O ex-vice-presidente da Nicarágua, Sergio Ramírez, publicou, nesta terça-feira (25), uma carta dirigida ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na qual pede que o petista “não negue” ao país liderado por Daniel Ortega “o direito de eleger livremente”.
No texto, publicado na coluna do ex-vice no jornal espanhol El País, Ramírez questiona o posicionamento do Brasil na sessão do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos na última quarta-feira (19).
Na ocasião, o Brasil foi o único membro a votar contra uma resolução para convocar uma reunião de chanceleres que discuta a situação do país centro-americano, após Ortega afirmar que já não haveria a realização de eleições.
“Ortega suprimiu as eleições. Não negue você, presidente, à Nicarágua o direito de eleger livremente; esse mesmo direito que pode torná-lo presidente do Brasil mais uma vez”, escreve Ramírez na publicação.
Escritor e ex-revolucionário sandinista, Ramírez foi vice-presidente do país no primeiro governo de Ortega, entre 1985 e 1990. Hoje, ele define o regime nicaraguense como uma ditadura e afirma que Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, se apoderaram do governo.
Na carta, ele também pede que Lula evite dar aos nicaraguenses a impressão de que a única possibilidade de que o Brasil condene as ações de Ortega seria com a eleição de Flávio Bolsonaro, em outubro.
“Não se arrisque, por favor, a criar uma terrível confusão que leve o povo da Nicarágua a acreditar que a única maneira de que o Brasil se manifeste claramente contra Ortega e sua ditadura familiar é com a vitória de Flávio Bolsonaro e tudo o que isso representa”, escreve Ramírez.
Exilado na Espanha, após ter sua nacionalidade retirada por Ortega e ser alvo de um mandado de prisão em seu país, o ex-vice nicaraguense conta no texto ter visto Lula pela última vez em 1991, quando o petista discursou na sessão inaugural do primeiro congresso da Frente Sandinista, em Manágua.
“Foi um discurso que nunca esqueci e que nos ajudou a fixar o rumo dos que buscávamos afiançar uma corrente democrática dentro daquele partido que tinha sofrido uma derrota eleitoral que deu fim à revolução”, diz ele.
Segundo Ramírez, na ocasião, Ortega não gostou das palavras de Lula acerca da única democracia ser determinada pelos votos dos cidadãos. O líder sandinista acabava de perder as eleições presidenciais para Violeta Chamorro, que governou o país até 1997.
Na carta, o ex-vice lembra das corridas eleitorais de que o presidente brasileiro participou, das três vezes que chegou ao poder por meio do voto e da nova tentativa, “sempre fiel ao sistema democrático do Brasil e respeitoso dos resultados eleitorais quando não o favorecem”.
“Tenho certeza de que, se alguém pensasse em dizer que no Brasil não haverá mais eleições, você seria o primeiro a sair às ruas para defender o direito de eleger, porque, de fato, só existe um tipo de democracia, a que depende dos votos, uma democracia que não é de direita nem de esquerda, é parte dela quem a respeita”, continuou Ramírez.
No texto, Ramírez lembra, inclusive, das críticas de Ortega a Lula quando o Brasil não reconheceu a presidência de Nicolás Maduro sem a apresentação das atas eleitorais no pleito de 2024. À época, o nicaraguense disse que o brasileiro estava sendo submisso aos norte-americanos e europeus.
Para Ramírez, a atual posição do Brasil na OEA “se afasta radicalmente” da postura de Lula daquele momento a favor da democracia, “que deve ser defendida tanto por governos de esquerda como de direita”.
Quem é Daniel Ortega e como é classificado o governo da Nicarágua?

