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Dolly Parton: relembre a história da rainha da música country que morreu

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 4 horas)
Dolly Parton: relembre a história da rainha da música country que morreu

Dolly Parton, que começou em origens humildes para alcançar o topo da música americana e se tornar uma das estrelas mais filantrópicas, unificadoras e amadas do país, morreu nesta terça-feira (25) em sua casa em Nashville, segundo um comunicado da família, aos 80 anos.

O comunicado, atribuído ao seu sobrinho Bryan Seaver, informou que Parton morreu “em paz”. Uma cerimônia pequena e privada será realizada para os familiares próximos, acrescentou a nota.

Em uma carreira que se estendeu por mais de meio século, Parton capturou a experiência americana ao compor mais de 3.000 músicas. Entre elas estava “Coat of Many Colors”, uma ode íntima à sua mãe, que costurava roupas na casa rural da família no Tennessee.

Ela escreveu e interpretou canções sobre amor e desilusões amorosas, como “Jolene” e “I Will Always Love You”. Já “9 to 5”, a música-tema do filme de mesmo nome, no qual Parton também estrelou, tornou-se um hino para as mulheres e trabalhadores americanos.

Parton lançou 49 álbuns, ganhou 11 prêmios Grammy e se tornou uma das artistas de maior sucesso a fazer a transição da música country para o pop, emplacando sucessos constantes nas paradas, incluindo “Islands in the Stream”, um dueto com Kenny Rogers.

Mais tarde na vida, ela canalizou seu enorme sucesso para a filantropia, fundando um programa de incentivo à leitura que já doou mais de 300 milhões de livros para crianças ao redor do mundo.

Mas Parton era, antes de tudo, uma compositora. Ela gostava de contar a história de como uma de suas maiores canções, “I Will Always Love You”, veio ao mundo. Uma balada romântica que atingiu patamares ainda maiores ao ser regravada por Whitney Houston nos anos 1990, a música começou como um apelo ao seu parceiro de palco, Porter Wagoner, para que a deixasse seguir em frente e sair do programa de TV que apresentavam juntos.

Ao tentar convencê-lo de que queria seguir carreira solo, Wagoner, segundo o relato dela, “não estava ouvindo nada” do que ela dizia.

“Então fui para casa, escrevi a música, levei para ele na manhã seguinte e disse: ‘Sente-se, preciso que você ouça uma coisa’. Eu cantei, e ele chorou”, contou ela. Wagoner cedeu, e Parton, com uma canção que capturava a dor de um coração partido, embarcou em uma carreira solo quase incomparável na história da música americana.

Origens humildes

Nascida em 19 de janeiro de 1946 em uma cabana de um único cômodo no Tennessee, Parton cresceu como a quarta de 12 filhos. Ela descrevia a família como “extremamente pobre”. Seu pai não sabia ler.

A música sempre fez parte da família, especialmente por meio de sua mãe, cujo pai era um pastor que tocava piano e violão. “O meu pessoal era aquele que cantava em velórios, casamentos, festas e qualquer evento local”, recordou Parton certa vez.

Um tio deu a Parton seu primeiro violão quando ela ainda era criança. Ela aprendeu a tocar aos 7 anos de idade e começou a compor as próprias músicas. “Minha mãe ficava fascinada de ver como eu conseguia fazer rimas e escrever sobre coisas que nunca tinha vivido”, disse Parton, “mas eu ouvia as pessoas conversando”.

Parton mudou-se para Nashville logo após o ensino médio para buscar suas aspirações musicais. Em seu primeiro dia lá, conheceu um homem chamado Carl Thomas Dean em frente a uma lavanderia. “Fiquei surpresa e encantada porque, enquanto falava comigo, ele olhava para o meu rosto (algo raro para mim)”, escreveu ela muitos anos depois. “Ele parecia genuinamente interessado em saber quem eu era e o que queria da vida.”

Parton assinou seu primeiro contrato fonográfico com a Monument Records em 1965 e se casou com Dean no ano seguinte.

Tornando-se cada vez mais querida em Nashville, Parton conseguiu em 1967 participações regulares no “The Porter Wagoner Show”, um popular programa musical de TV que a ajudou a se tornar um nome conhecido nacionalmente. Ela conquistou seu primeiro topo das paradas com “Joshua” em 1971 (“Coat of Many Colors”, lançada no mesmo ano, chegou ao 4.º lugar).

Em 1974, após sete anos sendo a “garotinha bonita” de Wagoner — cantando como apoio e depois dividindo o palco em vários duetos —, Parton decidiu que era hora de seguir em frente e, com uma ajuda de “I Will Always Love You”, lançou-se em carreira solo.

Isso poderia parecer um passo arriscado na época, mas, aos 20 anos, Parton já havia aberto uma editora musical com seu tio (e às vezes parceiro de composição) Bill Owens, mantendo o controle acionário de suas músicas. A visão de Parton era clara: ela queria reter o interesse financeiro sobre suas contribuições, em grande parte para garantir que conseguiria sustentar sua família.

Isso lhe proporcionou um grau de controle que poucos artistas — e poucas mulheres — tinham na época. Em 1974, ela chegou a recusar Elvis Presley quando ele quis regravar “I Will Always Love You”, porque o empresário dele, o Coronel Tom Parker, exigia uma participação nos direitos de edição. “Esta música pertence à minha editora e, obviamente, será uma das minhas obras mais importantes; não posso abrir mão da metade dos direitos”, lembrou ela de ter dito. “Porque isso é algo que estou deixando para a minha família.”

Anos mais tarde, quando a faixa se tornou um megasucesso na voz de Houston como tema romântico do filme “O Guarda-Costas” (1992), Parton faturou algo em torno de US$ 10 milhões em direitos autorais.

Da música para as telas

Com seu sotaque do sul dos EUA, seu charme espirituoso e visual marcante, Parton tinha um talento natural diante das câmeras. Ela tentou lançar seu próprio programa de variedades — apropriadamente chamado “Dolly!” —, mas ele durou apenas uma temporada. Naquela altura, Hollywood já a chamava.

Parton fez sua estreia no cinema no filme “Como Eliminar Seu Chefe”, de 1980, ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin. As três interpretavam secretárias que planejam uma vingança contra o chefe machista.

Fonda, que era produtora do filme por meio de sua recém-criada produtora, lembrou o momento em que soube que Parton precisava estar no elenco. Ela tinha ido assistir a Tomlin em um show individual na Broadway e sabia que queria escalá-la. No caminho para casa, ligou o rádio e ouviu Parton cantando “Two Doors Down”, uma música animada sobre uma mulher que decide esquecer a dor de cotovelo e ir a uma festa na casa do vizinho.

“Meus arrepios subiram na hora”, disse Fonda. “Ela nunca tinha feito um filme. Eu pensei: ‘Meu Deus, Dolly, Lily e Jane…’”

Parton concordou em estrelar o filme, desde que pudesse escrever e cantar a música-tema. Nascida do som do batuque das unhas de acrílico de Parton, a canção “9 to 5” rapidamente se tornou parte da trilha sonora do movimento de libertação feminina, especialmente no que dizia respeito à proteção e à igualdade de direitos no ambiente de trabalho.

Ela voltou às telonas em “A Melhor Casa de Tolerância do Texas” (1982), contracenando com Burt Reynolds, e mais tarde em “Flores de Aço” (1989) — sobre um grupo de mulheres sulistas de personalidade forte, estrelado por Sally Field e Julia Roberts —, o que a apresentou a uma nova geração de admiradores, incluindo muitos da comunidade LGBTQ+. A personagem de Parton, Truvy, proprietária de um salão de beleza e “técnica em glamour”, podia ser uma versão pouco velada da própria superestrela, mas isso não tirou seu magnetismo e sua atitude eternamente otimista, que ajudavam a unir o grupo diante das adversidades.

Parton também emprestou seus talentos musicais a projetos que muitos em seu meio country mais tradicional poderiam ter criticado, como a canção “Travelin’ Thru” (2005), do filme “Transamérica”, focado em uma mulher trans tentando reatar laços familiares. A faixa rendeu a Parton sua segunda indicação ao Oscar de Melhor Canção Original, depois de “9 to 5”.

“Sou muito transparente no que diz respeito a aceitar as pessoas em geral”, disse Parton a Larry King em 2016. “Não acredito que devamos criticar e julgar os outros; acho que devemos ser receptivos e amorosos. Somos todos filhos de Deus. Somos quem somos e deveríamos ter a liberdade de ser quem somos.”

Quando King perguntou se a comunidade religiosa ficava ofendida com sua postura, Parton respondeu: “Com certeza. Recebo críticas o tempo todo.”

Parton mantinha discrição sobre suas opiniões políticas em geral. Os fãs nunca souberam sua posição sobre presidentes ou políticos específicos, e ela se incomodava em ser rotulada. Não se definia como feminista, embora tenha reconhecido com o tempo que era uma feminista “na prática”, e não na teoria. “Eu vivi isso”, disse ela certa vez. Como sempre, ela deixava que suas letras falassem por si.

Um legado de doações

Parton alcançou um sucesso gigantesco ao longo do tempo, escrevendo dezenas de músicas marcantes e emprestando sua imagem a tudo: de misturas para bolo a joias e panelas de ferro fundido.

Em 1986, ela comprou um parque temático em Pigeon Forge, no Tennessee, e o renomeou como Dollywood. O parque atrai fãs de Dolly de todo o mundo e também é uma grande fonte de receita para a região.

O parque de diversões é o maior empregador do condado de Sevier, de acordo com um estudo de impacto econômico de 2021, sendo creditado por criar mais de 23.000 empregos e gerar cerca de US$ 1,8 bilhão (cerca de R$ 9 bilhões) anualmente.

Parton publicou vários livros de grande sucesso, incluindo as biografias “Dolly: My Life and Other Unfinished Business”, “Behind the Seams: My Life in Rhinestones” e “Star of the Show: My Life on Stage”, além do romance “Run Rose Run”, coescrito com James Patterson. Ela também escreveu vários livros infantis, incluindo “I Am a Rainbow”, “Coat of Many Colors” e a série “Billy the Kid”.

Em 1999, Parton foi introduzida no Country Music Hall of Fame e recebeu o prêmio pelo conjunto da obra da Recording Academy em 2011. Quanto ao Rock & Roll Hall of Fame, ela inicialmente hesitou com a perspectiva de ser homenageada, dizendo que não se sentia uma estrela do rock legítima.

Ela encarou o fato como um convite (a pedido de seu marido) para tentar gravar um álbum de rock — naturalmente chamado “Rockstar” —, no qual a lenda do country fez duetos com ícones do rock como Ringo Starr e Paul McCartney, além de regravar clássicos como “Stairway to Heaven” e “Let It Be”.

Conforme seu sucesso na música e nos negócios crescia, o mesmo acontecia com seus esforços humanitários. Dois anos após a abertura do Dollywood, ela criou a Dollywood Foundation, que inicialmente buscava reduzir a taxa de evasão escolar em seu condado natal, no Tennessee.

Após a expansão com o Buddy Program — no qual Parton se comprometeu pessoalmente a dar US$ 500 a cada aluno do 7º e 8º ano que concluísse o ensino médio —, ela fundou a Imagination Library, que se tornou uma das maiores iniciativas de alfabetização infantil e doação de livros do mundo. Tudo estava ligado ao seu pai, a quem ela dizia que a biblioteca prestava homenagem.

“Ele foi o homem mais inteligente que já conheci, mas sei em meu coração que a incapacidade de ler provavelmente o impediu de realizar todos os seus sonhos”, disse ela.

Além de múltiplas doações e programas de bolsas de estudo, Parton também se mobilizou ao longo dos anos após desastres naturais que afetaram seu estado natal e regiões vizinhas.

Durante a pandemia de Covid-19, ela interveio pessoalmente para ajudar a financiar o desenvolvimento da vacina da Moderna, doando US$ 1 milhão para pesquisas sobre o coronavírus na Universidade Vanderbilt, em Nashville.

“Senti muito orgulho de ter feito parte daquela semente financeira que, com sorte, vai crescer e se tornar algo grandioso para ajudar a curar este mundo”, disse Parton.

Eu sempre vou te amar

Ao longo de sua vida, Parton manteve sua rotina pessoal preservada. Seu marido, Carl Dean, notavelmente se manteve fora dos holofotes na maior parte do casamento, mas a história de amor deles era sólida.

“Funcionou para nós porque ambos fazemos coisas diferentes e é empolgante quando estamos juntos”, disse Parton em 2024. “Então, o fato de haver esse pequeno espaço torna tudo mais empolgante quando você volta para casa.”

Dean era um apoiador discreto, porém forte, da carreira de Parton. “A razão de ter durado é porque não ficamos em cima um do outro o tempo todo”, disse ela ao “Entertainment Tonight” em 2020. “Ele tem orgulho de mim e não é ciumento. Nós apenas nos damos muito bem.”

Ele também foi uma das inspirações para o estrondoso sucesso “Jolene”. Parton escreveu a música depois que uma funcionária de um banco demonstrou um interesse um pouco exagerado por seu marido, segundo ela contou à NPR. “Ele simplesmente adorava ir ao banco porque ela lhe dava muita atenção”, contou. “Era meio que uma piada interna entre nós.”

Dean morreu em março de 2025, aos 82 anos, uma perda muito difícil para a artista. Ela lançou a música “If You Hadn’t Been There” em homenagem ao marido de 59 anos de união.

“Se você não estivesse lá, onde eu estaria?”, dizia ela na letra. “Sem a sua confiança, amor e fé.”

Parton enfrentou problemas de saúde nos meses seguintes. “Quando meu marido Carl estava muito doente — e isso durou muito tempo — e depois, quando ele faleceu, eu não cuidei de mim mesma”, disse Parton em um vídeo para os fãs em 2026. “Então, deixei passar muitas coisas das quais eu deveria ter cuidado.”

“Ainda não estou pronta para morrer”, completou. “Não acho que Deus tenha terminado o que tem para mim, e eu ainda não terminei de trabalhar.”

Dolly Parton diz que não consegue compor após morte do marido

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