A proximidade de um novo ciclo do El Niño e o aumento da frequência de eventos climáticos extremos colocaram a gestão de riscos no centro da agenda do agronegócio brasileiro. O tema, que há poucos anos aparecia como uma preocupação de longo prazo, foi tratado nesta quinta-feira (30) como uma prioridade imediata por representantes do governo e do setor produtivo durante o Outlook Agro Brasil.
O consenso é que manter o ritmo de crescimento da produção e das exportações dependerá cada vez mais de políticas de adaptação ao clima, com destaque para o seguro rural, prevenção a incêndios e planejamento da próxima safra.
O ministro do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Marcio Elias Rosa, afirmou que o Brasil já se prepara para enfrentar os efeitos do fenômeno climático, que, segundo ele, deve voltar nos próximos meses.
“Infelizmente estamos às vésperas do El Niño. Os efeitos vão acontecer, e isso é fruto das mudanças climáticas. O Brasil não fica indiferente a esse fenômeno mundial”, disse.
Como resposta, destacou a criação do Plano Nacional de Manejo do Fogo, desenvolvido em conjunto entre União e estados, e reforçou que a estratégia do governo é preservar a capacidade produtiva do campo diante de um cenário climático mais adverso.
A avaliação é compartilhada pelo cooperativismo. Para a presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Tânia Zanella, o aumento da exposição dos produtores aos riscos climáticos exige que a política agrícola avance na mesma velocidade da expansão do setor.
Ela defendeu o fortalecimento do seguro rural e questionou quais instrumentos estarão disponíveis para proteger os produtores caso as previsões para o próximo ciclo climático se confirmem.
“O agro que queremos é o que se mantém de pé em safras boas e difíceis. Um setor desse tamanho precisa de políticas públicas à altura”, afirmou.
Segundo Tânia, o agronegócio já responde por cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB), o que torna indispensável uma atuação coordenada entre governo e iniciativa privada para reduzir vulnerabilidades e garantir previsibilidade aos investimentos.
Embora o foco tenha sido o clima, tanto governo quanto setor privado defenderam que a agenda de gestão de riscos deve caminhar ao lado da expansão comercial.
Elias Rosa afirmou que o Brasil continuará apostando na negociação para ampliar mercados, mesmo diante das tensões geopolíticas e do avanço de medidas protecionistas. “Enquanto os nossos produtos não puderem entrar em certos mercados, não sairemos da mesa de negociação”, disse.
A mensagem que predominou no evento foi a de que a competitividade do agronegócio brasileiro dependerá, cada vez mais, da capacidade de combinar ganhos de produtividade com instrumentos de proteção contra os efeitos das mudanças climáticas.
Para ambos, ampliar mercados continuará fundamental, mas preservar a produção diante de secas, incêndios e eventos extremos será condição para sustentar esse crescimento nos próximos anos.

