Nas últimas semanas, o governo americano de Trump avaliou a possibilidade de romper laços com a agência da ONU para refugiados, o que motivou uma campanha de diplomatas e autoridades da organização para persuadir os Estados Unidos a manterem o apoio, segundo autoridades informadas no assunto.
Oito fontes, incluindo diplomatas, representantes de organizações de ajuda humanitária e uma fonte do Congresso, disseram à Reuters que Washington, historicamente o maior doador do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), tem considerado desvincular-se da agência.
Segundo as informações, uma decisão era esperada para a semana passada, mas nenhum anúncio foi feito, sugerindo que o esforço de pressão política pode ter ajudado a adiar ou evitar tal medida.
A Reuters concedeu anonimato às fontes para que pudessem falar sobre as relações da ONU com os EUA.
As deliberações dos EUA sobre deixar o ACNUR — criado após a Segunda Guerra Mundial para ajudar refugiados que fugiam de guerras, perseguições e violência — surgem na sequência de uma divergência sobre a nomeação da vice-alto-comissária Tressa Rae Finerty, disseram cinco das fontes.
Elas relataram que a agência informou seus apoiadores de que poderia ser incluída em uma lista negra dos EUA, o que encerraria o financiamento, e que Washington também poderia retirar-se de seu Comitê Executivo.
Segundo autoridades da área humanitária, qualquer interrupção no financiamento dos EUA enfraqueceria seriamente a agência em um momento de níveis quase recordes de deslocamento populacional em todo o mundo, em meio a conflitos prolongados como os da Ucrânia e do Sudão.
“O ACNUR alertou as pessoas para que ligassem para amigos no governo”, disse à Reuters uma fonte de uma organização envolvida nas negociações. “Eles estão, pelo menos, pensando nisso”, completou a fonte.
Outro diplomata afirmou que autoridades do ACNUR pediram aos apoiadores, na semana passada, que utilizassem todos os canais diplomáticos disponíveis junto aos Estados Unidos para defender a continuidade do apoio.
Um porta-voz da agência da ONU para refugiados recusou-se a comentar.
“Não temos comentários sobre essa questão porque não dispomos de informações a respeito”, disse o porta-voz da ONU, Stephane Dujarric.
Um representante do Departamento de Estado americano afirmou que não houve mudanças no engajamento de Washington com o grupo de apoio à refugiados.
“Assim como fazemos com muitas outras organizações internacionais, trabalhamos com e por meio do ACNUR quando isso é útil para promover os interesses da política externa dos EUA ou salvar vidas”, afirmou.
“Continuaremos a avaliar o papel dos Estados Unidos nas organizações internacionais…”, acrescentou o porta-voz, referindo-se a uma Ordem Executiva de fevereiro de 2025 para revisar a participação e o financiamento dos EUA.
Desde o início de seu segundo mandato, no ano passado, o presidente Donald Trump cortou o financiamento de agências da ONU e retirou o país de dezenas de entidades da organização, incluindo a OMS (Organização Mundial da Saúde).
Autoridades do governo Trump também instaram outras nações a aderirem a uma campanha global para reduzir as proteções de asilo.
Dilema de liderança
A disputa gira em torno da nomeação, no mês passado, da diplomata de carreira dos EUA Tressa Rae Finerty para o cargo de vice-alto-comissária do ACNUR (Agência da ONU para Refugiados).
O secretário-geral da ONU, António Guterres, e o alto-comissário da ONU para Refugiados, Barham Salih, escolheram Finerty em detrimento de Simon Hankinson — um candidato apoiado pelos EUA e ex-funcionário do serviço diplomático que acusou o ACNUR de promover uma “agenda de migração em massa”.
“Se eles queriam uma reforma, um retorno à missão original do ACNUR de ajudar refugiados reais e uma inspeção cuidadosa de orçamentos e gastos, eu era a pessoa certa”, disse ele à Reuters, classificando Finerty como uma candidata que representa a manutenção do status quo.
A Reuters não conseguiu contato com Finerty para comentar o assunto.
Um ex-alto funcionário do ACNUR afirmou que Salih — ex-presidente do Iraque e também refugiado — teria enfrentado uma “rebelião” interna caso tivesse apoiado Hankinson.
Outras agências da ONU, como a Organização Internacional do Trabalho, também enfrentaram dilemas quanto à nomeação de autoridades dos EUA, em meio a questionamentos sobre o compromisso norte-americano com a cooperação global.
Andrew Veprek, secretário-assistente de Estado no Escritório de População, Refugiados e Migração dos EUA — que defende posições contrárias à migração —, esteve envolvido no apoio à candidatura de Hankinson, segundo duas das fontes. O Departamento de Estado dos EUA não quis comentar o envolvimento dele.
O principal doador
Segundo o ACNUR, os EUA foram o principal doador da agência em 2025, contribuindo com US$ 868 milhões (aproximadamente 4,5 bilhões de reais) — cerca de um quarto do total de contribuições..
O ACNUR já enfrenta uma crise financeira, uma vez que os recursos disponíveis caíram cerca de 30% em 2025 em comparação com 2024. A agência cortou milhares de postos de trabalho e anunciou novos cortes para este ano.
Diplomatas e autoridades ligadas à assistência humanitária afirmaram que uma retirada total dos EUA agravaria a crise e minaria o apoio à Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951, pilar do sistema de proteção aos refugiados do pós-guerra.
“Repensar isso representaria uma ameaça existencial para o ACNUR”, disse o ex-funcionário da agência.
“Poderia desencadear um efeito dominó de grandes proporções”, acrescentou.

