O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), previsto para acontecer nos dias 8 e 15 de novembro, pretende deixar os estudantes em alerta na reta final do período de preparo para a prova. Candidatos de todo o país intensificam os estudos e um dos conteúdos que pode fazer a diferença na prova é o repertório utilizado na redação.
Para além do domínio das disciplinas, a prova valoriza a capacidade de análise crítica, argumentação e conexão com o mundo real. Segundo o professor Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovação da Arco Educação, acompanhar as principais notícias do país pode contribuir tanto para as questões objetivas quanto para a redação, que tradicionalmente aborda problemas sociais de grande relevância.
“O Enem busca avaliar o pensamento crítico do estudante, ou seja, como a pessoa se posiciona diante de questões atuais e estruturais do país. Ter bagagem sobre os acontecimentos recentes ajuda muito na construção de argumentos sólidos e coerentes”, afirma.
Celedônio ressalta ainda que o tema da redação costuma ser definido entre os meses de junho e julho. “O objetivo não é tentar adivinhar o tema da redação, mas identificar assuntos atuais que dialogam com características recorrentes da prova, como problemas sociais brasileiros, garantia de direitos, invisibilidade de determinados grupos e necessidade de construção de propostas de intervenção.”
A partir das discussões que ganharam força no país ao longo dos últimos meses, Ademar Celedônio selecionou sete temas que dialogam com questões recorrentes da redação do Enem e que merecem atenção dos estudantes durante a preparação:
1. Desafios para a proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais brasileiros
O uso crescente das tecnologias expõe crianças e adolescentes a conteúdos inadequados, publicidade direcionada, coleta indevida de dados, cyberbullying e outras formas de violência. O tema envolve a responsabilidade compartilhada entre família, escola, Estado e empresas de tecnologia.
Por que é relevante? Novas leis e discussões sobre responsabilidade das plataformas e educação digital tornam o tema urgente e bastante atual.
Possíveis abordagens:
- educação digital e letramento midiático nas escolas;
- responsabilidade das plataformas pelos conteúdos e mecanismos de recomendação;
- proteção de dados pessoais e verificação de idade;
- cyberbullying, assédio e exploração sexual on-line – criação de canais acessíveis de denúncia e acolhimento;
- impactos do uso excessivo de telas na saúde mental;
- formação das famílias para a mediação do uso da tecnologia.
2. Desafios para garantir o direito à vida e ao futuro da juventude brasileira
A violência letal, a evasão escolar, o crime organizado e a falta de oportunidades atingem especialmente jovens negros e moradores das periferias. Discutir o futuro da juventude significa articular segurança pública, educação, trabalho, cultura e redução das desigualdades.
Por que é relevante? O tema reúne discussões sobre direitos humanos, segurança pública, educação, trabalho, cultura e desigualdade social.
Possíveis abordagens:
- desigualdade racial e territorial na distribuição da violência;
- prevenção da violência e atuação integrada das políticas públicas voltadas à juventude;
- acesso ao ensino, técnico e ao primeiro emprego;
- aliciamento de jovens pelo crime organizado;
- ausência de espaços culturais, esportivos e de lazer;
- saúde mental e perspectivas de futuro;
- valorização da participação juvenil nas decisões públicas.
3. Desafios para promover a alfabetização plena como condição para o exercício da cidadania no Brasil
A redução do analfabetismo não significa que todos os brasileiros consigam interpretar textos, informações públicas, dados científicos ou conteúdos digitais. A alfabetização plena envolve leitura, escrita, compreensão e autonomia para participar da vida social.
Por que é relevante? Alfabetizar é garantir autonomia, acesso ao trabalho, à informação e participação social de forma plena.
Possíveis abordagens:
- ampliação e valorização da Educação de Jovens e Adultos;
- desigualdades regionais, raciais e socioeconômicas;
- combate à evasão e ao abandono escolar;
- formação e valorização dos professores alfabetizadores;
- alfabetização funcional e compreensão de textos;
- alfabetização digital e acesso às tecnologias;
- alfabetização científica para interpretar evidências;
- letramento midiático para enfrentar a desinformação;
- busca ativa de jovens, adultos e idosos fora da escola.
4. Caminhos para fortalecer a confiança da população brasileira na ciência e nas instituições de saúde
A desinformação, notícias falsas e interpretações equivocadas comprometem decisões individuais e políticas públicas essenciais.
Por que é relevante? A pandemia mostrou a importância da ciência. O tema permite discutir comunicação científica, educação, transparência e combate à desinformação.
Possíveis abordagens:
- educação científica desde a Educação Básica;
- combate à desinformação sobre vacinas e tratamentos;
- transparência na divulgação de riscos e eventos adversos;
- comunicação pública em linguagem clara e acessível;
- responsabilidade das plataformas na circulação de conteúdos falsos;
- valorização das universidades e instituições de pesquisa;
- formação de profissionais de saúde para a comunicação com a população;
- aproximação entre ciência, imprensa e sociedade;
- recuperação da confiança por meio de dados abertos e prestação de contas.
5. Desafios para identificar e incluir estudantes com altas habilidades ou superdotação na educação brasileira
Muitos estudantes com altas habilidades permanecem invisíveis porque as escolas não possuem instrumentos de identificação, profissionais preparados ou propostas pedagógicas adequadas. A inclusão também exige atender quem aprende em ritmo ou profundidade diferentes.
Por que é relevante? A nova lei sobre o tema em 2026 prevê mapeamento, atendimento especializado e valorização das potencialidades, inclusive da dupla excepcionalidade.
Possíveis abordagens:
- identificação precoce de diferentes tipos de altas habilidades;
- formação docente para reconhecer potencialidades;
- atendimento educacional especializado;
- enriquecimento e flexibilização curricular;
- aceleração dos estudos quando pedagogicamente recomendada;
- criação de centros e programas de referência;
- desigualdade de acesso ao diagnóstico e ao acompanhamento;
- apoio socioemocional aos estudantes;
- combate ao estereótipo de que todo estudante superdotado tem desempenho elevado em todas as áreas;
- reconhecimento da dupla excepcionalidade, como altas habilidades associadas a autismo, TDAH ou dislexia.
6. Perspectivas para a inclusão das pessoas neurodivergentes na sociedade brasileira
Pessoas com autismo, TDAH, dislexia e outras condições ainda enfrentam barreiras educacionais, profissionais, comunicacionais, sensoriais e culturais. A inclusão depende não apenas do diagnóstico, mas da adaptação dos ambientes e da superação do capacitismo.
Por que é relevante? Avanços legislativos recentes indicam novos caminhos, mas a inclusão real depende de mudanças culturais, formação profissional e eliminação de preconceitos.
Possíveis abordagens:
- formação de professores para práticas pedagógicas inclusivas;
- adaptação de avaliações, metodologias e espaços escolares;
- acesso ao diagnóstico e ao acompanhamento multidisciplinar;
- inclusão no ensino superior e nos processos seletivos;
- empregabilidade e adaptação dos ambientes de trabalho;
- criação de espaços com menor sobrecarga sensorial;
- combate ao preconceito, à infantilização e ao capacitismo;
- valorização da autonomia das próprias pessoas neurodivergentes;
- apoio às famílias e aos cuidadores;
- garantia de acessibilidade em serviços públicos, eventos e espaços culturais.
7. Perspectivas para o enfrentamento das calamidades climáticas e da degradação ambiental no Brasil
Enchentes como as do Rio Grande do Sul e o desmatamento da Amazônia mostram como eventos extremos e degradação ambiental atingem, sobretudo, as populações mais vulneráveis.
Por que é relevante? O assunto permite discutir prevenção, planejamento, justiça climática e a responsabilidade compartilhada entre governos, empresas e sociedade.
Possíveis abordagens:
- prevenção de desastres e sistemas de alerta;
- planejamento urbano e fiscalização de áreas de risco;
- adaptação das cidades aos eventos climáticos extremos;
- combate ao desmatamento e às queimadas;
- proteção da Amazônia e de outros biomas;
- recuperação de matas ciliares e áreas degradadas;
- justiça climática e proteção das populações vulneráveis;
- responsabilização de governos e agentes econômicos;
- educação ambiental e consumo sustentável;
- reassentamento digno das famílias atingidas;
- integração entre ciência, Defesa Civil e gestão pública;
- continuidade das políticas ambientais, independentemente das mudanças de governo.
Como se preparar para qualquer tema?
Para o professor, o mais importante não é tentar prever o tema da prova, mas desenvolver repertório, capacidade de interpretação e argumentação. “Para atingir a nota 1000, é importante saber interpretar o problema, argumentar e propor soluções viáveis. Recomendo que os candidatos pratiquem redações com temas atuais para construir argumentos consistentes e propostas de intervenção.”
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* Publicado por Gabriela Carvalho, em colaboração para CNN Brasil.

