O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou, na segunda-feira (15), de uma reunião bilateral com o presidente francês, Emmanuel Macron, à margem da Cúpula do G7, realizada em Évian-les-Bains, na França. O encontro ocorreu no mesmo dia em que o presidente americano, Donald Trump, dominava as atenções do evento com o anúncio de um acordo provisório para encerrar a guerra com o Irã.
Segundo o correspondente e analista sênior de Internacional da CNN, Américo Martins, Lula foi o primeiro líder a chegar ao local da cúpula e, logo após o encontro com Macron, publicou nas redes sociais um agradecimento ao líder francês, com quem mantém uma “excelente relação diplomática”.
Esta é a décima vez que Lula participa de uma reunião do G7 — mais do que qualquer outro representante dos países que integram o grupo.
Agenda de Lula na cúpula
Lula deve fazer ao menos três discursos durante a cúpula. Um deles será voltado ao tema do desenvolvimento, com críticas previstas aos países ricos por cortarem recursos destinados ao chamado Sul Global.
Em outro, deve defender o multilateralismo e criticar a imposição de tarifas unilaterais — numa referência direta aos Estados Unidos, que ameaçam impor uma tarifa de 25% sobre praticamente todas as exportações brasileiras, além de 12,5% adicionais em investigação relacionada ao uso de trabalho análogo à escravidão.
O terceiro discurso abordará a necessidade de regulamentação da inteligência artificial e do ambiente digital. Há ainda a possibilidade de um encontro com o presidente Donald Trump, uma vez que todas as reuniões do G7 devem acontecer no Hotel Royal.
Viagem com foco eleitoral
Para o analista de Política da CNN Caio Junqueira, a viagem tem um caráter predominantemente doméstico. “Vejo a viagem do presidente muito mais como uma viagem para ganhos domésticos, política eleitoral, eleição”, afirmou.
Segundo ele, o tema se encaixa na narrativa do Partido dos Trabalhadores para as próximas eleições, especialmente diante da postura da oposição nos Estados Unidos em relação ao tarifaço. Junqueira destacou ainda que Lula demonstra preferência por atuar como chefe de Estado em vez de chefe de governo, dedicando-se mais à política externa do que à gestão interna.
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna avaliou que o G7 com a presença de Trump tem como principal objetivo “não ser um desastre completo“, lembrando episódios anteriores em que o americano deixou o encontro antecipadamente ou criticou aliados nas redes sociais.
Lourival destacou que, neste momento, o assunto dominante é o Estreito de Ormuz e os desdobramentos do acordo com o Irã, o que deixa temas como inteligência artificial e regulação de redes sociais em segundo plano.
Segundo o analista, países como França e Reino Unido têm capacidade significativa de apoio à desminagem do estreito — a França possui mais de 20 navios caça-minas e o Reino Unido quase 20, enquanto os Estados Unidos têm apenas quatro —, o que abre espaço para uma pauta de cooperação.
Tarifas e o caso do Pix
Lourival Sant’Anna avaliou que o Brasil não tem apresentado propostas concretas de negociação comercial com os Estados Unidos. “O Brasil não ofereceu nada de substancial em troca”, disse, acrescentando que o país argumenta ter um déficit comercial e tarifas efetivas baixas, mas mantém tarifas potenciais elevadas sobre produtos industriais e automóveis.
Ele classificou como “inaceitável” a exigência americana de que o Brasil abra mão do Pix em favor dos cartões de crédito americanos.
A âncora da CNN Thais Herédia lembrou que, quando o Banco Central lançou o Pix, empresas americanas operadoras de cartão chegaram a tentar abrir processos contra o sistema no Brasil, sem sucesso. Ela observou que o texto utilizado na investigação americana teria semelhanças com o texto apresentado no Brasil na época.
“Trump acabou dando com isso um presente para o Lula transformar isso numa bela peça de campanha”, concluiu.
Para Caio Junqueira, a narrativa que o Palácio do Planalto busca consolidar é a de que Lula defende os interesses nacionais de forma mais eficaz do que a oposição — e a viagem ao G7 serve diretamente a esse propósito.

