Quando a delegação iraniana desembarcou em Zurique, na Suíça, no fim de semana, o principal negociador, Mohammad Bagher Ghalibaf, foi o primeiro a descer a escada da aeronave, seguido pelo ministro das Relações Exteriores e outras autoridades.
Pouco depois, Ghalibaf publicou uma foto no X, mostrando-se caminhando na pista à frente do avião, cuja fuselagem estava adornada com a bandeira iraniana e a hashtag #Mindab168 — uma referência a um ataque dos Estados Unidos contra uma escola primária no sul do Irã, em março.
“Considero que as crianças inocentes de Mindab e todos os mártires do querido Irã estão observando cada uma das minhas ações”, escreveu ele no X.
Presidente do Parlamento iraniano e uma das figuras mais influentes do país, Ghalibaf está liderando o Irã na delicada próxima fase das negociações com os Estados Unidos, após quase quatro meses de guerra.
Aos 64 anos, ele emergiu como uma das autoridades mais importantes do Irã após uma série de assassinatos de altos líderes iranianos realizados por Estados Unidos e Israel. O ex-líder supremo Ali Khamenei e Ali Larijani, considerado um dos principais arquitetos da estratégia militar e diplomática iraniana, foram mortos em ataques aéreos.
“Ghalibaf finalmente alcançou uma posição de enorme influência por um processo de eliminação. Ele tentou chegar à presidência várias vezes, mas foi ofuscado por rivais que, desde então, foram retirados de cena pela guerra”, afirmou Ali Vaez, diretor do projeto sobre o Irã no International Crisis Group (Grupo de crise internacional, em tradução livred).
À medida que o IRGC (Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica) ampliou seu poder após os ataques dos Estados Unidos e de Israel, Ghalibaf, ex-comandante da força aérea da organização e conservador pragmático, ascendeu junto com ela.
Agora, ele ocupa a mesa de negociações diante de líderes americanos que ordenaram a morte de muitos de seus colegas e aliados.
A decisão inicial de encarregar Ghalibaf das negociações parece ter ocorrido porque os Estados Unidos precisavam de alguém com posição hierárquica superior à do ministro das Relações Exteriores iraniano para participar das conversas. Isso permitiria a Washington justificar o envio do vice-presidente JD Vance, segundo Ali Ahmadi, pesquisador do Centro de Política de Segurança de Genebra e do Instituto Suíço do Oriente Médio.
Em entrevista à CNN, Ahmadi observou que a dupla de negociadores normalmente utilizada por Donald Trump — Jared Kushner e Steve Witkoff — tinha credibilidade “extremamente limitada” entre os iranianos.
O governo Trump também provavelmente considera Ghalibaf “um dos poucos dirigentes iranianos que combina influência real com uma postura pragmática”, afirmou Vaez.
Ghalibaf se reuniu com JD Vance em Islamabad, em abril, no encontro presencial de mais alto nível entre autoridades iranianas e americanas desde a Revolução Islâmica Iraniana de 1979.
“Durante esse período, realizamos três rodadas de negociações trilaterais conduzidas presencialmente, na presença de mediadores”, afirmou Ghalibaf em entrevista à emissora estatal iraniana IRIB na quarta-feira.
Mesmo assim, havia muito pouca confiança entre as partes.
“Em Islamabad, eu disse diretamente ao sr. Vance: ‘Entramos nessas negociações sem nenhuma confiança em vocês’”, relatou.
No entanto, ao longo do fim de semana, Ghalibaf demonstrou que, apesar de seu perfil pragmático, não pretende facilitar uma vitória para os Estados Unidos.
Durante uma entrevista à Fox News no domingo (21), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pareceu fazer ameaças ao Irã, e até mesmo aos negociadores iranianos reunidos com JD Vance na Suíça, caso o Estreito de Ormuz não fosse reaberto.
“Se vocês o fecharem, não terão mais um país”, disse Trump ter afirmado às autoridades iranianas sobre a hidrovia. “Vocês nem sequer conseguirão voltar para o seu maldito país.”
Ghalibaf respondeu na rede X:
“Eles nunca param para pensar que, se suas ameaças realmente tivessem funcionado, não teriam chegado a esse nível de desespero hoje?”
Mais tarde, ele publicou uma foto mostrando o goleiro iraniano Alireza Beiranvand e outros jogadores se esforçando para impedir que a bola cruzasse a linha do gol, acompanhada da legenda:
“É assim que protegemos nossa terra.”
Um homem de vários chapéus
Ghalibaf tem um histórico de alternar entre momentos de prestígio e de rejeição tanto dentro da liderança iraniana quanto entre a população do país.
Ele já se gabou de ter agredido pessoalmente manifestantes quando era um jovem comandante da polícia, sem demonstrar qualquer constrangimento em relação ao seu papel na repressão a desafios contra a República Islâmica.
“Eu estava entre aqueles que realizavam espancamentos nas ruas e tenho orgulho disso”, disse Ghalibaf em um registro de áudio de 2013 sobre protestos ocorridos anos antes.
Para Ghalibaf, a segurança da República Islâmica sempre foi a prioridade absoluta. Suas declarações públicas enfatizam resistência, força nacional e a necessidade de enfrentar pressões externas, em vez de fazer concessões.
Não é surpresa, portanto, que ele esteja agora fazendo declarações quase diárias nas redes sociais em desafio aos Estados Unidos e a Israel.
Em março, Trump disse que os EUA estavam “lidando com o homem mais respeitado” no Irã, mas se recusou a dizer seu nome.
Alguns relatos afirmaram que ele se referia a Ghalibaf, que, poucas horas depois, negou que houvesse qualquer negociação entre Teerã e Washington.
Especialistas afirmam que ele possui conexões em diversos centros de influência do regime, o que lhe garantiria um papel fundamental em qualquer acordo negociado.
“Ele é quem está comandando o processo”, disse Hamidreza Azizi, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança.
Segundo Azizi, Ghalibaf se preocupa menos com ideologia e mais com poder, demonstrando, por vezes, um traço maquiavélico. “Para ele, os fins justificam os meios”, afirmou à CNN, apontando para suas mudanças de posição ao longo dos anos em temas econômicos e outros assuntos.
Ao longo de uma vida de serviço à República Islâmica, Ghalibaf se tornou um integrante típico do regime, profundamente leal à Revolução Islâmica Iraniana e favorável às suas ambições regionais.
Ainda adolescente, ele se juntou à Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica durante a guerra Irã-Iraque, nos anos 1980.
Esse foi o início de uma ligação duradoura com o grupo de elite, que se transformou em uma força poderosa tanto para reprimir dissidências internas quanto para projetar a influência do Irã no exterior.
Mais tarde, Ghalibaf comandou a força aérea da IRGC e já se gabou de suas habilidades como piloto. Um vídeo de outubro de 2024 mostra-o no comando de uma aeronave se aproximando de Beirute durante ataques aéreos israelenses.
Segurança em primeiro lugar
Azizi descreveu Ghalibaf como um oficial de “segurança em primeiro lugar”.
Ele esteve envolvido na repressão aos protestos estudantis pró-reforma de 1999 e estava entre aqueles que alertaram o então presidente Mohammad Khatami, um reformista, de que a instabilidade representava uma ameaça à segurança nacional.
Em 2003, como chefe da polícia, supervisionou a repressão a novas manifestações estudantis e ocupou um cargo sênior de segurança durante os protestos em massa que se seguiram à eleição contestada de 2009.
Ainda assim, Ghalibaf também tem reputação de gestor eficiente, graças a um mandato de 12 anos como prefeito de Teerã, período em que modernizou a infraestrutura da capital, implementou programas habitacionais ambiciosos e ampliou áreas verdes.
Azizi, que morava em Teerã na época, afirmou que Ghalibaf transmitia uma imagem de competência administrativa.
No entanto, sua gestão como prefeito foi marcada por frequentes acusações de corrupção, que voltaram à tona há quatro anos, quando sua família passou a ser investigada por declarar ativos significativos no exterior.
Ghalibaf há muito tempo nutre ambições por cargos mais altos. Ele tentou a presidência várias vezes sem sucesso, mas acabou dividindo o voto conservador. Na eleição do ano passado, terminou em terceiro lugar, com cerca de 14% dos votos.
Sua base de poder acabou se consolidando no parlamento iraniano, onde atua como presidente desde 2020, em parte graças ao apoio do ex-líder supremo Ali Khamenei.
Ao longo de sua carreira, Ghalibaf permaneceu estreitamente alinhado à Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e, em alguns momentos, entrou em conflito com outras figuras conservadoras, incluindo o ex-presidente Ebrahim Raisi. Ele foi um dos primeiros apoiadores de Mojtaba Khamenei, filho de Khamenei, que agora sucedeu o pai, mesmo quando o mais jovem era considerado improvável para o cargo.
Ghalibaf também está ligado ao novo líder supremo por laços familiares. Ele é parente da mãe de Mojtaba, que morreu devido aos ferimentos sofridos no ataque israelense que matou seu marido em 28 de fevereiro.
Ao negociar em nome do Irã, seu histórico sugere que ele buscará dissuasão e força, em vez de concessões.
Agora ele precisa lidar com várias tarefas ao mesmo tempo. Ele deve convencer facções linha-dura em todo o Irã — que continuam a ver Washington com desconfiança — a aceitar um acordo com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que busca o apoio de reformistas como o presidente Masoud Pezeshkian, além de milhões de cidadãos iranianos que votaram em um presidente reformista na esperança de alcançar a paz com o Ocidente.

