O tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil já começa a provocar mudanças nas rotas do comércio internacional. Empresas brasileiras estão vendendo produtos ao México, enquanto os mexicanos direcionam parte dessa produção aos Estados Unidos e recompõem seus estoques com mercadorias brasileiras, segundo o ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Luiz Fernando Furlan.
“Eu já sei, por exemplo, de empresas brasileiras que estão vendendo para o México e os mexicanos vendem o produto produzido lá nos Estados Unidos e compram do Brasil para repor aquilo que estão mandando”, afirmou Furlan, em entrevista em Luanda, Angola.
O movimento mostra como as cadeias globais podem se reorganizar diante de barreiras comerciais. Em vez de simplesmente interromper o comércio, uma tarifa pode alterar a origem, o destino e a rota dos produtos, com empresas buscando alternativas para manter o abastecimento.
Para Furlan, o comércio internacional funciona como um sistema de “vasos comunicantes”: quando um canal é dificultado, os fluxos procuram outros caminhos.
“Não vai se criar muito valor e também não vai se perder, porque há grandes empresas que têm agências de vendas, navios de transporte e, no final, essas coisas vão se ajustando”, disse.
O exemplo ganha relevância em um momento em que as vendas brasileiras aos Estados Unidos já mostram os efeitos das barreiras. As exportações para o mercado americano somaram US$ 21 bilhões entre janeiro e julho de 2026, queda de 12,2% em relação ao mesmo período de 2025. Entre os produtos submetidos às maiores sobretaxas, a retração chegou a 31,5%.
Ao mesmo tempo, as exportações brasileiras para o restante do mundo cresceram 10,5% no período, sinal de que parte dos embarques está sendo redirecionada para outros mercados.
“Paciência e prudência”
Diante do tarifaço, Furlan defende que o governo brasileiro evite transformar a disputa comercial em uma guerra política.
Na avaliação do ex-ministro, o impacto das tarifas é desigual entre os setores e não representa necessariamente um problema generalizado para a economia brasileira. Por isso, ele considera mais adequada uma estratégia de negociação e adaptação das empresas.
“O governo tem alternado as suas posições: uma de ter paciência, porque, em passado recente, a paciência deu bom resultado. E a outra é de usar politicamente o tarifaço. Entre essas duas coisas, eu optaria pela paciência e pela prudência”, afirmou.
A estratégia, segundo ele, também passa por aproveitar o momento para acelerar a abertura de novos mercados.
Agronegócio precisa sair da zona de conforto
Furlan avalia que o Brasil ainda explora pouco a possibilidade de investir diretamente em outros países. O sucesso do agronegócio brasileiro e o tamanho do mercado doméstico, segundo ele, criaram certo comodismo entre empresas que poderiam assumir riscos em novas fronteiras.
A África aparece, nesse cenário, como uma oportunidade.
Para o ex-ministro, empresas brasileiras podem levar para países africanos não apenas produtos, mas conhecimento, tecnologia e capacidade de produção. O movimento poderia ser especialmente relevante em países que buscam reduzir a dependência de importações de alimentos.
Angola é um dos mercados que, na visão de Furlan, poderia avançar nessa direção.
O país poderia ampliar a produção de alimentos, agregar valor à proteína animal e, no futuro, transformar-se em uma plataforma de exportação para outros mercados africanos.
“Você poderia agregar valor à proteína animal e também tornar uma base exportadora aquilo que foi colocado no painel de hoje: que muitos países estão procurando autossuficiência alimentar, reduzindo a dependência de fornecedores importantes mundiais”, afirmou.
Produzir fora para vender a terceiros
A estratégia não seria necessariamente produzir apenas para abastecer o mercado angolano. Furlan vê a possibilidade de utilizar Angola como uma base de produção e exportação para terceiros mercados.
Ele cita, inclusive, a possibilidade de investimentos tripartites envolvendo Brasil, China e parceiros locais. A China poderia participar de projetos de infraestrutura, enquanto empresas brasileiras entrariam com conhecimento e tecnologia de produção agropecuária.
Mas há um obstáculo: o capital disposto a assumir risco.
“Finalmente, acaba sempre com a presença do empreendedor que traga o conhecimento, a expertise e, ao mesmo tempo, tenha apetite para o risco”, disse.
Para Furlan, governos, bancos e instituições de pesquisa podem criar as condições para os negócios, mas não substituem o empresário disposto a colocar dinheiro e conhecimento em uma operação internacional.
Uma das alternativas seria formar parcerias entre brasileiros e empresários locais. O investidor brasileiro levaria a experiência produtiva, enquanto o parceiro local contribuiria com o conhecimento sobre as regras e particularidades do país.
“As regras são diferentes do Brasil. Poderia acontecer uma parceria ganha-ganha”, afirmou.
A lógica é semelhante à que marcou a expansão da agricultura brasileira para o Centro-Oeste. Produtores que tinham propriedades menores no Sul assumiram riscos para comprar áreas maiores e ampliar a produção em uma nova fronteira.
Na visão do ex-ministro, o agronegócio brasileiro pode repetir esse movimento fora do país — e o tarifaço americano pode funcionar como um estímulo adicional para que empresas passem a olhar para essas oportunidades.

