A audiência pública entre representantes do setor produtivo e o governo dos Estados Unidos para discutir a proposta de imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros teve início nesta segunda-feira (6). Em entrevista à CNN, o ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) Roberto Azevêdo avaliou que a medida pode ter efeitos negativos sobre a própria indústria americana.
Azevêdo, que representa a CNI (Confederação Nacional da Indústria) nas negociações em Washington, explicou como funciona o processo de audiência. Segundo ele, as apresentações orais têm duração máxima de cinco minutos e são realizadas ao longo de dois dias, com vários painéis diários.
Os expositores falam diante de uma mesa composta por representantes oficiais — do USTR, do Departamento do Comércio e do Departamento de Estado — que, ao final de cada apresentação, podem fazer perguntas pontuais.
Argumentos técnicos e políticos nas negociações
As apresentações, segundo Azevêdo, estão estruturadas em duas frentes. A primeira é técnica, com o objetivo de rebater os argumentos utilizados pelo USTR para justificar a imposição das tarifas adicionais.
“Você explica que todos aqueles argumentos, todas aquelas insinuações, alegações, não fazem sentido, não se sustentam nem do ponto de vista fático, nem do ponto de vista jurídico”, afirmou.
A segunda frente é de natureza mais política, destacando a importância da colaboração entre os dois países e os riscos de prejudicar a integração das cadeias produtivas. “No fim das contas seria um tiro no pé dos dois países, mas sobretudo dos Estados Unidos, que é quem está impondo as medidas”, disse.
Azevêdo ressaltou que a decisão norte-americana não é de caráter ideológico em relação ao Brasil especificamente, mas sim parte de uma política industrial mais ampla que afeta cerca de 90 países. “Não é uma coisa bilateral”, explicou.
O objetivo, segundo ele, é duplo: estimular a reindustrialização dos Estados Unidos, encarecendo importações para favorecer a produção doméstica, e aumentar a arrecadação para financiar incentivos ao setor produtivo americano já aprovados pelo Congresso.
Perspectivas para a lista de exceções
Apesar de reconhecer que dificilmente será possível reverter a imposição das tarifas — afirmação que lhe foi feita diretamente em reuniões no Departamento de Estado e no STR —, Azevêdo vê margem para ampliar a lista de produtos isentos.
Atualmente, mais de 4 mil produtos brasileiros ainda serão afetados pelas medidas, o que representa um terço das exportações brasileiras para os EUA. “A lista já é grande, mas não grande o suficiente”, avaliou.
O especialista destacou que 62% das exportações brasileiras afetadas pelas tarifas são de insumos utilizados na cadeia produtiva norte-americana, e não produtos finais. Isso significa que a sobretaxação pode encarecer — e em alguns casos até inviabilizar — a produção dentro dos Estados Unidos. “Vai encarecer a produção dentro dos Estados Unidos. Em alguns casos, talvez até inviabilizar”, alertou.
Para obter exceções, Azevêdo afirmou que o caminho mais eficaz tem sido mobilizar aliados dentro dos próprios EUA — empresas e clientes americanos que dependem dos insumos brasileiros e que podem pressionar diretamente as autoridades norte-americanas. “Esse caminho tem sido muito mais eficaz do que o caminho das negociações”, concluiu.

