Abelardo de la Espriella, candidato antissistema de direita, obteve 43,74% dos votos válidos no primeiro turno das eleições colombianas, superando Ivan Cepeda, apadrinhado de Gustavo Petro, que terminou com 40,9%. O segundo turno está marcado para 21 de junho. O resultado acendeu o debate sobre uma crescente tendência de avanço da direita na América Latina.
O desempenho expressivo de Espriella — conhecido pelos apoiadores como “El Tigre” — surpreendeu analistas.
Advogado e empresário, ele promete replicar na Colômbia as políticas de segurança adotadas por Nayib Bukele em El Salvador, com a construção de grandes presídios de segurança máxima, além de defender um alinhamento com Estados Unidos e Israel para aquisição de armamentos e tecnologias militares. Seu programa prevê ainda um corte de 40% nos gastos do Estado.
O colapso do centro e a ascensão dos “outsiders”
O cientista político e professor de Relações Internacionais da USP Feliciano de Sá Guimarães destacou que o fenômeno observado na Colômbia não é isolado. “É uma coisa mais generalizada”, afirmou.
Segundo o professor, o resultado evidencia a destruição da centro-direita tradicional colombiana, representada no primeiro turno por Paloma Valencia, do partido do ex-presidente Álvaro Uribe, que obteve apenas 6% dos votos.
Apesar do fraco desempenho, Valencia já declarou apoio a Espriella para o segundo turno. A expectativa é que entre 60% e 70% de seus votos migrem para o candidato de direita.
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna reforçou a avaliação ao comparar Espriella a outros líderes do mesmo perfil na região. “Ele é um sangue puro antissistema, do tipo do Javier Milei”, disse, ressaltando semelhanças com o estilo e a retórica de líderes como Bukele.
Lourival também mencionou Pablo Marçal, que foi candidato à prefeitura de São Paulo, como exemplo brasileiro desse mesmo fenômeno de “outsiders” com apelo popular e discurso antissistema.
Tendência continental e a “praga dos incumbentes”
Desde 2025, a direita venceu na Bolívia, no Chile e em Honduras, além de se manter no poder após eleições no Equador e na Costa Rica. No Peru, a conservadora Keiko Fujimori enfrenta o esquerdista Roberto Santos Palomino em segundo turno, com pesquisas apontando vantagem para a candidata de direita.
Gustavo Petro, Claudia Sheinbaum no México e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil são apontados como as principais lideranças da esquerda na região, que tem registrado perda de espaço.
Feliciano de Sá Guimarães apontou um padrão estrutural que explica essas derrotas dos governantes em exercício na América Latina. “Existe uma discussão muito densa sobre a ‘praga dos incumbentes’ na América Latina”, explicou.
Segundo ele, a região é muito sujeita aos ciclos das commodities e há um grande descompasso entre as expectativas dos eleitores e a capacidade dos Estados de entregar benefícios sociais e econômicos. No caso da Colômbia, o programa “Paz Total” de Petro gerou expectativas elevadas que não foram cumpridas, contribuindo para a frustração do eleitorado.
Colômbia, Estados Unidos e o peso da política externa
Feliciano de Sá Guimarães ressaltou a influência histórica de Washington sobre a política colombiana, ressaltando que a Colômbia é historicamente o maior aliado dos Estados Unidos na América do Sul.
Ele alertou, no entanto, que uma intervenção americana aberta em favor de um candidato pode “dar um tiro pela culatra”, citando o efeito conhecido como “rally around the flag” — a tendência de eleitores apoiarem seu governo quando o país sofre pressão externa.
Caso Espriella seja eleito, o cientista político prevê um governo de difícil governabilidade, dado que o maior partido no Congresso colombiano continua sendo o Pacto Histórico, de Petro e Cepeda, e que Espriella não possui partido político próprio.

