A World Liberty Financial, apoiada pelo presidente Donald Trump, está colaborando com uma empresa de Hong Kong que oferece modelos de IA (Inteligência Artificial) desenvolvidos por empresas chinesas que o governo dos EUA sinalizou como motivo de preocupação em relação à segurança nacional.
A WorldClaw, fundada no início deste ano, oferece aos clientes acesso a um conjunto de modelos de IA e aceita os tokens de criptomoeda da World Liberty como forma de pagamento. A família Trump, por meio de sua participação acionária, obtém receita com o uso dos tokens da World Liberty.
Uma análise da Reuters revelou que 43 dos 90 modelos disponíveis no site da WorldClaw — ou seja, quase metade — foram desenvolvidos pela Alibaba, Baidu, Z.ai e outras empresas de tecnologia chinesas que, segundo o governo Trump, representam riscos à segurança nacional e à propriedade intelectual. A WorldClaw também oferece acesso a dezenas de modelos de empresas americanas, como a OpenAI e a Anthropic.
Não há nada de ilegal na colaboração da World Liberty com a WorldClaw nem nas relações da WorldClaw com as empresas chinesas. E esses modelos chineses, que geralmente são mais baratos, estão ganhando força globalmente, inclusive entre as empresas de tecnologia dos EUA.
Ainda assim, sete especialistas em tecnologia, comércio e ética governamental chineses afirmaram que a colaboração empresarial — e os lucros potenciais para o presidente Trump por meio da World Liberty — vão contra a postura de seu governo em relação às empresas de tecnologia chinesas.
“Enquanto o governo dos EUA tenta responder à ascensão e à ameaça da IA chinesa, parece hipócrita recorrer à WorldClaw para usar essas ferramentas da China na tentativa de ganhar muito dinheiro”, disse Sam Bresnick, pesquisador do Centro de Segurança e Tecnologias Emergentes da Universidade de Georgetown.
A Reuters não conseguiu apurar os detalhes dos acordos financeiros da World Liberty com a WorldClaw nem quanto dinheiro a família Trump ganhou com pagamentos em criptomoedas na plataforma. Os dois filhos mais velhos do presidente promoveram publicamente a WorldClaw, e um executivo da World Liberty atuou como consultor da WorldClaw.
A World Liberty lucra com o uso de sua stablecoin USD1, inclusive quando os usuários da WorldClaw a escolhem como forma de pagamento para acessar modelos de IA. Assim como outras stablecoins baseadas no dólar americano, a USD1 é lastreada por ativos tradicionais, como títulos do Tesouro dos EUA, de modo a manter um valor constante. A família Trump tem direito a uma porcentagem dos juros auferidos sobre esses ativos.
A porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, afirmou em comunicado que “não há conflitos de interesse” na relação entre a World Liberty e a WorldClaw e que “o presidente Trump age exclusivamente no melhor interesse do público americano”.
David Wachsman, porta-voz da World Liberty, disse que a WorldClaw é uma empresa independente e observou que grandes empresas americanas utilizam inteligência artificial tanto de empresas de tecnologia chinesas quanto americanas. “Essa é uma abordagem comum e amplamente aceita”, afirmou.
Um porta-voz da WorldClaw afirmou em um comunicado que a empresa “ajuda empresas americanas de IA a alcançar usuários internacionais” e que “disponibilizar um modelo não significa endossar seu desenvolvedor”.
Aumentam as preocupações com a corrida armamentista da IA
Os modelos de IA chineses oferecidos pela WorldClaw são, em geral, legalmente permitidos para uso por pessoas físicas e jurídicas nos Estados Unidos. No entanto, algumas das empresas chinesas que os produzem enfrentam restrições do governo dos EUA devido a preocupações com a segurança nacional.
Os modelos de IA incluem aqueles desenvolvidos pelos gigantes da tecnologia Alibaba e Baidu, que o Departamento de Defesa dos EUA classificou como empresas alinhadas às forças armadas chinesas. Essa classificação impede o Pentágono de fazer negócios com essas empresas chinesas.
Outros modelos são da Z.ai, antiga Zhipu AI, que consta da “lista de entidades” do Departamento de Comércio — uma designação que restringe severamente o acesso à tecnologia dos EUA. Qualquer empresa norte-americana que pretenda vender produtos ou serviços a empresas incluídas na lista de entidades teria de solicitar uma licença de exportação, com presunção de recusa.
De acordo com a lista do governo, a Z.ai promove a “modernização militar da China por meio do desenvolvimento e da integração de pesquisas avançadas em inteligência artificial”, o que é “contrário aos interesses de segurança nacional e de política externa”.
Também estão disponíveis modelos da DeepSeek e da Moonshot, empresas chinesas de tecnologia que foram recentemente acusadas por autoridades do governo Trump de roubar propriedade intelectual de concorrentes norte-americanos na área de IA.
A Baidu, a Z.ai, a DeepSeek e a Moonshot não responderam aos pedidos de comentário. A Alibaba, a Baidu e a Z.ai contestaram a conclusão do governo dos EUA de que estariam alinhadas com as forças armadas chinesas, enquanto o governo chinês contestou as alegações de roubo de tecnologia.
“A Alibaba não é uma empresa militar chinesa nem faz parte de qualquer estratégia de fusão entre os setores militar e civil”, afirmou um porta-voz da Alibaba em comunicado enviado por e-mail. O porta-voz disse que a inclusão da empresa na lista do Pentágono foi “arbitrária e caprichosa” e que a Alibaba entraria com uma ação judicial para exigir sua remoção.
A resposta do governo Trump aos modelos chineses de IA, que avançam rapidamente, continua em constante mudança.
No início de seu segundo mandato, Trump afirmou que era importante que os EUA superassem a China no desenvolvimento de tecnologia e IA. Mais recentemente, a China e os EUA têm se mostrado cada vez mais preocupados com uma corrida armamentista em IA e tentado reduzir as tensões antes da cúpula prevista para o próximo mês entre Trump e o presidente Xi Jinping.
“Por um lado, pode-se dizer que este é um governo de linha dura em relação à China, e há uma tensão com esse tipo de colaboração comercial”, disse Peter Jeydel, advogado que lidera a equipe de sanções e controles comerciais do escritório Troutman Pepper Locke, em Washington.
“Por outro lado, pode-se argumentar que esta presidência de Trump tem sido menos agressiva ao visar empresas chinesas, optando por uma abordagem que prioriza os negócios. Essa colaboração estaria alinhada com isso.”
Os Departamentos de Comércio e Defesa não responderam às perguntas da Reuters sobre a WorldClaw.
Filhos de Trump promovem a Wordlclaw no X
Pouco se sabe publicamente sobre a WorldClaw. A empresa afirmou, por meio de seu porta-voz, que se trata de uma “empresa de IA de propriedade e operação independentes”, e seu site informa que ela “não é oferecida, administrada ou controlada de forma alguma” pela World Liberty ou suas afiliadas.
Mas as duas empresas se beneficiam dessa parceria. A família Trump detém 38% da World Liberty e obtém lucros por meio da venda ou do uso de seus tokens de criptomoeda, o token de governança $WLFI e a stablecoin USD1. A WorldClaw aceita USD1 como forma de pagamento por seus serviços, entre outras formas de criptomoeda.
O porta-voz da WorldClaw afirmou que Ryan Fang, diretor de crescimento da World Liberty, tem sido um “consultor externo prestativo e apoiador da WorldClaw, especialmente no que diz respeito à adoção do USD1, às parcerias e à ampliação do acesso global aos serviços de IA”. O porta-voz destacou que o papel de Fang era “estritamente consultivo”.
Os filhos do presidente — cofundadores da World Liberty — promoveram a WorldClaw na plataforma de mídia social X. Donald Trump Jr. disse, em maio, que se encontraria com os vencedores de um concurso da WorldClaw em Mar-a-Lago, o clube da família na Flórida, enquanto Eric Trump elogiou a colaboração em uma postagem, referindo-se a ela como “o futuro das finanças”.
Até o momento, os ganhos da família Trump com a venda de tokens da World Liberty somam mais de US$ 1,4 bilhão, a maior parcela dos US$ 2,3 bilhões que a família obteve com criptomoedas, segundo reportagem da Reuters divulgada em junho.
Enquanto os filhos de Trump, Don Jr. e Eric, administram os negócios da família, conhecidos como Trump Organization, o presidente mantém a propriedade por meio de um fundo fiduciário.
A IA chinesa pode apresentar riscos à segurança
O site da WorldClaw informa que sua ferramenta WorldRouter, que funciona como um agregador que fornece acesso a vários modelos de IA, possui mais de 10.000 usuários, com mais de 50 milhões de tarefas solicitadas por dia.
A WorldClaw também está desenvolvendo um aplicativo para o uso de agentes de IA na execução de tarefas pessoais, como pedir comida ou resumir e-mails, de acordo com seu site.
Daniel Remler, pesquisador sênior do Center for a New American Security e, até recentemente, assessor de políticas do Departamento de Estado dos EUA, afirmou que os modelos de IA chineses oferecidos no WorldClaw poderiam expor os usuários a vários riscos: monitoramento pelo governo chinês, resultados censurados e a injeção de código malicioso capaz de sequestrar agentes de IA.
A empresa afirma em seu site que o WorldClaw pode compartilhar as entradas dos usuários com as empresas que fornecem seus modelos de IA.
O porta-voz do WorldClaw afirmou que a empresa leva a segurança a sério e aplica medidas de proteção de privacidade e segurança à sua plataforma.

