As negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos ainda estão em um momento “incipiente” e a chance de reverter as possíveis tarifas americanas é remota, afirmou o ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) Roberto Azevêdo ao WW. Segundo Azevêdo, ajustes são possíveis – mas não uma reversão completa da situação.
“Muito difícil ver espaço para alteração no curso nesse momento… A possibilidade disso é muito baixa, remota, por melhor que essas negociações possam vir a se desenvolver”, disse.
Nesta terça (2), os americanos propuseram uma taxa de 25% contra diversos produtos brasileiros. O USTR (Escritório Representante Comercial dos Estados Unidos), a partir de uma investigação com base na Seção 301 da Lei Comercial do país, acusou o Brasil de “práticas comerciais e políticas injustas” contra Washington.
“Por definição, as medidas americanas têm que identificar práticas que são desleais, ou consideradas desleais, que prejudicam os interesses da indústria americana”, detalha. “Eles ‘jogam a tarrafa’ para ter certeza que o resultado da investigação seria positivo. Neste aspecto, ele tem o foco exclusivo sobre o Brasil”, completa o embaixador.
O governo de Donald Trump focou a acusação em seis áreas: comércio digital e sistemas de pagamento (como o Pix), tarifas preferenciais injustas, fortalecimento do combate à corrupção, acesso ao mercado de etanol, combate ao desmatamento ilegal e proteção da propriedade intelectual.
O especialista aponta que Trump busca “driblar” a decisão da Suprema Corte do país que suspendeu parte do tarifaço de abril de 2025. Os magistrados consideraram o uso da IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional) ilegal para a aplicação de impostos de importação. A IEEPA era o mecanismo que o governo Trump usou no período.
“A Seção 301 era um plano B para a eventualidade do tarifaço ser revertido pela Corte Suprema americana. Então, eles precisavam de algo que desse uma fundamentação jurídica melhor à aplicação dessas tarifas adicionais”, disse.
Azevêdo explica que a situação está longe de ser uma surpresa. O USTR iniciou a investigação contra o Brasil em julho do ano passado, justamente contra os pontos de acusação formalizados nesta terça.
Além disso, também manteve na sugestão de tarifa de 25% a lista de exceções anteriores, como carne, café e peças de aviação. “O que mudou foi apenas o valor da tarifa, que antes era 40% e agora baixou”, diz Azevêdo.
O Palácio do Planalto disse que recebeu o texto com “indignação” e que não há espaço para a aplicação de medidas unilaterais por parte da Casa Branca. Membros do governo acreditam que a ameaça de uma nova taxa é uma tentativa de pressionar o Brasil a ceder em uma série de negociações com os americanos. Mas ainda veem um espaço de diálogo entre Brasília e Washington.
Azevêdo aponta que, conforme os avanços nas reuniões, os negociadores brasileiros não precisariam ficar “presos” aos pontos que os EUA deixaram na investigação.
“Você não precisa negociar etanol, a regulamentação das big techs, ou a forma de operação do Pix… Não precisa. A negociação está absolutamente em aberto, ela pode envolver qualquer coisa”, afirmou. “O céu é o limite.”
Entre os possíveis pontos de ajuste, estão temas como terras raras. O Brasil detém grandes reservas desses minerais, mas pouca capacidade de refino. Os Estados Unidos têm interesse em aumentar a cooperação bilateral nesse tema, mas as tratativas pouco avançam. Outro seria uma redução de barreiras comerciais mútuas, como as taxas brasileiras contra automóveis e outros produtos.
O ex-diretor-geral da OMC explica que o cenário político, no entanto, pode ter interferência nos rumos das reuniões.
“Essa aproximação e identificação de oportunidades passa por um diálogo intenso, confiança mútua, capacidade e desejo de negociar. Tenho sérias dúvidas se, em um ano eleitoral, a negociação é o melhor resultado para um contexto em que a animosidade, a briga, o inimigo externo, pode angariar votos com mais facilidade”, finalizou.

