No primeiro semestre deste ano ocorreram mais de 2.500 tiroteios nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Recife, Belém e Salvador. Entre os registros, ações policiais foram apontadas como responsáveis por 39% das ocorrências.
Os dados são do relatório semestral do Instituto Fogo Cruzado, lançado nesta quarta-feira (29). O levantamento mostra que houve recorde de participação policial nos tiroteios. Ainda assim, os documentos indicam um avanço das ações dos grupos armados nos estados mapeados.
Para a pesquisa foram levantadas informações entre janeiro e junho de 2026. Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebeu e disponibilizou informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina.
Segundo o relatório, cerca de 2.511 tiroteios foram registrados, resultando em 2.403 pessoas baleadas, das quais 1.628 morreram e 775 ficaram feridas. As ações policiais foram responsáveis por 584 mortes e 317 feridos em seus 989 tiroteios. Já em 2025, nos primeiro semestre, em 33% dos tiroteios houve participação policial. Apesar da queda nos tiroteios entre os períodos, o relatório mostra que a participação policial nos conflitos cresceu.
“Há três décadas o Estado repete a mesma fórmula, um modelo de segurança pública incapaz de desarticular os grupos armados e que não garante segurança à população, nem mesmo diante do aumento da participação policial nos conflitos. Não é razoável esperar resultados distintos insistindo em uma estratégia cuja ineficácia já é conhecida. Ao contrário, essa lógica alimenta o alto número de tiroteios, expõe moradores ao fogo cruzado, compromete o funcionamento de escolas e unidades de saúde e não contém o avanço dos grupos armados”, disse Terine Husek Coelho, Gerente de Pesquisa do Instituto Fogo Cruzado.
Enquanto as ações policiais são apresentadas como solução para a violência armada, o número de baleados em disputas entre grupos armados, como as facções e as milícias, cresceu 12% durante o semestre, indo de 181 vítimas em 2025, para 203 em 2026.
O mesmo ocorreu com as vítimas de roubos e tentativas de roubo. Ao menos 260 pessoas foram baleadas em crimes do tipo durante o primeiro semestre de 2026, 9% a mais que o acumulado em 2025 no período, quando foram 239 atingidos.
Rio de Janeiro bate recorde de baleados em disputas entre grupos armados
Ao menos 976 tiroteios foram mapeados na região metropolitana do Rio de Janeiro. O número segue em tendência de queda, mas as ações e operações policiais já correspondem a quase metade dos registros do primeiro semestre. As forças policiais participaram de 47% dos casos mapeados no Grande Rio, o maior patamar para o período desde 2017.
Nas disputas entre grupos armados, o cenário não foi tão diferente. O número de vítimas nessas circunstâncias chegou ao maior índice já mapeado na série histórica, com 144 baleados.
Ações policiais na grande Recife chegam ao seu pior índice
Com 645 tiroteios mapeados, houve queda na violência armada na região metropolitana do Recife, sendo o menor índice desde 2019. Apesar da redução, o primeiro semestre de 2026 já acumula o maior número de tiroteios em ações e operações policiais de toda a série histórica, com 60 registros, ou 9% do total mapeado.
O número de assaltos que terminam com baleados está cada vez mais frequente. Esse agravamento da violência armada em crimes contra o patrimônio fica evidenciado no número de vítimas registradas ao longo dos primeiro semestre, quando 53 pessoas foram atingidas, sendo recorde se comparado ao primeiro semestre dos quatro anos anteriores.
Ações policiais chegam ao pior patamar em Salvador
Nos últimos anos, Salvador e a região metropolitana têm acompanhado uma tendência de queda no número de tiroteios ocorridos nos primeiros semestres, chegando em 2026 ao seu menor índice com 656 registros. Apesar da redução observada, a participação policial nos tiroteios chega ao seu pior patamar este ano, com 56% dos registros.
O número de baleados nas ações policiais também acompanha esse aumento, dos 637 atingidos por disparos de arma de fogo no período, 53% deles em contexto de ações policiais, se refletindo também na quantidade de agentes de segurança baleados em serviço. Dos 34 agentes atingidos, 24 estavam em serviço, representando 71% dos atingidos.
Número de pessoas baleadas dentro de casa crescem em Belém
Durante o primeiro semestre de 2026, 234 tiroteios foram mapeados na região metropolitana de Belém, uma queda de 20% em comparação com os primeiros seis meses de 2025, com 293 casos mapeados.
A violência na região segue sendo profundamente marcada por ações e operações policiais. Durante o primeiro semestre de 2026, houve a participação dos agentes em 45% dos registros.
O ambiente doméstico também foi afetado e o número de vítimas atingiu o maior patamar da série histórica, com 59 pessoas baleadas em residências, número 90% maior que o registrado no primeiro semestre de 2025, quando 31 pessoas foram baleadas dentro do ambiente doméstico.
*Sob supervisão de AR.

