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Análise: A guerra que colocou Trump e o Pentágono sob pressão

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Análise: A guerra que colocou Trump e o Pentágono sob pressão

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demonstrou irritação nas redes sociais ao reagir a reportagens que apontavam uma drástica redução nos estoques de munições das Forças Armadas americanas em decorrência da guerra contra o Irã.

Trump afirmou que o país possui “quantidades enormes de munições” e ameaçou com longas penas de prisão quem estivesse vazando informações consideradas por ele traiçoeiras para a imprensa. Apesar da postura defensiva, ao ser questionado por jornalistas na Casa Branca, Trump reconheceu que certos tipos de munição não estão no nível considerado ideal.

Segundo apuração da CNN junto a autoridades do governo, o presidente tem reclamado, em conversas privadas, que as reportagens sobre o status do arsenal americano fazem os Estados Unidos parecerem fracos diante do Irã — justamente em um momento em que Washington busca demonstrar força para pressionar Teerã a aceitar um acordo de paz.

Estoques críticos e dificuldade de reposição

A CNN reportou que os militares americanos já teriam consumido o equivalente a cerca de 80% dos mísseis interceptadores THAAD disponíveis antes da guerra e aproximadamente metade dos interceptadores Patriot.

O mestre em Ciências Militares Paulo Filho ressaltou que o problema não se originou exclusivamente no conflito com o Irã. “O problema foi agravado na guerra contra o Irã, mas não começou com ela”, afirmou.

Desde 2022, os Estados Unidos têm fornecido sistemas de armas para a Ucrânia — primeiro diretamente, depois por intermédio dos europeus —, o que já havia comprometido os estoques de mísseis Patriot e THAAD, os únicos sistemas capazes de interceptar mísseis balísticos.

Paulo Filho destacou ainda a dificuldade de repor esses arsenais. “O míssil Patriot leva entre 18 e 24 meses, desde a encomenda até o dia em que é entregue, a um custo altíssimo, na casa de US$ 4,5 milhões a US$ 5 milhões“, explicou.

Novas fábricas estão sendo criadas, mas o processo exige trabalhadores especializados e toda uma cadeia de suprimento, o que impede uma reposição rápida.

Pressão sobre o Pentágono e o orçamento militar

O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna acrescentou que os Estados Unidos também precisaram repor estoques de mísseis Patriot para Israel no ano passado, após o país usar grande parte desses mísseis para se defender de ataques iranianos.

“Houve dois salvos longos de mísseis lançados pelo Irã, em abril, depois em junho, e de novo este ano”, recordou. Segundo ele, os mísseis de ataque de precisão — como os ATACMS (Sistemas de Mísseis Táticos do Exército) e seus sucessores, os PrSM (Mísseis de Ataque de Precisão) — “praticamente acabaram”, com cerca de 80% consumidos.

“Esses mísseis seriam destinados a um confronto com a China. E agora os Estados Unidos estão sem dentes neste momento”, alertou. Lourival Sant’Anna trouxe à tona ainda a questão fiscal. No ano passado, os Estados Unidos gastaram mais com o serviço da dívida — em torno de um trilhão de dólares — do que com defesa, que somou US$ 958 bilhões.

Diante disso, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, teria solicitado um orçamento de defesa de um US$ 1,5 trilhão a partir do próximo ano fiscal, um aumento de 50% sem precedentes. “Para custear um orçamento desse, que dificilmente será aprovado no Senado, seria necessário aprofundar o problema fiscal da dívida”, observou o analista.

Reflexos globais: China, Japão e aliados europeus

Paulo Filho avaliou que a aversão ao risco demonstrada por Trump ao longo da campanha — preferindo o uso massivo de mísseis a enviar caças ao espaço aéreo iraniano — comprometeu a credibilidade da dissuasão americana.

“Os iranianos já perceberam essa aversão ao risco, e isso diminuiu a credibilidade de que os Estados Unidos empregariam suas capacidades militares de forma plena”, disse. Ele destacou que esse sinal é observado de perto pelos chineses, especialmente em relação a um eventual conflito envolvendo Taiwan ou o Mar do Sul da China.

O mestre em Ciências Militares mencionou ainda que o Japão divulgou sua nova política nacional de defesa, descrita como “muito mais assertiva”, com planos de ampliar suas capacidades militares — movimento que desagrada a China.

“Isso tudo que estamos assistindo no Oriente Médio, e que já começamos a assistir na guerra da Ucrânia, tem reflexos graves para todo o sistema internacional”, concluiu Paulo Filho.

Irã explora a fragilidade americana

Lourival Sant’Anna avaliou que, à medida que se aproximam as eleições de meio de mandato, Trump tem cada vez menos margem de decisão. “Os iranianos estão acompanhando isso com enorme interesse e vão buscar humilhá-lo com um acordo o mais penoso e maximalista possível no que diz respeito ao Estreito de Ormuz”, afirmou.

Para o analista, o Irã conseguiu atingir seu objetivo de cobrar um preço muito alto pela intervenção americana. “Os iranianos realmente conseguiram aquele objetivo, que era cobrar um preço muito alto por essa aventura que os Estados Unidos entraram arrastados por Israel”, concluiu.

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