A participação da seleção da Escócia na Copa do Mundo tem ido além dos gramados e alimentado um debate político de grande relevância: o movimento separatista escocês. Jogando com hino próprio, bandeira própria e uniformes distintos, a equipe reforça, aos olhos de seus torcedores, a ideia de que o país já funciona como uma entidade independente no cenário internacional.
Diego Pavão, editor de Internacional, explicou ao Live CNN que a razão histórica para a Escócia competir separadamente no futebol remonta à criação da FIFA. “Os britânicos são considerados os criadores do futebol e, quando a FIFA foi se expandindo para o Reino Unido, foi uma exigência deles que os países que fazem parte do Reino Unido jogassem separados”, afirmou. Assim, a presença escocesa no Mundial serve como argumento simbólico para os separatistas: se o mundo do futebol já reconhece a Escócia como entidade separada, por que não em outras esferas?
Razões históricas e institucionais
A Escócia e a Inglaterra já possuem separação burocrática desde 1707. O país conta com currículos escolares e universitários distintos, leis próprias e um sistema judicial diferente. Para os separatistas, esse cenário já configura, na prática, um país independente.
“O argumento dos separatistas é o seguinte: a gente já funciona como uma instituição separada, como um país separado de fato. Sair do governo central de Londres seria uma mera formalidade”, destacou Pavão.
O impacto do Brexit
Um dos principais combustíveis do separatismo escocês foi o Brexit. Cerca de 62% dos escoceses votaram para permanecer na União Europeia, resultado muito diferente do obtido na Inglaterra. No entanto, por uma questão de peso populacional, os escoceses acabaram sendo arrastados para fora do bloco europeu junto com o restante do Reino Unido.
Diante disso, os separatistas passaram a argumentar que, com a independência, a Escócia poderia retornar à União Europeia — embora Pavão tenha ressaltado que “não é tão simples assim”.
Petróleo e diferenças políticas
Outro argumento levantado pelos separatistas diz respeito às reservas de petróleo. As maiores reservas de petróleo do território britânico estão localizadas em águas escocesas, no Mar do Norte. Para os defensores da independência, isso garantiria ao país uma fonte de sustento capaz de torná-lo autossuficiente e uma potência regional.
As diferenças políticas também alimentam o debate. Historicamente, os escoceses tendem a votar em pautas mais alinhadas à esquerda, enquanto o Reino Unido foi dominado por anos por um governo conservador. Pavão mencionou que, apesar de que o poder estivesse nas mãos do Partido Trabalhista de Keir Starmer, que renunciou recentemente do cargo de primeiro-ministro, o argumento de que as pautas defendidas em Londres não representavam os interesses dos escoceses permanece presente no imaginário político local.

