Era 17 de junho de 1994, e o Madison Square Garden estava lotado para o Jogo 5 das Finais da NBA entre o New York Knicks e o Houston Rockets.
A série estava empatada em dois jogos para cada lado. O vencedor ficaria a apenas uma vitória de levantar o Troféu Larry O’Brien, que Michael Jordan e o Chicago Bulls dominaram nos três anos anteriores.
Deveria ter sido uma das maiores noites esportivas do ano, e foi – mas não por causa do jogo.
Como Ian O’Connor, colunista do The Athletic, destaca na série: “É preciso entender que os Knicks não ganhavam um campeonato há mais de duas décadas.”
“E aqui estão eles, prestes a abrir uma vantagem de 3 a 2 nas finais da NBA contra o Houston Rockets… e ninguém está assistindo ao jogo.”
Isso porque, do outro lado do país, o ex-astro da NFL, o running back O.J. Simpson, e seu ex-companheiro de equipe, Al Cowlings, estavam sendo perseguidos pela polícia em uma perseguição em baixa velocidade pelas ruas de Los Angeles.
Simpson não havia se entregado ao Departamento de Polícia de Los Angeles naquele mesmo dia, após ter sido apontado como suspeito dos assassinatos de sua ex-esposa, Nicole Brown Simpson, e do amigo dela, Ronald Goldman, que havia sido encontrado morto a facadas em frente à casa de Brown Simpson cinco dias antes.
O que se seguiu foi uma perseguição surreal de 90 minutos que se tornou um dos eventos televisivos mais assistidos da história americana.
Simpson já havia corrido para mais de 2.000 jardas em uma única temporada de 14 jogos, mas essa foi de longe a corrida mais assistida de sua vida.
Milhares de pessoas se enfileiraram em viadutos para tentar ver o Bronco branco, enquanto emissoras de televisão de todo o país interrompiam sua programação normal para transmitir a perseguição — a NBC chegou a interromper parcialmente sua cobertura das finais da NBA, exibindo a perseguição simultaneamente ao jogo em tela dividida.
De certa forma, eles não tinham escolha, já que todos os olhares estavam agora voltados para a Costa Oeste.
Histórias além do placar
As finais da NBA não foram o único grande evento esportivo que ficou em segundo plano em relação aos acontecimentos em Los Angeles.
Ken Griffey Jr. estava em busca do recorde de home runs de Babe Ruth, Arnold Palmer jogava sua rodada final no US Open e a Copa do Mundo de 1994 começava pela primeira vez em solo americano.
No entanto, foram as imagens de um Bronco branco percorrendo uma rodovia da Califórnia que capturaram a atenção do país.
Como afirma Timothy Naftali, colaborador da CNN: “O que vemos nos anos 90 é a televisão sensacionalista e uma fome por histórias que descreveríamos como… o outro lado da experiência humana.”
Além do esporte
Os americanos estavam cada vez mais interessados em ver além do placar – as personalidades, controvérsias e escândalos que envolviam os maiores astros do esporte começavam a despertar quase tanto interesse e fascínio quanto suas performances.
O ataque à patinadora artística americana Nancy Kerrigan em janeiro de 1994 – que levou a uma audiência recorde para os Jogos Olímpicos de Inverno um mês depois – e a infame mordida na orelha de Evander Holyfield por Mike Tyson em junho de 1997, que desencadeou um frenesim de notícias em todo o mundo, foram outros exemplos disso.
O jornalista John Heilemann descreve o período como “maluco” na série, já que “o esporte está se tornando tão grande e abrangente”, destacando que “o brilho da mídia é muito mais intenso nessa época, e as coisas começam a ficar um pouco distorcidas nos anos 90”.
Foi uma época em que as fronteiras entre esporte, celebridade e escândalo se tornaram tênues, e as câmeras estavam lá para registrar tudo. Foi uma “era explosiva de cobertura midiática”, afirma Van Lathan, jornalista e podcaster do The Ringer.
O atleta famoso
A década de 1990 também foi marcada pela explosão da televisão esportiva 24 horas, o que significou que os atletas passaram a ter uma visibilidade sem precedentes e sua popularidade disparou.
As maiores estrelas do esporte estavam se transformando em celebridades quase convencionais – e ninguém personificou essa mudança melhor do que Simpson.
Ele foi vencedor do Troféu Heisman, MVP da NFL, recebeu diversas seleções para o All-Pro e Pro Bowl, antes de estrelar vários filmes e comerciais, tornando-se uma das personalidades da mídia mais reconhecidas do país.
Muito antes da perseguição do Bronco, seu impacto já havia sido sentido muito além do campo de futebol americano.
Como destaca o jornalista e comentarista esportivo Seth Davies, o que definiu a década de 90 foi o “crescimento da infraestrutura da mídia de entretenimento em torno do esporte”, já que “começamos a conhecer esses atletas em um nível pessoal e a considerá-los celebridades”.
Até então, Simpson era carinhosamente apelidado de “o Suco”. O detetive Tom Lange, do Departamento de Polícia de Los Angeles, chegou a chamá-lo por esse apelido durante a perseguição do Bronco, enquanto implorava para que ele jogasse a arma que tinha para fora do carro.
Mas o detetive Lange não estava sozinho, pois durante a transmissão, cartazes feitos à mão com mensagens como “Salve o suco” e “Vai, OJ, vai!” – uma referência a um famoso comercial da Hertz estrelado por ele anos antes – estavam sendo exibidos por centenas de fãs nos viadutos da rodovia.
E lembrem-se, este era um homem que havia sido oficialmente declarado foragido algumas horas antes pelo Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD).
No entanto, como Heilemann explica na série, “a glorificação dos atletas” na época levou a relações quase “parasociais”, já que os fãs começavam a “desenvolver um nível de conexão doentio com seus ídolos”.
Aqueles 90 minutos nas rodovias do Condado de Los Angeles, em junho de 1994, foram uma das ilustrações mais impactantes disso – 95 milhões de americanos assistiram a tudo acontecer sem placar ou ideia de quando o apito final soaria.
Mas, apesar disso, o esporte nunca havia sido tão popular.

