Últimas

Superdotação: mitos e falhas dificultam identificação e prejudicam alunos

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Superdotação: mitos e falhas dificultam identificação e prejudicam alunos

A superdotação é um terreno amplo para estigmas que associam o indivíduo a um desempenho acadêmico de excelência, e a dificuldade na identificação pode prejudicar o contexto pedagógico do aluno superdotado.

O cenário em torno do tema ainda enfrenta um cenário de indefinição que dificulta a identificação na prática.

Nesta segunda-feira (10), é comemorado o Dia Internacional da Superdotação. No contexto escolar, quem mais pode ficar atento é o professor.

“Geralmente, é a primeira pessoa que convive diariamente com a criança em situações de aprendizagem. É no ambiente escolar que muitos sinais da superdotação podem ser percebidos pela primeira vez”, afirma Francisca Chagas, especialista em alunos com altas habilidades/superdotação, à CNN Brasil.

De acordo com ela, é um mito associar a superdotação a uma inteligência acima da média. Estudantes superdotados podem, inclusive, apresentar baixo rendimento escolar devido a diferentes fatores, como projeto pedagógico inadequado, dificuldades emocionais ou outros transtornos.

Ao receber um aluno superdotado, a escola deve reunir a equipe e implementar ações voltadas ao perfil dele após uma Avaliação Pedagógica Diagnóstica, que observa o aluno em diferentes dimensões.

“É um processo sistemático de levantamento e análise de dados, com o objetivo de compreender quais habilidades estão consolidadas ou em desenvolvimento e também entender as barreiras que interferem na aprendizagem“, explica.

Essa avaliação investiga evidências pedagógicas nos aspectos cognitivos, social, motor e afetivo e identifica lacunas, estilos de aprendizagem e ritmo.

“Com essa avaliação, a escola consegue elaborar um Plano Educacional Individualizado com estratégias, metodologias, adaptações, com um currículo escolar mais profundo e flexível”, avalia ela. No entanto, a especialista ressalta que o professor precisa de ajuda da equipe pedagógica no planejamento.

“O professor não precisa e não deve caminhar sozinho. Uma escola inclusiva precisa incluir propostas em seu projeto pedagógico, investir em formação docente e discutir planejamentos coletivos.”

Sistema educacional brasileiro dificulta identificação e desafios do gênero feminino

No Brasil, a identificação de alunos com altas habilidades e superdotação esbarra em um sistema educacional despreparado, na escassez de dados oficiais e na falta de consenso conceitual. Como resultado, indicadores de superdotação podem ser camuflados por fatores individuais como timidez, perfeccionismo excessivo e baixa autoestima.

“No contexto do país, soma-se o fato de que a maioria das crianças e adolescentes está inserida em escolas com pouco estímulo e sistemas de aprovação automática. Por isso, muitas vezes os superdotados não têm a oportunidade de demonstrar os talentos ou a superdotação. Dessa forma, não são nem identificados”, destaca psiquiatra especialista em TEA (Transtorno do Espectro Autista), TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e Altas Habilidades, Fabrícia Signorelli.

Sem reconhecimento e estímulos adequados, a formação escolar tradicional pode mascarar o desempenho intelectual do superdotado, especialmente em se tratando de mulheres.

A psiquiatra explica que a expectativa social em torno do comportamento de meninas e jovens pode dificultar a identificação de uma possível alta habilidade nos anos de vida escolar. Fatores culturais e expectativas de gênero podem favorecer comportamentos de adaptação, autocontrole e mascaramento das próprias capacidades.

Parte do atraso não vem da menina se achar menos capaz, mas do fato de que o adulto ao redor simplesmente espera e observa menos esse perfil nelas, fazendo com que passem despercebidas. A expectativa de um comportamento mais quieto, obediente, organizado e menos ‘desafiador’ em sala de aula faz com que sinais que costumam chamar atenção nos meninos apareçam de forma mais discreta ou socialmente aceitável, tornando a identificação menos óbvia para o professor”, avalia Fabrícia.

A especialista alerta que mulheres superdotadas podem ser mais vulneráveis a transtornos mentais, justamente por causa do atraso na identificação e da pressão para camuflar a alta habilidade.

“Mulheres e meninas apresentam maior prevalência de depressão e transtornos de ansiedade, atribuída a mecanismos psicológicos, sociais e biológicos interativos, incluindo discriminação de gênero e sobrecarga de papéis”, explica.

A avaliação também é destacada por Damião Silva, psicólogo e pedagogo especialista em educação inclusiva e em atendimento educacional especializado para altas habilidades.

Ele complementa que características da superdotação podem ser interpretadas como perfeccionismo, ansiedade, timidez ou simplesmente alto desempenho.

“Anos de não identificação, mascaramento, pressão por adaptação e incompreensão do próprio funcionamento podem representar fatores importantes de sofrimento psicológico. Em alguns casos, a mulher chega à vida adulta tratando manifestações emocionais sem que sua superdotação tenha sequer sido considerada.”

Pesquisa destaca aumento da violência de gênero em sala de aula

Superdotação: mitos e falhas dificultam identificação e prejudicam alunos — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado