Sob o pretexto da guerra no Oriente Médio, o grupo IHR (Iran Human Rights), uma organização não governamental com sede em Oslo e membros dentro e fora do Irã, acredita que o regime iraniano intensificou as execuções.
Até o momento, neste ano, o regime executou pelo menos 47 presos políticos, um aumento expressivo em relação aos 16 executados no mesmo período do ano passado.
Em meio a protestos generalizados em todo o país no final do ano passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, alertou a liderança em Teerã contra uma repressão violenta aos manifestantes, dizendo que os Estados Unidos “iriam em seu socorro”.
Mas, à medida que Trump e a Casa Branca se cansaram do conflito e as repercussões econômicas globais pioraram, seu discurso suavizou e o apoio aos dissidentes iranianos diminuiu.
Niki Nikbakht vem de uma família muito unida. Ela folheia com carinho fotos de seus dois irmãos mais velhos, Hadi e Fazlollah, em sua casa em Osnabrück, no noroeste da Alemanha.
Em uma das fotos, Hadi sorri para ela enquanto abraça seus dois filhos. Ele também tem uma filha de 5 meses que nunca conheceu o pai. Ele está preso desde antes do nascimento dela, condenado à morte pela República Islâmica do Irã.
“Fico pensando: e se isso realmente acontecer? E se eu nunca mais vir meus dois irmãos?”, diz Nikbakht, lutando contra as lágrimas. “Mas aí eu digo para mim mesma: ‘Niki, você tem que continuar. Continue lutando. Seja forte. Não deixe isso te destruir.’”, completa.
Hadi, de 45 anos, e Fazlollah, de 50, são apenas dois dos muitos presos políticos iranianos condenados à execução no Irã neste momento.
O grupo IHR (Iran Human Rights), uma organização não governamental com sede em Oslo e membros dentro e fora do Irã, tem documentado casos como o deles e acredita que o regime intensificou as execuções sob o pretexto do conflito.
Nesta quarta-feira (15), o IHR denunciou a execução de Mohammad Amini Dehaghani, preso por participar dos protestos de janeiro e condenado à morte após o que o grupo de direitos humanos considera um “julgamento injusto”.
Até agora, neste ano, o regime executou pelo menos 47 presos políticos, um aumento expressivo em relação aos 16 executados no mesmo período do ano passado. A CNN entrou em contato com o Irã para obter um posicionamento.
“Alto custo político”
Quando protestos generalizados começaram no Irã no final do ano passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, alertou a liderança em Teerã contra uma repressão violenta aos manifestantes, dizendo que os Estados Unidos “iriam em seu socorro”.

O regime iraniano intensificou a repressão, empregando força letal para dispersar os manifestantes. O número de mortos é contestado, mas a agência de notícias HRANA (Human Rights Activists News Agency), sediada nos EUA, afirma ter confirmado a morte de mais de 6 mil manifestantes, com outras 17 mil mortes sob investigação.
O governo iraniano reconheceu mais de 3 mil mortes, mas atribuiu a maioria dos homicídios a “manifestantes violentos” que faziam parte do que descreveu como um complô organizado liderado por Israel.
Ainda assim, Trump afirmou que sua ameaça – e, posteriormente, a decisão de não intervir – impediram mais derramamento de sangue.
Semanas depois, quando os EUA e Israel lançaram uma guerra em grande escala contra o Irã, Trump pediu aos iranianos que “aproveitassem o momento” e “retomassem” o controle de seu país.
“A América está com vocês. Fiz uma promessa a vocês e a cumpri. O resto dependerá de vocês, mas estaremos lá para ajudar”, disse ele.
Mas, à medida que Trump e a Casa Branca se cansaram do conflito e as repercussões econômicas globais se agravavam, seu discurso suavizou e o apoio aos dissidentes iranianos diminuiu.
Quando os EUA e o Irã assinaram um acordo provisório de 14 pontos em 17 de junho, não houve menção a manifestantes, dissidentes perseguidos ou direitos humanos.
Ao mesmo tempo em que mantinha conversas com os EUA, o Irã já havia começado a intensificar as execuções, afirmam grupos de direitos humanos.
“Enquanto a atenção da comunidade internacional estava voltada para a guerra, o regime iraniano viu isso como uma oportunidade para executar prisioneiros políticos, porque, em circunstâncias normais, essas execuções levam à condenação internacional e têm um alto custo político”, disse Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor do IHR, à CNN.
A cada execução, o regime envia uma mensagem arrepiante: ainda estamos no comando e a dissidência não será tolerada.
“Confissões forçadas”
O aparente cheque em branco concedido ao regime, enquanto o mundo espera pela paz – e pela reabertura do Estreito de Ormuz – parece oferecer pouca esperança aos irmãos de Nikbakht.
Os dois foram presos antes dos protestos massivos de janeiro, em sua casa em Golpaygan.

Organizações de direitos humanos afirmam que eles foram detidos em 25 de outubro de 2025, quando as autoridades tentaram confiscar suas terras.
Os dois irmãos eram politicamente ativos há anos, tendo inclusive participado de uma campanha que pedia um referendo sobre a República Islâmica, mas no início de junho foram condenados à morte sob a ampla acusação de “fesad fil arz” – um crime capital segundo a lei iraniana que se traduz como “corrupção na Terra” – após serem acusados de incitar jovens a protestar contra as autoridades.
“A República Islâmica nunca quer admitir que tem opositores políticos ou presos políticos. Ela sempre tenta retratar pessoas politicamente ativas como criminosos perigosos, para poder alegar que representam uma ameaça à sociedade e justificar a pena de morte”, diz Nikbakht.
“Na realidade, isso cria medo na sociedade”, completa.
O Irã afirma que todos os prisioneiros na República Islâmica têm direito a um julgamento justo. Mas Nikbakht diz que seus irmãos estão detidos sem um julgamento adequado há meses e que o caso deles – e a sentença – foram acelerados após o início da guerra entre os EUA e o Irã.
“A guerra realmente teve um impacto”, diz ela.
Organizações de direitos humanos afirmam que, para justificar essas execuções, o regime está se baseando em confissões forçadas.
Nasser Bakerzadeh, de 26 anos, e Mehrab Abdollahzadeh, de 28, são dois exemplos. No início deste ano, eles confessaram crimes graves.
“Fotografei duas delegacias de polícia e enviei as fotos. Também tirei fotos de um salão em uma instalação da Sepah onde havia soldados”, diz Bakerzadeh em um vídeo compartilhado em 2 de maio pela mídia estatal iraniana, referindo-se ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica.
Mas, em telefonemas da prisão para familiares e grupos de direitos humanos durante seus últimos dias, ambos negaram os crimes que haviam admitido publicamente, alegando terem sido torturados e forçados a fazer falsas confissões.
“Fui submetido à mais severa tortura psicológica. Eles me deixaram sozinho naquela cela por 20 dias seguidos”, disse Bakerzadeh. “Eu tinha perdido a cabeça”, completou.

“Vocês estão ouvindo minha voz da Prisão Central de Urumieh, e esta pode ser a última vez que a ouvem”, diz Abdollahzadeh em uma gravação de dezembro compartilhada em 19 de fevereiro pela ONG Direitos Humanos do Curdistão.
“Desde o primeiro dia da minha prisão, eles me forçaram a confessar sob tortura e ameaças, confissões que eram totalmente falsas. Nenhuma das acusações contra mim é verdadeira. Eles sabem disso, e Deus sabe disso. Eu sou inocente.”
Organizações de direitos humanos afirmam que essas retratações não são uma surpresa.
“Todos os presos políticos que foram executados nos últimos três meses, segundo nossos registros, foram condenados com base em confissões obtidas sob tortura”, afirma Moghaddam, do IHR.
“Eles foram submetidos a longos períodos de confinamento solitário e, obviamente, não houve devido processo legal, nem acesso a um advogado de sua escolha”, destaca.
Tanto Bakerzadeh quanto Abdollahzadeh foram enforcados no início de maio.
O ativista curdo-iraniano Hamid Chapati dividiu uma cela com os dois homens, tendo ele próprio passado vários meses na notória Prisão Central de Urumieh, na província do Azerbaijão Ocidental.
“Para Nasser (Bakerzadeh), Mehrab (Abdollahzadeh) e todos os prisioneiros condenados à morte, cada dia pode ser o último e cada momento pode ser o último momento; à noite, eles não conseguem dormir”, disse ele à CNN.
Chapati fugiu recentemente do Irã para o Iraque, temendo ser executado. Ele falou com a CNN de um local sigiloso.
Chapati disse que Bakerzadeh lhe enviou uma mensagem por meio de um amigo em comum, dias antes de ser executado, dizendo que queria falar uma última vez. Mas essa conversa nunca aconteceu.
“Quando soube da notícia da execução dele, senti como se eu também tivesse sido executado”, disse Chapati.
É por causa de relatos como esses que Nikbakht sente que não pode parar seus esforços.
Ela precisa ser a voz de seus irmãos, usando a comunidade internacional e a mídia para aumentar a pressão sobre um regime que almeja a morte deles.
Mas não é uma tarefa fácil.
“Talvez eu sorria às vezes, mas é tudo o que consigo fazer na frente dos outros – sorrir e parecer forte”, diz ela.
“Por dentro, porém, fico me perguntando: por que isso está acontecendo? Por que as pessoas têm que passar por isso por quererem liberdade? É incrivelmente difícil.”

