A inteligência artificial (IA) emergiu como um novo fator de preocupação para os bancos centrais ao redor do mundo. Em meio a uma temporada de decisões sobre taxas de juros, as autoridades monetárias passaram a analisar em que medida os bilhões de dólares destinados ao desenvolvimento de softwares, tecnologias e infraestrutura ligados à IA podem pressionar a inflação global.
A analista e editora de Economia da CNN, Lucinda Pinto, avaliou o fenômeno e destacou que, embora a inteligência artificial seja amplamente associada ao aumento de produtividade, sua expansão tem um custo imediato que ainda precisa ser compreendido.
“A gente pensa nessa tecnologia toda como algo que vai contribuir para melhorar a atividade, para diminuir alguns custos ao longo do tempo. Só que, até que isso se consolide de forma global, de forma mais macro, tem um preço que a gente vai pagar”, afirmou Lucinda durante o CNN 360º desta segunda-feira (3).
Para construir ferramentas e agentes de inteligência artificial, há uma demanda crescente e intensa por insumos específicos. Segundo Lucinda, os principais itens sob pressão são chips, cobre, eletricidade, capacidade de construção de data centers e mão de obra especializada.
“Já estamos sentindo, isso já está sendo percebido pelos economistas, inclusive pelos bancos centrais, uma demanda grande por tudo isso”, destacou a analista.
As grandes empresas de tecnologia, segundo ela, estão gastando centenas de bilhões de dólares para viabilizar essas novas tecnologias.
No caso do Brasil, Lucinda apontou um cenário de duplo efeito. Por um lado, o país poderia se beneficiar da situação, uma vez que é fornecedor de minerais, commodities, eletricidade e energia limpa, insumos diretamente demandados pelo setor de IA.
Por outro lado, há custos associados à importação de tecnologia e à necessidade de desenvolver mão de obra qualificada. “Acho que esse é um ponto de gargalo importante no mundo todo e no Brasil também, pensando na forma também como a gente vai conseguir desenvolver a nossa digitalização”, avaliou a analista.
Novas variáveis
Lucinda destacou que o FED (Federal Reserve, o banco central dos EUA) manteve sua taxa de juros, mas que o mercado já se preparava para uma provável elevação em setembro. “Uma das razões, não a única, que pesam nessa expectativa tem a ver com a inflação gerada pela IA.”
Segundo a analista, juros mais altos nos Estados Unidos representariam, por sua vez, mais um impacto para o Brasil, ao intensificar a concorrência pelo fluxo global de investimentos.
A analista ressaltou ainda que o BIS (Banco de Compensações Internacionais), conhecido como o “banco central dos bancos centrais”, tem trazido intensamente esse debate, diante da dificuldade de distinguir se essa inflação é passageira, fruto de uma transição tecnológica, ou se representa um custo estrutural que não será compensado pelo aumento de produtividade.
“Antes, a gente olhava para a política monetária pensando muito em mercado de trabalho, capacidade de consumo, petróleo, eventualmente, mas agora a gente está vendo uma série de variáveis novas e a gente não sabe direito como é que elas impactarão de forma mais definitiva a economia“, concluiu Lucinda.

