Quando Arthur Masuaku cruzou para Yoane Wissa cabecear ao gol dentro da pequena área de Portugal, diversos congoleses entoavam o grito “Lelo Lelo Ibeba”. Isso chamou atenção daqueles passavam no metrô Vila Madalena na tarde desta quarta-feira (17).
Foi na Casa Marx, uma livraria de cara com a estação da Zona Oeste de São Paulo, onde cerca de 60 pessoas, boa parte imigrante, se reuniram para assistir RD Congo x Portugal. O primeiro jogo de Copa da Seleção africana em 52 anos.
Boa parte daqueles que comemoraram o primeiro gol do país na história do torneio não eram nascidos quando o país o disputou pela última vez em 1974, ainda quando se chamava Zaire.
Inclusive Grevisse Mulamba, de 38 anos, que andava para cima e para baixo com a bandeira de seu país. No Brasil há 12 anos, Grevisse trabalha no Centro de Atendimento para os Imigrantes, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos.
O congolês e outros que também foram assistir ao empate contra Portugal pela primeira rodada do grupo K se organizaram com o coletivo Voz do Congo em parceria com a organização do estabelecimento.
“A nossa alegria é tão imensa em ver que passou duas gerações para a gente viver esse momento. Para outros times, é uma participação de uma Copa do Mundo, mais uma Copa, mas para a gente é um momento de entrar e fazer história”, disse ainda durante o intervalo da partida, ainda comemorando.
Um dos coordenadores da Casa Marx, Marcelo Pablito, explicou que não foi o primeiro evento do tipo organizado pela livraria e cafeteira. Na terça-feira (16), também fizeram a mesma festa para o jogo do Senegal contra a França.
“Para nós é maravilhoso, porque muitas vezes a gente acaba se encontrando em momentos que tem imigrantes que estão sendo perseguidos, mortos até, ver a situação toda de precarização, de miséria, exploração, que eles estão sofrendo lá. E para a gente, nesse momento, estar comemorando, vibrando ao lado deles, é uma grande alegria para nós”, relatou à CNN.
Marcelo destaca também a crise humanitária que acontece no leste do país africano, entre os rebeldes, que controla o exército e as milícias locais.
“Nós estivemos aqui com os companheiros da comunidade congolesa no dia do Genocost, que é o dia que eles demonstram para o mundo todo o custo do genocídio que está acontecendo na República Democrática do Congo”, explica.
A música cantada pelos torcedores leopardos, “Lelo Lelo Ibeba”, segundo Grevisse, é um canto de guerra. “Então, quando a gente canta quer dizer que hoje a gente vai para a guerra mesmo. É vida ou morte. Não vou deixar, hoje eu vou para a guerra mesmo”, explicou.
Semi-finalista nas últimas duas edições da Taça das Nações Africanas, a seleção congolesa teve que batalhar pela sua classificação na Copa do Mundo. Depois de bater Camarões e Nigéria nas eliminatórias africanas e vencer a Jamaica na prorrogação da repescagem internacional, enfim estavam de volta à competição.
Bakambu, uma das valvulas de escape do time, é tido como o craque da seleção e inflamava a torcida quando tentava sustentar as primeiras bolas longas e escapava para os contra-ataques.
“Não é uma força física, mas também uma força tática de jogo, um jogo inteligente, bem posicionado, que não é mais aquele time africano que sempre pensava na força. Mas hoje a gente vê que tem um sistema de jogo, tem um entendimento de que temos os novos jovens que jogam nos grandes times na Europa, em qualquer lugar do mundo”, relatou Grevisse.
Antes de chegar aos Estados Unidos, o país bateu na trave nas últimas eliminatórias. Em 2018, ficou em 2º lugar do grupo com 13 pontos no grupo A, atrás da Tunísia, com 14, que ficou com a única vaga. Em 2022, caiu na terceira fase contra a semifinalista da Copa daquele ano, Marrocos.
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