Sem perspectiva clara de encerramento, a guerra no Oriente Médio – que completa 100 dias – já produz efeitos que vão além do choque inicial sobre a oferta global de petróleo. No Brasil, as condições de crédito tendem a se deteriorar nos próximos trimestres, em um cenário de inflação mais resistente e juros elevados, fatores que afetam diretamente o agronegócio.
A avaliação é de economistas da Fundação Getulio Vargas (FGV), que alertam para um ambiente mais desafiador para produtores rurais. Mesmo em segmentos beneficiados por preços mais altos das commodities, o aumento dos custos de produção pode comprometer a rentabilidade da atividade.
Durante webinar sobre a conjuntura econômica, os especialistas destacaram que dois fatores concentram as principais preocupações para o agro: a persistência da inflação e os efeitos climáticos associados ao El Niño.
Segundo os economistas, o conflito no Oriente Médio elevou os riscos de alta nos preços internacionais do petróleo, com reflexos sobre combustíveis, fertilizantes, transporte e energia. Esse encarecimento da cadeia produtiva tende a pressionar a inflação dos alimentos e reduzir as margens dos produtores rurais.
Até agora, o desempenho das safras de grãos e exportações de carnes sustentaram números sólidos do PIB do Brasil, entretanto, com o avanço do El Niño, o prejuízo ao agro pode ser “muito ruim” e prejudicar toda a performance econômica, explica Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV IBRE.
“Choque do petróleo retira a rentabilidade da agropecuária, por isso o setor pede benefícios ao governo [para se subsidiar]”, afirma Matos.
Para a economista, o ciclo de inflação elevada deve permanecer por mais tempo do que o previsto inicialmente. Embora os preços agrícolas possam subir em alguns mercados, os custos dentro da porteira avançam em ritmo semelhante ou superior, reduzindo os ganhos do produtor.
Além da inflação, a FGV vê com preocupação os efeitos do El Niño sobre a produção agropecuária. O fenômeno climático tem potencial para alterar o regime de chuvas em importantes regiões produtoras, afetando produtividade, qualidade das safras e volumes exportáveis.
Como o agronegócio responde por cerca de um terço da economia brasileira quando consideradas suas cadeias produtivas, eventuais perdas na produção podem se refletir diretamente no crescimento do país.
Até agora, o desempenho das safras de grãos e das exportações de carnes sustentou resultados positivos para o Produto Interno Bruto (PIB). Entretanto, caso os impactos climáticos se intensifiquem, o prejuízo ao agro pode ser significativo e comprometer parte da atividade econômica, avalia Matos.
No campo monetário, a inflação mais persistente e a desancoragem das expectativas tornam mais difícil uma redução dos juros.
Para José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV IBRE, o ciclo de flexibilização monetária chegou ao fim e o cenário para as condições financeiras se tornou mais adverso.
O economista não descarta, inclusive, uma elevação da taxa de juros entre este ano e 2027. Caso isso ocorra, o crédito ficará mais caro, aumentando os custos de financiamento e investimento no campo.
Diante desse cenário, a FGV projeta crescimento de apenas 1% para o PIB no próximo ano. “Os juros só vão cair se tiver um plano fiscal bem definido”, afirmou Matos.
No front fiscal, o quadro é ambíguo. Como produtor e exportador de petróleo, o Brasil tende a se beneficiar de preços internacionais mais elevados, o que melhora as estimativas de arrecadação ligadas ao setor de óleo e gás.
Por outro lado, eventuais medidas para compensar o aumento dos combustíveis e de outros custos para famílias e empresas podem reduzir parte desse ganho e reacender debates sobre estímulos fiscais em um período pré-eleitoral.
A combinação de inflação pressionada, juros elevados por mais tempo, riscos climáticos associados ao El Niño e incertezas fiscais cria um ambiente mais complexo para a economia brasileira.
Para o agronegócio, a equação é especialmente sensível: custos mais altos, crédito mais caro e possíveis perdas de produtividade podem limitar a contribuição do setor para o crescimento do país nos próximos anos.

