A sul-coreana POSCO International negocia a compra de aproximadamente 30% da produção de terras raras do projeto Caldeira, desenvolvido pela australiana Meteoric Resources em Minas Gerais, por um período de até sete anos.
As empresas assinaram um memorando de parceria estratégica que estabelece as bases para um futuro contrato de fornecimento de longo prazo. O documento também prevê que a POSCO poderá investir diretamente na Meteoric e apoiar a mineradora na busca por financiamento junto a bancos e agências de crédito da Coreia do Sul. As informações foram divulgadas pela Meteoric em comunicado ao mercado nesta quarta-feira (29).
O acordo ainda não é vinculante. Isso significa que os volumes, preços, condições de financiamento e demais obrigações dependerão de novas negociações, análises técnicas, diligências, aprovações internas e da assinatura de contratos definitivos.
Apesar disso, a Meteoric afirma que o memorando representa um estágio avançado das conversas comerciais e cria um caminho para a conclusão de um acordo vinculante.
A proposta prevê que a POSCO receba cerca de 30% do material de terras raras produzido em Caldeira por até sete anos. O comunicado não informa o volume anual que seria comprado nem o valor financeiro da operação.
As companhias afirmam apenas que pretendem negociar quantidades consideradas comercialmente relevantes, condicionadas à disponibilidade da produção e ao desenvolvimento do projeto.
Piso de preços
Um dos pontos em discussão é a criação de um mecanismo de preços que dê maior previsibilidade ao projeto.
O modelo poderá incluir um piso de preços, que garantiria uma remuneração mínima à Meteoric mesmo em períodos de queda das cotações internacionais, e um mecanismo de compartilhamento dos ganhos caso os preços das terras raras subam.
Esse tipo de proteção é considerado importante para projetos de terras raras fora da China, uma vez que a volatilidade das cotações e a influência chinesa sobre o mercado dificultam a obtenção de financiamento para novas operações.
O memorando, no entanto, não fixa o valor desse eventual piso nem garante que o mecanismo será incluído no contrato final.
Financiamento coreano
A POSCO também poderá realizar um investimento acionário na Meteoric, tornando-se sócia da companhia australiana. Qualquer participação dependerá de uma negociação comercial separada e da realização de diligência sobre a empresa e o projeto.
Além do possível aporte direto, a companhia sul-coreana se comprometeu a empregar esforços para ajudar a Meteoric a acessar instituições financeiras da Coreia do Sul.
Entre as instituições citadas estão o Export-Import Bank of Korea, conhecido como KEXIM, e a Korea Trade Insurance Corporation, a K-SURE.
O KEXIM atua no financiamento de projetos estratégicos e de operações ligadas ao comércio exterior sul-coreano. Já a K-SURE oferece seguros e garantias capazes de reduzir os riscos assumidos por bancos e investidores.
Material brasileiro
Caldeira é um projeto de terras raras em argilas de adsorção iônica localizado em Minas Gerais. Esse tipo de depósito é considerado estratégico por permitir, em determinadas condições, a recuperação dos elementos por processos menos complexos do que aqueles utilizados em depósitos de rocha dura.
A Meteoric pretende produzir em Caldeira um carbonato misto de terras raras.
Esse produto já passa por etapas químicas de concentração, mas ainda reúne diferentes elementos de terras raras. Para serem utilizados pela indústria, esses elementos precisam posteriormente ser separados e transformados em produtos como óxidos individuais, metais, ligas ou ímãs permanentes.
Segundo a Meteoric, testes metalúrgicos indicaram que o carbonato misto de Caldeira apresenta baixo nível de impurezas e poderá ser processado pela POSCO sem uma etapa adicional de purificação antes de entrar no circuito industrial da companhia.
Isso não significa que o produto brasileiro estará pronto para ser utilizado diretamente na fabricação de motores ou ímãs. A conclusão dos testes indica que o material seria compatível com as etapas posteriores de separação e processamento previstas pela empresa sul-coreana, reduzindo a necessidade de tratamentos intermediários.
Cadeia da mina ao ímã
A POSCO está montando uma cadeia integrada de terras raras, que pretende abranger desde o acesso à matéria-prima mineral até a produção de ímãs permanentes.
Esses ímãs são utilizados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs, centros de dados, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.
A companhia sul-coreana mantém uma joint venture com a americana ReElement Technologies para a construção de um complexo integrado de terras raras e ímãs permanentes.
De acordo com o comunicado da Meteoric, a unidade terá capacidade para produzir aproximadamente 6 mil toneladas anuais de óxidos separados de terras raras.
A parceria com a Meteoric permitiria que parte do material produzido em Minas Gerais fosse incorporada à cadeia industrial estruturada pela POSCO.
As empresas afirmam que o objetivo é criar uma rota segura de fornecimento de terras raras entre Brasil e Coreia do Sul, em linha com as estratégias dos dois governos para reduzir a dependência de cadeias concentradas.
Tecnologia no Brasil
O memorando também prevê cooperação para o intercâmbio e o desenvolvimento de tecnologias relacionadas às etapas posteriores da cadeia de terras raras no Brasil.
POSCO e Meteoric afirmam que poderão compartilhar conhecimento industrial e melhores práticas para apoiar o desenvolvimento de uma cadeia brasileira de maior valor agregado.
O documento, porém, não estabelece um compromisso específico para a construção de uma unidade de separação, refino ou fabricação de ímãs no Brasil.
Também não define quanto do material de Caldeira seria processado em território nacional antes de ser enviado para a cadeia da POSCO.
A inclusão desse ponto no acordo sinaliza interesse em discutir atividades industriais no país, mas qualquer investimento em processamento dependerá de novas negociações.
Cronograma de Caldeira
A Meteoric trabalha para concluir ainda em 2026 o estudo de viabilidade definitivo de Caldeira, documento que deverá detalhar a engenharia, os custos de construção, a capacidade produtiva e a viabilidade econômica do empreendimento.
A conclusão dessa etapa deverá sustentar uma possível decisão final de investimento em 2027.
Somente depois dessa decisão a companhia poderá avançar para a construção e, posteriormente, para a produção comercial.

