O governo Trump anunciou na terça-feira (28) proibições que visam a importação de novos robôs e inversores de energia chineses. O objetivo é proteger o desenvolvimento da inteligência artificial nos Estados Unidos de ameaças à segurança nacional e trazer de volta para o país setores-chave com previsão de crescimento.
Na tarde de terça-feira, a FCC (Comissão Federal de Comunicações) divulgou as medidas, que proíbem a importação chinesa de novos robôs humanoides e quadrúpedes, além de inversores de energia conectados, que permitem que fontes de energia renováveis e baterias se conectem às redes elétricas e aos equipamentos de data centers.
As restrições, conforme noticiado inicialmente pela Reuters, demonstram que o governo Trump visa proteger a cadeia de suprimentos de inteligência artificial contra ameaças chinesas de interrupção, roubo de dados e ataques cibernéticos, além de incentivar as empresas a transferirem a produção para os EUA.
“Esses dispositivos podem criar vulnerabilidades na cadeia de suprimentos que podem prejudicar a segurança econômica e nacional dos EUA e representar um risco de segurança cibernética que ameaça a infraestrutura crítica americana”, disse a FCC em um comunicado. “A FCC continuará fazendo sua parte para proteger as cadeias de suprimentos críticas dos Estados Unidos”, acrescentou o presidente da FCC, Brendan Carr, no comunicado à imprensa.
A embaixada chinesa em Washington afirmou que Pequim “exorta os Estados Unidos a darem ouvidos às vozes objetivas e racionais das comunidades empresariais de ambos os países” e a “pararem de difamar as empresas chinesas e de ameaçá-las com sanções”.
O governo da China “tomará todas as medidas necessárias em resposta a qualquer ação que cause danos materiais aos seus interesses”, afirmou a embaixada.
Alguns analistas preveem uma ampla adoção de robôs humanoides, equipados com “cérebros” com inteligência artificial, nos setores de consumo e industrial, enquanto a construção explosiva de centros de dados nos EUA dependerá de fontes confiáveis de inversores.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, alertou que empresas chinesas de inteligência artificial podem enfrentar sanções dos EUA por roubo de propriedade intelectual americana.
As autoridades americanas também estão empenhadas em evitar outro cenário como o que aconteceu com os minerais de terras raras — insumos essenciais para a fabricação de tecnologia, um setor tão dominado pela China que Pequim conseguiu usar o acesso a eles para garantir grandes vitórias no cenário internacional.
É provável que a FCC isente fornecedores não chineses.
Após as medidas de terça-feira, espera-se que a FCC isente muitos fornecedores não chineses das restrições, como já fez com as recentes proibições de drones e roteadores estrangeiros, disseram quatro fontes adicionais.
As medidas, que entraram em vigor após a publicação, aplicam-se apenas a modelos de robôs e inversores que ainda não foram lançados. No entanto, a FCC tem autoridade para revogar as autorizações de venda de modelos que já foram autorizados para compra nos Estados Unidos.
O presidente Donald Trump é reconhecido por ter chamado a atenção internacional para a ameaça tecnológica representada pela China durante seu primeiro mandato, dando voz às preocupações sobre o roubo de propriedade intelectual por empresas chinesas e à ameaça de espionagem patrocinada pelo Estado por gigantes chineses de telecomunicações como a Huawei.
Mas, até agora, ele adotou uma abordagem muito mais conciliadora durante seu segundo mandato, diante do uso agressivo de controles de exportação de minerais de terras raras por Pequim no ano passado.
Fabricante de robôs na mira
A proibição de robôs deverá afetar a Unitree, líder mundial em robôs humanoides com pouco menos de um quinto da participação no mercado global, de acordo com a Counterpoint Research.
A empresa, uma das três chinesas que dominam o setor emergente, mas promissor, foi recentemente adicionada à lista do Pentágono de empresas supostamente apoiadas pelos militares chineses, o que pode ser um prenúncio de ações mais duras por parte dos EUA.
A Unitree firmou recentemente uma parceria com a Nvidia para usar o chip Blackwell, de última geração da empresa de inteligência artificial, para alimentar o cérebro de um robô da Unitree. A Nvidia afirmou que os dados dos robôs permanecerão nos EUA e que os maiores clientes da Unitree são instituições acadêmicas e de pesquisa americanas.
Os críticos da China temem que os robôs possam espionar setores-chave da indústria americana, extraindo dados e enviando-os para Pequim ou interrompendo funções críticas.
Os robôs “coletam dados que podem ser usados por agentes mal-intencionados para vigiar americanos, aprimorar as capacidades de serviços de inteligência estrangeiros ou para controlar remotamente os robôs”, disse a FCC na terça-feira.
O deputado americano John Moolenaar, republicano de Michigan que preside o Comitê Seleto da Câmara sobre a China e propôs legislação visando robôs chineses para análises de segurança nacional e possíveis proibições, disse que a medida da FCC “protege nosso país e fortalece a indústria robótica da nossa nação”.
A China é a maior fabricante mundial de inversores, liderada pela Sungrow Power Supply (300274.SZ) e pela Huawei, que já sofreu fortes sanções dos EUA. Pequim vem expandindo sua participação no mercado ocidental de inversores, reduzindo os preços.
A Reuters havia relatado anteriormente que a FCC estava trabalhando em uma proibição de inversores chineses, motivada por ações recentes da Europa e preocupações com interrupções e instalação de malware.
As autoridades querem evitar outra campanha de hackers ligada ao governo chinês, como a chamada Volt Typhoon , revelada em 2023. Ao assumir o controle de roteadores privados, os atacantes buscavam ocultar ataques subsequentes à infraestrutura crítica americana.
O Departamento de Defesa dos EUA já está proibido de adquirir células, módulos ou inversores fotovoltaicos solares fabricados por uma entidade estrangeira considerada preocupante, o que incluiria empresas chinesas.
A Unitree, a Sungrow e a Huawei não responderam de imediato aos pedidos de comentários.

