Últimas

Medo e destruição marcam relatos de brasileiros na Ucrânia

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Medo e destruição marcam relatos de brasileiros na Ucrânia

Após mais de quatro anos de guerras, as Forças Armadas da Ucrânia viram a necessidade de recrutar exércitos internacionais. Entre eles, há soldados brasileiros que lutam no conflito armado voluntariamente.

Também de maneira espontânea, a psicóloga e pesquisadora do NEU (Núcleo de Estudos da Ucrânia), sediado na USP, Cláudia Serathiuk, realiza atendimento com 15 dos aproximadamente 2 mil soldados brasileiros que estão em meio aos conflitos na Ucrânia, além do acompanhamento com 10 famílias brasileiras que possuem algum tipo de vínculo com alguém que está sendo afetado pela guerra.

Participante da comunidade ucraniana de Curitiba, Cláudia foi solicitada pela comunidade ainda no início da Guerra, em 2022, para prestar atendimentos psicológicos para refugiados ucranianos no Brasil. Contudo, desde o ano passado, a demanda da comunidade por atendimento à soldados e famílias enlutadas cresceu e então ela e uma equipe de psicólogos voluntários realizam atendimento para esses outros dois grupos.

Em entrevista à CNN Brasil, a psicóloga contou quais são as principais dificuldades psicológicas que os brasileiros estão passando diante do cenário de guerra, pouco praticado pelo Brasil, tornando-se novidade para aqueles que vivenciam o conflito na Ucrânia.

Ela afirmou que os sentimentos mais recorrentes que os brasileiros atendidos relatam são o sofrimento e o medo. Os pacientes atendidos não entendem ucraniano, nunca vivenciaram tal ambiente e se veem diante de uma cultura muito diferente do Brasil.

“Isso causa muito sofrimento, saudades de casa, da comida, dos amigos, eles se sentem sozinhos se deparam com as situações de extrema violência da guerra e dos bombardeios, dos drones russos, de toda a violência que é a guerra. Não se espera isso. Você está lidando com a morte, com a mutilação, com a guerra em si”, relata a pesquisadora.

Além disso, os relatos destacam muito a destruição do país. Ela conta que vê relatos, fora de suas sessões, de soldados que se escondem em casas abandonadas por medo e veem drones entrando e explodindo o local e acabam por ficarem multilados.

LEIA TAMBÉM: Brasileiro recrutado pelo Exército russo está desaparecido

“Quem procura a gente são pessoas que querem sair de lá, numa situação de espera para poder vir embora. Então, enquanto isso, eles ficam muito paranóicos, ficam preocupados com o que pode acontecer com eles, porque as pessoas em volta estão falando numa língua que eles não sabem, eles não entendem. Eles têm medo de que algo aconteça”, explica Cláudia.

Ela conta também que o luto pelos parceiros é intenso, pois durante as ações, os soldados são divididos em duplas, independente da etnia, o que faz com que eles se apeguem ao colega. “Eles tentam retomar o corpo e às vezes não dá nem tempo de fazer uma intervenção e todo o esforço de guerra ele é voltado para proteger o território e proteger os civis, então esse lado ele acaba ficando realmente complicado.”

Ajuda pode salvar

Apesar de todo o sofrimento, a psicóloga conta que há uma melhora visível do estado emocional dos soldados após conversarem com um profissional, mesmo que a procurem de maneira muito pontual.

Ela relata ver uma melhora principalmente na condição das famílias que estão passando pelo luto: “A gente tem também esse trabalho muito específico com as famílias enlutadas. É um trabalho longo e é um trabalho que tem dado resultados. A gente tem conseguido tratar essas pessoas, fazer esse atendimento, dar esse apoio de forma que possam vivenciar seu luto também pela perda.”

Cláudia conta que a situação da Ucrânia é um choque também para ela, que está ouvindo os relatos de quem acompanha tudo de perto. “A guerra é triste, é devastadora, degrada a condição humana, a perda de dignidade mesmo, dos corpos, do respeito, porque a guerra traz essa destruição não só física e material, mas também moral, entendo ali. Acho que é a pior situação com a qual eu já trabalhei e olha que eu já trabalhei em muitos contextos, como em presídios, tendo muitos adultos que foram abusados sexualmente. Enfim, com situações limites do corpo humano também”. 

*Sob supervisão de Thiago Félix 

Guerra na Ucrânia: saiba por que ataque com drones tem sido mais comum

Medo e destruição marcam relatos de brasileiros na Ucrânia — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado