A permanência da polarização política no Brasil não pode ser explicada apenas pelo ambiente de insatisfação da sociedade com a política. Para o cientista político e professor do IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa), Rafael Cortez, é preciso compreender quais interesses políticos, econômicos e sociais são representados pelas forças que hoje disputam espaço no país.
Em participação no WW Especial, da CNN Brasil, Cortez afirmou que há explicações de natureza sociológica para a continuidade desse cenário. Segundo ele, o sentimento de insatisfação com a política não é exclusivo da atual polarização entre lulismo e bolsonarismo. Ele lembrou que esse fenômeno também estava presente durante a disputa entre PT e PSDB.
“A despeito desse mal-estar, a gente assistia também, por outro caminho, a um certo mal-estar quando a polarização era, por exemplo, PT e PSDB. Ali tinha um pouco mais o contorno do tipo: ‘é tudo igual, não adianta nada votar'”, disse.
Para Cortez, esse descontentamento tende a persistir diante das transformações da sociedade e das dificuldades de organização dos partidos políticos.
“Partido político, forças políticas na nossa era, em que a classe já não é mais um ator para sustentar e os partidos específicos brasileiros têm pouca organicidade, tornam pouco provável que a gente chegue a um mundo em que a sociedade brasileira esteja satisfeita com as forças políticas”, explicou.
Apesar desse cenário, o professor avalia que a polarização não representa apenas um ambiente de conflito, mas também interesses concretos em disputa.
“O que me parece mais intrigante é entender o que essas forças representam. A despeito desse mal-estar, elas representam forças políticas, interesses econômicos e sociais, representam algum tipo de projeto político. Tem alguma coisa por trás, não é simplesmente um grande caos”, comentou.
Na avaliação de Cortez, a disputa entre lulismo e bolsonarismo deve ser compreendida dentro de um processo político iniciado com a Constituição de 1988.
“O que é desafiador para a gente entender é olhar essa polarização entre lulismo e bolsonarismo à luz de um ciclo político um pouco mais longo. A Constituição de 1988 coloca um novo pacto político para a sociedade brasileira, e a elite política vai brigar para ver quem é que vai organizar o pacto que estava definido na Constituição”, destacou.
O cientista político argumentou que, ao longo desse período, o Brasil consolidou importantes avanços institucionais, apesar das crises enfrentadas.
“A gente combateu o problema da hiperinflação, fez a transição de governos de esquerda e de direita se alternando no poder sem maiores desafios, passou por dois processos de impeachment sem nenhuma interrupção institucional, nenhum revés institucional, e acabou de passar por uma nova tentativa de algum mal-estar, para usar um eufemismo, com o processo eleitoral [referindo-se aos atos golpistas de janeiro de 2023], e ficamos mais ou menos no lugar”, concluiu.
WW Especial
Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.
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*Publicado por Jorge Fernando Rodrigues

