O Brasil precisará dividir com investidores internacionais o custo da expansão dos biocombustíveis, uma das principais apostas globais para a descarbonização. A avaliação é de especialistas que participaram das discussões da COP 30 e defendem que o país reúne condições para se tornar um dos maiores fornecedores de combustíveis sustentáveis do mundo. No entanto, atender à demanda prevista para as próximas décadas exigirá a entrada de capital estrangeiro para financiar novos projetos.
O desafio agora deixou de ser tecnológico. A prioridade passa a ser ampliar a produção em escala industrial, criar um ambiente regulatório estável e atrair investimentos capazes de transformar o potencial brasileiro em oferta suficiente para abastecer a crescente demanda mundial por combustíveis sustentáveis.
O consenso entre representantes da indústria, do governo e do mercado financeiro é que os biocombustíveis terão papel central na descarbonização do transporte global, especialmente em segmentos nos quais a eletrificação avança mais lentamente, como aviação, transporte marítimo e parte do transporte rodoviário pesado.
Depois de consolidar uma das matrizes energéticas mais renováveis do planeta e desenvolver tecnologias para diferentes rotas de combustíveis de baixo carbono, o Brasil entra em uma nova fase da transição energética. Entre os compromissos reforçados na Conferência do Clima, em Belém, está a meta de quadruplicar a produção de biocombustíveis até 2035, com base em projeções da IEA (Agência Internacional de Energia).
Durante um evento da Amcham, em São Paulo, o coordenador do Mapa do Caminho Internacional pelo fim de combustíveis fósseis da Presidência da COP 30, Pedro Brancante, diz que esse crescimento não depende necessariamente de novas políticas públicas, mas da execução dos compromissos já assumidos por diferentes governos.
Na avaliação do presidente da Honeywell Brasil, José Fernandes, existem soluções consolidadas para produzir combustíveis renováveis a partir de óleos vegetais, gorduras e resíduos animais, etanol, biometano e até biomassa florestal.
O executivo afirmou que o diferencial competitivo do Brasil está justamente na combinação entre disponibilidade de matéria-prima e escala de produção no campo, experiência industrial e adoção da matriz energética limpa.
Para transformar esse potencial em investimentos, porém, será necessário ampliar a segurança regulatória e oferecer previsibilidade de longo prazo para que grupos internacionais instalem novas plantas industriais no país, acrescenta.
Na mesma linha, Paula Kovarsky, sócia da Legend, avaliou que a expansão dos biocombustíveis representa uma oportunidade para o Brasil reduzir sua dependência da exportação de commodities agrícolas e agregar valor à produção nacional. Segundo ela, o mercado consumidor será majoritariamente internacional, o que abre espaço para que o país exporte não apenas matérias-primas, mas combustíveis sustentáveis e tecnologia associada à transição energética.
O CEO da Binatural, André Lavor, destacou que o setor já possui bases sólidas para crescer por meio de produtividade alta e interesse em destinar soja de exportação para processamento de biodiesel, exemplifica.
Ele ressalta que a expansão do biodiesel também fortalece a cadeia de alimentos, porque o processamento da oleaginosa para produção do biocombustível gera grande volume de farelo, principal insumo utilizado na alimentação animal.
Ampliar a produção significa aumentar simultaneamente a oferta de proteína vegetal e reduzir a dependência brasileira da importação de óleo diesel, que somou 17,3 bilhões de litros em 2025, destaca Lavor.
Do lado do governo, o secretário nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do MME (Ministério de Minas e Energia), Marlon Arraes, afirmou que um dos principais obstáculos para acelerar essa transformação é a falta de financiamento direcionado aos combustíveis sustentáveis. Segundo ele, embora os investimentos globais em energia limpa já ultrapassem US$ 2 trilhões ao ano, uma pequena parcela desses recursos chega aos biocombustíveis.
Para Arraes, existe uma lacuna de financiamento para as chamadas “moléculas limpas”, justamente em um momento em que a demanda mundial continuará exigindo combustíveis líquidos mesmo com o avanço da eletrificação. O representante do MME defendeu a criação de instrumentos financeiros capazes de compartilhar os custos da descarbonização entre diferentes setores da economia e tornar os projetos brasileiros mais competitivos internacionalmente.
Os resultados obtidos pelo Brasil na COP30 abriram espaço para ampliar a participação dos biocombustíveis nas negociações internacionais sobre clima.
Na avaliação dos participantes, o país reúne vantagens competitivas difíceis de serem replicadas por outros produtores: abundância de biomassa, tecnologia consolidada, experiência industrial e capacidade de ampliar a oferta. O desafio, agora, é transformar esse potencial em uma nova onda de investimentos capaz de posicionar o Brasil como fornecedor global de combustíveis renováveis, afirmaram.

