Uma viagem de primas pela Europa terminou com duas brasileiras voltando da praia apenas com a roupa do corpo. Anna Júlia Menezes Cezar, de 26 anos, e Ana Clara Cezar Bispo, de 21, encontraram o carro com os vidros quebrados após um mergulho em Punta Prosciutto, uma praia paradisíaca no sul da Itália, no domingo (2).
Ao todo, duas mochilas e três malas, uma de dez quilos e duas de 23, foram furtadas. Dentro tinham roupas, joias, cartões bancários, eletrônicos, fotos da viagem, vinhos, pertences passados de geração a geração, além de lembrancinhas compradas ao longo do roteiro.
Com o susto e a frustração, Anna Júlia ainda não teve coragem de calcular o prejuízo, mas estima uma perda de R$ 50 mil. “Eu não tenho coragem de fazer essa conta. Contando com roupas, acessórios, bolsas, brincos, GoPro, hospedagem que a gente perdeu, hospedagem que a gente pagou… toda a mudança, se for contar, eu acho que chega na casa dos 50”, revelou Anna Júlia à CNN Brasil.
Anna Júlia é natural de Salvador, capital da Bahia, é publicitária e tirou férias do trabalho para visitar a prima mais nova em Braga, no norte de Portugal. Apesar de também ser soteropolitana, Ana Clara se mudou para a Europa em 2023 para estudar inglês e fazer faculdade de Relações Internacionais. As duas não se viam há dois anos.
“Clara é minha prima mais nova, a gente foi criada como irmãs, a expectativa para essa viagem de nós duas era algo muito grande. A gente estava sendo cautelosa, mas tem coisa que a gente acha que não vai acontecer e acaba acontecendo”, afirmou a publicitária.
Durante a viagem, as brasileiras passaram por Lisboa, capital de Portugal, e Roma, capital da Itália. Decidiram então alugar um carro para conhecer a região de Puglia, o calcanhar da bota da Itália. Já estavam há uma semana viajando pelo litoral sul quando perderam tudo.
“Eu acabei trazendo várias opções de roupas porque a gente não tinha certeza do nosso roteiro, preferi ter opções e no final eu me arrependi. Ficou esse aprendizado de que menos é mais. Também fica o alerta para evitar viajar com pertences que têm apego emocional e passaram por outras pessoas da família”, relatou Anna Júlia.
Vidros quebrados
As brasileiras estavam indo de uma cidade a outra quando decidiram estacionar o carro na praia, por volta das 10h30. Na volta do banho de mar, às 16h30, Anna Júlia percebeu cacos de vidros no chão do motorista e decidiu entrar pelo banco do passageiro. Quando já tinha dado a partida, foi Clara quem percebeu o furto.
“Quando eu olhei, não tinha nada realmente atrás. Não cabia tudo no porta-malas, então a gente deixou uma mala no banco. Eu queria muito deletar essa cena da minha cabeça porque foi traumático, comecei a me tremer toda”, relatou Anna Júlia.
Clara então ligou para a polícia, as brasileiras falaram com um tradutor e foram encaminhadas para a delegacia, onde registraram boletim de ocorrência. Uma das malas tinha um rastreador que mostrou a última localização às 12h55, a 20 minutos do local onde o carro estava estacionado. A polícia foi atrás, mas não encontrou nenhum objeto.

O policial ainda informou para as brasileiras que outros crimes semelhantes aconteceram na região recentemente e disse que seria difícil recuperar os pertences porque se tratava de criminosos profissionais.
Segundo a publicitária, a rua onde o carro estava estacionado era “tranquila”, com casas de famílias e crianças andando de bicicleta. O carro era alugado e tinha seguro.
“É uma frustração enorme não só pelo financeiro, mas como também pela expectativa. É a primeira vez que faço uma viagem para Europa e ainda por cima estou com a minha prima mais nova, então me sinto na responsabilidade também”, afirmou a jovem.
Reconstrução
O episódio de perda relembrou outra tragédia na família: a enchente de 2021 que destruiu Jiquiriçá, município que fica a 250 quilômetros de Salvador.

A inundação derrubou parte da casa dos avós de Anna Júlia, que tiveram que se mudar em meio a tragédia. Na época, a família também perdeu objetos de valores financeiros e emocionais, como roupas, móveis e fotos.
“São histórias que me ajudaram a ter um pouco mais de resistência, de entender que são coisas materiais e que o importante é que estamos com vida. É triste pelos objetos com valor emocional, como fotos, que não vamos conseguir recuperar”, disse a soteropolitana.
Agora, o foco é reconstruir o que foi perdido. As jovens compraram roupas íntimas e itens de higiene para conseguir finalizar a viagem.
“Estou tentando olhar pra frente e não sofrer tanto pelas coisas que perdemos. Eu vi minha família vivendo uma enchente, vi minha avó e meus tios perderem tudo e se refazerem. Não é o fim do mundo, mas é muito frustrante. Eu não quero alimentar medo em mim, eu estava na expectativa dessa viagem abrir várias portas internas e acabou acontecendo esse episódio que estimula a insegurança”, relatou a publicitária.
Alerta nas redes sociais
Anna Júlia decidiu compartilhar o momento com os seguidores nas redes sociais. Segundo a publicitária, a ideia não é ser alarmista, mas mostrar que esse tipo de violência também acontece fora do Brasil.
“Muitas vezes a gente posta pedaços incríveis da nossa viagem e as pessoas podem achar que é só isso. Mas não terminou da forma que a gente gostaria, a gente terminou literalmente com a roupa do corpo e a bolsa de praia”, disse nas redes sociais.
Já Clara lembra a vivência em Salvador: “A gente fala que isso não vai acontecer com a gente porque somos do Brasil e estamos acostumados com mão armada, sabemos das manhas. Por mais que você saiba que tem risco, você relaxa porque vem do Brasil e acha que está preparada para aquilo. E é nesse abaixar a guarda que esses caras atuam”.
Anna Júlia reconhece que subestimou a insegurança da Itália: “existem cuidados que poderíamos ter tomado”.

