A presença no Brasil tem sido decisiva para grandes empresas de infraestrutura alcançarem o topo do ranking mundial de rodovias sob operação privada.
Entre os dez maiores grupos do mundo, seis só consolidaram sua posição global por causa de seus ativos no país. E dois desses seis — Motiva (ex-CCR) e EPR — concentram 100% de sua carteira no mercado brasileiro.
O fenômeno está atrelado ao dinamismo das concessões federais e estaduais de rodovias, que ganharam tração nos últimos anos e atraíram players internacionais de peso.
De acordo com a ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias), a malha sob gestão do setor privado passou de 23,2 mil para mais de 32 mil quilômetros só entre 2020 e 2025.
Apesar do calendário eleitoral, o Ministério dos Transportes prevê 13 leilões neste ano. Outros estados — com destaque para São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Rio Grande do Sul — têm avançado em projetos com investimentos bilionários.
Hoje, conforme levantamento feito com base nos balanços e sites das próprias empresas, os dez maiores grupos privados de rodovias no mundo são:
- Vinci (França) – 8.193 km (1.165 km no Brasil)
- Abertis/Arteris (Espanha) – 7.430 km (2.680 km)
- Gavio/Ecorodovias (Itália) – 6.250 km (5.070 km)
- Motiva (Brasil) – 5.044 km (todos no mercado brasileiro)
- IRB (Índia) – 5.044 km (sem atuação no Brasil)
- Pátria (Brasil) – 3.423 km (2.475 km)
- EPR (Brasil) – 3.013 km (todos no mercado brasileiro)
- Austrade per l’Italia (Itália) – 3.000 km (sem atuação no Brasil)
- APRR Eiffage + Atlas Arteria (França) – 2.424 km (sem atuação no Brasil)
- Cube Highways (Índia) – 2.005 km (sem atuação no Brasil)
“O Brasil está circulando na boca dos investidores estrangeiros, especialmente dos europeus”, afirma o diretor-presidente da ABCR, Marco Aurélio Barcelos.
Sinal disso, segundo ele, é a quantidade de investidores que ingressaram recentemente no mercado brasileiro: Sacyr, OHLA, Copasa, Mota-Engil, Vinci. Além daqueles que venceram leilões, houve grupos que compraram ativos já operacionais, como a gestora australiana Macquarie.
“E segue havendo espaço para novos entrantes. A continuidade da agenda de leilões para os próximos anos, especialmente em 2027 e 2028, pode ser decisiva para esse movimento. Eu ainda esperaria atores que não participaram nas rodadas anteriores, inclusive players nacionais”, acrescenta Barcelos.
Para ele, o mercado brasileiro é atualmente o que mais traz oportunidades de retorno no mundo quando se trata de concessões de rodovias. Países europeus — como Espanha, França e Portugal — já estão atingindo a maturidade de seus contratos.
“Como esses países vivem um ‘excesso’ de infraestrutura existente e há resistências políticas em relação às tarifas, a perspectiva é de que muitos desses contratos não sejam renovados e o poder público assuma as infraestruturas que antes estavam sob concessão. Isso cria um desafio para as empresas europeias consolidadas, que deverão buscar — como já têm buscado — oportunidades para os seus negócios em outros continentes.”
O executivo lembra que, embora existam incertezas como a implementação e os efeitos da reforma tributária, o mercado “comprou” a agenda de concessões e reconhece avanços em questões como compartilhamento de riscos contratuais e qualidade do diálogo com os órgãos de controle.
Os entes subnacionais também avançam. Em Minas Gerais, por exemplo, havia apenas duas concessões estaduais em operação em 2020. Em 2026, já eram sete concessões em vigência, totalizando mais de 2,5 mil quilômetros sob gestão privada e R$ 18 bilhões em investimentos contratados.
A EPR, que tem os grupos Equipav e Perfin como acionistas, tem quatro operações diferentes no estado: Sul de Minas, Triângulo, Via Mineira e Vias do Café.
“A visibilidade dos projetos do governo federal continua sendo o grande destaque, mas entes subnacionais mais estruturados e que traduzem isso para uma comunicação mais globalizada entraram no radar dos investidores”, diz Gabriel Fajardo, diretor de concessões e parcerias da Codemge (Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais).
Ele destaca que as agências reguladoras e os próprios gestores do Poder Executivo têm conseguido demonstrar, para as empresas de fora, que zelam pela segurança jurídica dos contratos e tentam blindá-los de mudanças indevidas independentemente do viés político de quem ocupa o governo de ocasião.
Com esses requisitos, avalia Fajardo, o Brasil virou uma espécie de “bola da vez” para investimentos. “Temos um dos maiores portfólios de projetos no mundo e nosso ‘gap’ de infraestrutura ainda é muito alto”, conclui.
