda assim, a soma dá uma dimensão da deterioração financeira enfrentada por algumas das maiores empresas desses setores.
Os dois maiores casos são recentes. A Raízen teve homologado neste ano um plano de recuperação extrajudicial que envolve aproximadamente R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras. Já a Braskem apresentou em 24 de agosto pedido de recuperação extrajudicial envolvendo cerca de R$ 56 bilhões.
Juntas, as duas companhias representam aproximadamente 64% dos R$ 183 bilhões identificados no levantamento. Mesmo retirando Raízen e Braskem da conta, porém, os demais processos ainda somam cerca de R$ 66 bilhões.
Entre os maiores casos estão também a InterCement, com R$ 14,2 bilhões; a Light, com R$ 11 bilhões; a OSX, com R$ 7,9 bilhões; o Grupo Metha, com cerca de R$ 6 bilhões; e a Unigel, com R$ 5,4 bilhões. A Light protocolou um pedido de encerramento da recuperação judicial da companhia e aguarda decisão.
A lista inclui ainda empresas de geração de energia, comercializadoras, mineradoras e concessionárias de transporte. Estão entre elas Thopen, Rio Alto, Araguaia Níquel, 2W, Tradener, Electra, Mina Tucano, SuperVia, Eletron, Gold, Paranapanema, Brasil Comercializadora, América Energia, Vega, Diferencial e Argon.
Juros aceleraram problemas
A concentração de processos ocorre em um período marcado por custo elevado de capital e maior seletividade na concessão de crédito. Para Anderson Brito, chefe do banco de investimento do UBS BB, no entanto, atribuir o movimento apenas aos juros seria uma simplificação.
“Os juros altos são parte importante da explicação, mas não contam toda a história. O que estamos vendo nas recuperações judiciais e extrajudiciais é a combinação de uma estrutura de capital que ficou excessivamente alavancada com choques específicos de cada setor.”
Segundo o executivo, os problemas assumiram características diferentes dependendo da atividade de cada companhia.
“Em energia e infraestrutura, por exemplo, houve deterioração de margens, maior volatilidade de preços, mudanças regulatórias e, em alguns casos, perda de acesso ao crédito. Em empresas industriais, há ainda uma questão estrutural de competitividade e excesso de oferta global. Ou seja, os juros funcionaram como um acelerador de problemas que, em muitos casos, já vinham sendo construídos há alguns anos.”
A avaliação ajuda a explicar por que empresas de setores diferentes chegaram ao mesmo instrumento jurídico. Infraestrutura e indústria pesada têm em comum a necessidade elevada de capital, projetos de maturação longa e, muitas vezes, estruturas financeiras construídas com parcela relevante de dívida.
Quando a geração de caixa diminui e o refinanciamento fica mais caro ou mais difícil, a capacidade de administrar o passivo se deteriora rapidamente. Ao mesmo tempo, os problemas particulares de cada companhia tiveram peso relevante.
No caso da Braskem, além do endividamento, a empresa enfrenta um período prolongado de margens pressionadas na petroquímica, aumento da competição internacional e obrigações relacionadas ao afundamento do solo em Maceió. A concorrência de produtores estrangeiros com custos menores também pressionou a participação da companhia no mercado brasileiro.
Energia concentra sequência de casos
O setor elétrico chama particularmente a atenção pela quantidade de empresas que recorreram à Justiça para se protegerem de execuções de dívidas.
Uma sequência de comercializadoras enfrentou dificuldades nos últimos anos e deixaram um passivo que pode superar R$ 10 bilhões, em uma crise que se espalhou pelo mercado livre de energia e já produz reflexos no mercado regulado e tem levado dezenas de empresas a recorrer à Justiça para se protegerem de execuções de dívidas.
Entre as empresas estão 2W, Tradener, Electra, Eletron, Gold, Brasil Comercializadora, América Energia, Vega, Diferencial e Argon, entre outras.
Na Electra, por exemplo, a própria empresa atribuiu parte de suas dificuldades às mudanças nos parâmetros de formação dos preços de energia a partir de 2025, à elevação do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), aos custos de modulação e ao efeito da inadimplência de outros agentes sobre a liquidez do mercado.
Para Rômulo Greff Mariani, advogado do RGMA Resolução de Disputas, o custo financeiro elevado se somou a problemas particulares de determinados segmentos.
“De modo geral, a despesa financeira se torna insustentável face aos juros altos. Em paralelo, existem circunstâncias particulares, como preços da energia altos no caso das comercializadoras de energia ou o sinistro em Maceió no caso da Braskem.”
Segundo Mariani, a recuperação também funciona como instrumento para abrir espaço para uma renegociação mais organizada das obrigações.
“Por meio de mecanismos existentes na recuperação judicial ou extrajudicial, é possível buscar alguma proteção a curto prazo.”
A decisão de recorrer à recuperação, no entanto, não está ligada apenas à deterioração financeira. O processo também pode oferecer instrumentos jurídicos e tributários relevantes para a reorganização das companhias. Para Ricardo Soriano, advogado sócio do escritório Figueiredo & Velloso e ex-Procurador-Geral da Fazenda Nacional, o ingresso em recuperação pode envolver também uma avaliação estratégica.
“Ao lado de comprovadas dificuldades econômicas, é claro que o ingresso de grandes empresas e grupos em recuperação judicial comporta também avaliação estratégica. Nas dívidas federais em cobrança pela PGFN [Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional], o ingresso viabiliza tratamento diferenciado como parcelamento especial em até 120 meses independentemente de celebração de transação tributária; descontos nas dívidas maiores que o usual; suspensão do andamento das execuções fiscais desde o momento em que meramente proposta transação, entre outros.”
Grandes empresas já deixaram processos de reestruturação
Desde 2020 grandes companhias que atuam no Brasil também passaram por reestruturações, mas já deixaram os processos. É o caso da mineradora Samarco, que entrou com o pedido de RJ em abril de 2021, mas teve o processo oficialmente encerrado pela Justiça em agosto de 2025.
Em relação aos modais de transportes, destacam-se a Triunfo e a Concessionárias Rodovias do Tietê, que tiveram homologações de recuperações judiciais em 2020 e 2021, respectivamente, mas deixaram os processos posteriormente.
No setor aéreo, as três maiores companhias que operam no território nacional – Gol, Latam e Azul – recorreram ao Chapter 11 nos Estados Unidos, legislação semelhante à brasileira. Alguns especialistas destacam que a ferramenta americana é mais sofisticada e favorável a determinadas empresas, apesar de geralmente ser mais cara. Todas as companhias também já deixaram os respectivos processos.
*Com colaboração de Fabricio Julião, Gabriel Garcia, Rafael Villaroel e Jenifer Ribeiro
Juros altos são uma das principais causas de inadimplência no Brasil

