Os enormes incêndios que devastam o sudoeste da França queimaram com tamanha intensidade que geraram uma poderosa tempestade criada pelo próprio fogo.
Esse fenômeno raro é observado, às vezes, nos megaincêndios que assolam os Estados Unidos e o Canadá, mas eram inéditos na França, até agora, e é apenas um sinal de que a Europa está entrando em uma nova era de incêndios, dizem especialistas.
A Europa sempre teve incêndios florestais, mas eles estão se tornando cada vez mais extremos à medida que a crise climática se intensifica.
Bombeiros na França e na Espanha estão atualmente tentando controlar incêndios mais ferozes e mais erráticos do que qualquer coisa que já enfrentaram antes.
Isso ocorre após a temporada de incêndios recorde da Europa no ano passado, com especialistas afirmando que o continente está se juntando a uma longa lista de regiões, da Sibéria à Amazônia, que agora suportam temporadas de incêndios extremos consecutivas.
“Entramos em uma era de incêndios que não podem ser extintos”, disse Víctor Resco de Dios, professor de engenharia florestal e mudanças globais na Universidade de Lleida, na Espanha. “São incêndios que queimam com a intensidade de várias bombas atômicas.”
Os incêndios florestais na França já consumiram mais de 116.000 hectares, tornando-os os maiores já registrados no país, e ainda restam meses da temporada de incêndios.
“A situação que enfrentamos hoje é a mais difícil que já registramos, a mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial”, disse o presidente francês Emmanuel Macron na segunda-feira (27), durante uma visita a Bordeaux. Ele classificou os incêndios como “totalmente sem precedentes”.
Um dos exemplos mais viscerais disso foi o surgimento de nuvens de fogo, ou “pirocumulonimbus”, que se formaram durante o fim de semana na região de Gironde, perto de Bordeaux, de acordo com as autoridades de combate a incêndios.
As nuvens de fogo surgem quando incêndios florestais particularmente intensos geram uma coluna de calor extremo, que sobe rapidamente para o ar mais frio das camadas superiores e se condensa em imponentes nuvens de tempestade.
Essas nuvens podem criar seus próprios ventos, chuvas e raios, e transformar os incêndios em tempestades de fogo erráticas, imprevisíveis e autossustentáveis.

O fenômeno é bem documentado na Austrália, no Canadá e nos EUA; os incêndios de Los Angeles em 2025 produziram um tornado de fogo raro, mas eles não são nada comuns na Europa.
O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo afirmou que ainda não é possível afirmar se este foi o primeiro “pirocumulonimbus” da França.
“No entanto, se confirmado, seu desenvolvimento destacaria a intensidade excepcional do incêndio atual e as condições atmosféricas extraordinárias em que ele ocorre”, disse Francesca Di Giuseppe, coordenadora de previsão de incêndios do ECMWF.
A dimensão dos incêndios também é notável, afirmaram especialistas. Eles devastaram enormes extensões de terra na França e na Espanha, países que solicitaram assistência da UE.
“Uma crise simultânea de incêndios florestais multinacional é rara na Europa”, disse Stefan Doerr, diretor do Centro de Pesquisa sobre Incêndios Florestais da Universidade de Swansea, no País de Gales.
Os incêndios estão se alastrando próximos a grandes cidades, incluindo um que avançou pela província montanhosa de Ávila, a oeste da capital espanhola Madri, e que agora é o maior já registrado no país, segundo as autoridades.
“O que é incomum é o número atual de incêndios florestais destrutivos, que se alastram rapidamente, sobrecarregam as equipes de combate e forçam a retirada de pessoas”, disse Guillermo Rein, professor de ciência do fogo no Imperial College London.
Mais de 300.000 pessoas foram retiradas nos dois países até o momento.
A extinção completa de incêndios dessa magnitude é quase impossível até que o combustível se esgote ou chuvas persistentes cheguem, independentemente de quantos recursos de combate a incêndios sejam mobilizados, dizem especialistas.
“Na Austrália, em partes dos EUA e do Canadá, há uma expectativa e aceitação geral de incêndios florestais fora de controle”, disse Doerr, da Universidade de Swansea.
“Na Europa, ainda existe a noção amplamente difundida de que tais incêndios podem ser totalmente prevenidos”, completou ele.
Por que esses incêndios são tão graves?
Cada incêndio florestal é complexo e único e é afetado por muitos fatores, incluindo gestão do território, terreno e recursos de combate a incêndios. Mas o clima extremo, agravado pelas mudanças climáticas, tem sido um fator determinante nos incêndios da Europa, dizem os cientistas.
O aquecimento global está provocando oscilações mais intensas entre extremos de umidade e seca. É um “efeito chicote”, afirmou Matthew Jones, pesquisador independente da Escola de Ciências Ambientais da Universidade de East Anglia, na Inglaterra.
O inverno passado foi excepcionalmente chuvoso na França e na Espanha, impulsionando um crescimento acelerado da vegetação. Em seguida, o tempo virou. Desde maio, a Europa Ocidental tem sido sacudida por uma sucessão de ondas de calor brutais, que ressecaram a paisagem.

Esse calor proporcionou “o estalo do chicote” no efeito chicote, transformando essa vegetação densa em combustível altamente inflamável”, disse Jones.
Enquanto França e Espanha se preparam para sua quarta onda de calor do verão, há temores de que ela possa agravar uma situação já perigosa.
Impactos a longo prazo
Extinguir completamente os incêndios atuais pode levar meses, segundo as autoridades, mas seus impactos persistirão muito além disso.
Os céus perigosos e repletos de fumaça que eles produzem são prejudiciais à saúde. Estima-se que a poluição causada por incêndios florestais provoque mais de 100 mil mortes globalmente a cada ano.
Há também os danos às economias. Esses incêndios estão se alastrando perto de grandes cidades europeias, afetando importantes destinos turísticos, regiões produtoras de vinho e centros estratégicos de defesa.

Mais do que isso, eles podem mudar a relação das pessoas com a terra em que vivem, agora que se veem sob a ameaça constante de incêndios incontroláveis.
Para o futuro, os cientistas dizem que devemos esperar que os incêndios, na Europa e em outros lugares, se tornem mais frequentes e mais extremos enquanto os seres humanos continuarem queimando combustíveis fósseis e elevando as temperaturas.
“É difícil prever até onde as coisas podem chegar”, disse Resco de Dios, professor de engenharia florestal e mudanças globais na Universidade de Lleida, na Espanha.
“Em breve não conseguiremos mais descartar cenários como os vistos na Califórnia ou na Austrália, com incêndios ou complexos de incêndios atingindo centenas de milhares de hectares ou até um milhão de hectares”, completou ele.
Incêndios na França geram “nuvens de fogo” que alteram o clima

